sexta-feira, 5 de junho de 2026

Trump prende o Brasil no ‘Dia da Marmota’, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Bolsonaro não tem apoio, mas a agenda de reformas tem

E por falar em Estados Unidos, a sensação é de que estamos presos em um looping, nós, brasileiros, sob a ofensiva tarifária, que se repetiu quando parecia superada; eles, americanos, movidos por uma megalomania que um mundo multipolar já não comporta mais. A sensação é de que, há tempos, dormimos e acordamos no mesmo Dia da Marmota, como naquela reprise da Sessão da Tarde. Com a singularidade de que não existem marmotas no Brasil. Quem não se lembra de Bill Murray no filme “Feitiço do tempo”, de 1993, que, no papel de um jornalista especializado em clima, vai cobrir o Dia da Marmota - Groundhog day, no original, em inglês - festa que leva milhares de turistas a uma pequena cidade da Pensilvânia.

Sempre em 2 de fevereiro, as atenções se voltam para Phil, a marmota de estimação dos moradores de Punxsutawney, que pela tradição, poderia prever o fim do inverno. Se saísse da toca em um dia de sol, ele se assustaria com a sombra e retornaria ao abrigo, o que significavam mais semanas de frio. Mas se Phil aparecesse em dia nublado, não haveria sombra, e ele ficaria do lado de fora, sinalizando que a primavera chegaria mais cedo. O personagem de Murray tenta deixar a cidade, é impedido por uma nevasca, e volta ao hotel para dormir. No dia seguinte, ele acorda no mesmo Dia da Marmota, e assim, sucessivamente.

Como o personagem de Murray, os brasileiros despertaram de sonos intranquilos no começo da semana, como se acordassem em julho de 2025, quando o presidente Donald Trump, insuflado por movimentos da família Bolsonaro, lançou a tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras, exigindo a suspensão do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Já naquela carta, mencionou a abertura de investigação contra o Brasil, baseada na Seção 301, que agora embasou as novas tarifas de 25% e de 12,5% sobre os nossos produtos.

Naquela ocasião, o economista americano Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, além de criticar o tarifaço, chamou Trump de “malvado e megalomaníaco” em artigo no New York Times. Ele ponderou que em um mundo globalizado, no qual a hegemonia americana passou a ser confrontada por novos players como China, Índia, Ásia Central e União Europeia, Trump deveria se dar conta de que a economia brasileira não dependia de Washington. “Será que Trump realmente imagina que pode usar tarifas para intimidar uma nação enorme, que nem sequer é muito dependente do mercado americano, a ponto de fazê-la abandonar a democracia?”, questionou, lembrando que a China havia ultrapassado os Estados Unidos como principal parceiro comercial do Brasil.

Na quarta-feira (3), dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) chamaram a atenção ao revelar que, pela primeira vez, a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu para apenas um dígito, ou seja, 9,7% em maio deste ano. No mesmo mês de 2025, antes do primeiro tarifaço, esse índice foi de 12%. Em contraste, a participação da China nas nossas exportações, relativa a maio, foi de 32,9%. No mesmo mês de 2025, foi de 32%.

Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), nossas exportações para os Estados Unidos vêm recuando desde o tarifaço do ano passado. A maior queda se deu em outubro, equivalente a 35%. Em janeiro, houve redução de 26%, mas esse percentual vem diminuindo: foi de 20% em fevereiro, 10% em março, e 10% em abril. Mas o baque foi maior em maio, de 14%.

Outro dado evidencia a resiliência das nossas exportações. Apesar do tarifaço de 50%, as exportações brasileiras alcançaram recorde histórico em 2025. Segundo o Mdic, somaram US$ 348,7 bilhões, superando em US$ 9 bilhões o recorde anterior, que era de 2023. Mais de 40 mercados registraram recorde de compras de produtos brasileiros em 2025, com destaque para Canadá, Índia, Turquia, Paraguai, Uruguai, Suíça e Noruega.

É preciso salientar que o fôlego das nossas exportações não significa que o Brasil dará as costas a Washington, com quem mantém relações de mais de 200 anos. Apesar do recuo nos últimos meses, o volume de comércio que pode ser afetado pelas novas tarifas de 25% e 12,5% totaliza US$ 15 bilhões, segundo a Câmara Americana de Comércio para o Brasil.

Autoridades diplomáticas e do governo brasileiro atuam, na instância técnica, para tentar reverter as novas tarifas, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Trump não retomam o diálogo direto. Simultaneamente, o ministro de Relações Exteriores, Mauro Vieira, acompanhado de uma comitiva de empresários, tem visitado outros países a fim de ampliar o horizonte das nossas exportações. No início da semana, esteve em Pequim, onde articulou maior acesso de produtos brasileiros ao mercado chinês. Ele também vê novas oportunidades na Ásia Central, onde visitou Cazaquistão e Uzbequistão - mercados de milhões de habitantes, e exportadores de fertilizantes. Em paralelo, estão entrando em vigor os recentes acordos do Mercosul com União Europeia, e com Singapura, enquanto evolui o diálogo com Canadá e Japão.

No filme, assusta que o personagem de Murray tenha levado décadas para romper o looping do Dia da Marmota. Na vida real, o Brasil não tem décadas, sequer meses para suportar a nova ofensiva tarifária de Trump. Em nome das boas relações de comércio e dos laços históricos dos dois países, esse ciclo maligno deve acabar.

 

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