O Globo
Lula ganhou de presente o tema da “traição da
pátria” e os ataques do governo dos Estados Unidos ao Pix
A questão de “traição da pátria” volta e meia entra na discussão política porque a globalização coloca quase diariamente diante dos líderes de governos questões delicadas que não se limitam mais a seus países, mas à geoeconomia expandida. Os bolsonaristas são críticos da globalização, mas se colocam à disposição do governo dos Estados Unidos na maioria das situações. O mesmo acontece com o próprio Trump: assumiu o governo dizendo que não meteria o país em novas guerras, mas só faz isso. A globalização que tanto critica é a razão de acionar a metralhadora giratória para todos os lados.
Os petistas, por seu lado, sempre praticaram
política externa tendente a apoiar governos de esquerda, ou que têm
divergências com os Estados Unidos, como China e Rússia, e são criticados por
isso, assim como os bolsonaristas são acusados de submissão ao governo Trump. A
Rússia há muito tempo deixou de ser comunista, mas carrega em seu DNA a
oposição aos Estados Unidos, que deixou de ser ideológica para ser uma disputa
do poder globalizado. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, acha que o
governo brasileiro carrega no DNA a oposição aos Estados Unidos e nos compara
com países esquerdistas como Venezuela, Cuba e Nicarágua.
A comparação é exagerada, porque os governos
petistas já tiveram a veleidade de querer dominar as instituições nacionais
para controlá-las ideologicamente, mas encontraram mais resistências do que
esperavam, mesmo no primeiro mandato de Lula, quando ele controlava o Congresso
com o mensalão. Hoje, querem o poder pelo poder e estão cada vez mais longe
dele. A direita brasileira detém o controle do Congresso, e o PT tem o maior
líder populista da História recente, mas é fraco como partido político e domina
apenas no Nordeste, mesmo assim seu poder está em decadência. O que o salva é o
próprio Lula, por isso a hipótese de ele desistir da candidatura, que já foi
uma possibilidade, está descartada.
Bolsonaro, aparentemente, tem mais poder de
fogo preso do que Lula teve quando esteve na mesma situação. A transferência de
votos do pai para o filho Flávio foi surpreendente. O mesmo não aconteceu com
Fernando Haddad quando substituiu Lula na disputa presidencial. Com máscara de
Lula e tudo, não foi páreo para Bolsonaro. Não é possível medir hoje o que
aconteceria se Bolsonaro escolhesse o governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas, como seu sucessor, mas ele não quis arriscar e pôs na pista um
candidato sangue do seu sangue, para que ninguém tivesse dúvidas de que era ele
quem disputaria contra Lula.
Até agora Flávio tem mostrado resiliência,
mas também capacidade infinita de cometer erros. A resiliência deve-se ao
sobrenome, os erros também, pois a família não parece ter capacidade de conter
arroubos e tem estratégias que soam estranhas. Mas, sobretudo, tem uma história
de ligações com milicianos e outros tipos que inevitavelmente será explorada na
campanha. Lula ganhou de presente o tema da “traição da pátria” e os ataques do
governo dos Estados Unidos ao Pix, que é coisa nossa e, estranhamente, o clã
Bolsonaro não explorou na campanha eleitoral passada. Tardiamente, Flávio tenta
resgatar o tema, já assumido por Lula.
Assim como Bolsonaro pai teve no economista
Paulo Guedes uma chave para entrar na classe financeira e empresarial do país,
Flávio tem ainda essa carta na manga se encontrar um economista liberal de nome
reconhecido que aceite participar de sua campanha. O eleitor independente,
nossos swing voters tupiniquins, teme que Lula, ao atingir seu quarto mandato,
radicalize em suas posições esquerdistas. Mas teme também que Flávio submeta o
país ao controle abusivo dos Estados Unidos governado por Trump.

Nenhum comentário:
Postar um comentário