Quando pensamos em autoritarismo e perda das liberdades na América Latina, no pós-guerra, sobretudo, temos imediatamente o modelo do golpe militar na cabeça. Assim, podemos citar o Brasil de 1964, o Chile de 1973 e a Argentina de 1976, exemplos quase acabados disso. Recorrendo quase sempre à violência, esse tipo de intervenção destrói as instituições de fora para dentro, digamos assim.
Mas há outro caminho em direção ao autoritarismo, podendo igualmente desembocar em uma experiência fascista ou muito próxima dela, pautado por uma espécie de longa marcha através das instituições. É o caminho inverso, ou seja, de dentro para fora, mas ameaçando a Democracia tanto quanto o golpismo militar. Esse é o caminho que se produz por intermédio da corrupção e da demagogia, corroendo as instituições de seu interior.
Não estamos nos referindo ao chamado autogolpe, como em novembro de 1937, inaugurando o Estado Novo de Vargas. Trata-se de outra coisa, isto é, da perpetuação de um grupo no poder a partir do controle ou manipulação da máquina do Estado, recorrendo a eleições inclusive. Aí passa a valer tudo. O populismo latino-americano é mestre nessa arte. Farsante é o que não falta sob a cena regional, pródiga em matéria de atos ilícitos.
Verificou-se isso na prática gradual de partidos fascistas em países como a Itália e a Alemanha. Adolf Hitler, por exemplo, era um sujeito desqualificado, alguém que levou para o terreno da atuação política a sua lógica de extermínio, própria dos meios marginais. Política pressupõe negociação e entendimento, nunca destruição do adversário, tratado como inimigo pura e simplesmente. Assíduo frequentador da bandidagem, com ele a delinquência assumia o controle do Estado, abrindo a via para toda uma série de experiências criminosas no decorrer do século XX. O avanço do crime organizado no aparelho de Estado, no Brasil, por exemplo, vem na esteira desse processo inaugurado por Adolf Hitler e seus comparsas. Este avanço reúne exatamente o lumpesinato e os representantes do grande capital no interior da máquina pública.
Um parêntesis agora. Certa vez, e isso se deu há quase três décadas, um jovem cineasta francês veio conversar comigo a propósito do fenômeno nazista. Eu disse a ele que, provavelmente, não era a pessoa mais indicada para examinar tal fenômeno, pois não era nem de longe um especialista no assunto. Apenas tinha vivido um período na Alemanha, na primeira metade da década de 70, tendo me interessando pelo fenômeno da ascensão dos nazistas ao poder.
Como ele insistiu, eu dei então a minha opinião, com base nessa visão da tomada do poder pelos marginais de todos os matizes. Dois meses depois, ele me mandou um recado, dizendo que este seria o melhor caminho para compreender o que passou na Alemanha nos anos 30, e que, em suas pesquisas, ele verificou que aquilo que eu lhe dissera tinha fundamento, uma vez que muitos nazistas tinham os pés fincados na criminalidade. Ou seja, não eram políticos ou sequer políticos corruptos: e, sim, criminosos, pura e simplesmente.
Por essa mesma época, escrevi uma matéria em um jornal carioca, apontando para o fato de que o capitalismo estava deixando de ser um o modo de produção para se tornar um modelo de depredação das forças vivas do trabalho e da natureza, destruindo tudo ao seu redor, inclusive os valores mais elementares do convívio humano. O fascismo foi a primeira expressão disso.
Sem dúvida, os dois modelos - isto é, de fora para dentro ou de dentro para fora - levam ao mesmo resultado autoritário. E quem sai perdendo é a liberdade.
*Ivan Alves Filho, historiador

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