Folha de S. Paulo
Candidatos põem Trump no centro de uma
campanha que deveria se concentrar nos problemas do Brasil
A real defesa do Pix pode ser feita com apoio
à emenda que amplia a autonomia do Banco Central
O aguado caldo de racionalidade que ainda poderia haver no debate eleitoral entornou de vez com a divisão da cena entre Luiz Inácio da Silva (PT) como defensor da soberania, antagonista de Trump, e Flávio Bolsonaro (PL) no lugar de entreguista, traidor da pátria a serviço do americano.
Muito simples de entender, imagem fácil de
vender, mas equação insuficiente para resolver um problema que requer
paciência, serenidade, criatividade, cálculo, competência, conhecimento e,
sobretudo, frieza. Nada disso se viu na primeira reação à ameaça de um novo
tarifaço sobre o Brasil.
O contra-ataque em tom de palanque incluiu
ilhas até então mantidas a certa distância, como o Ministério da Fazenda e a
Vice-Presidência da República. Dario Durigan e Geraldo Alckmin entraram no
embalo de citações à "família Bolsonaro". No dia seguinte, todo o
ministério foi chamado a
entrar no embalo.
O presidente primeiro disse que esperava um
telefonema de Trump com "explicações", depois informou que enviaria
uma carta cobrando o combinado no encontro de 7 de maio em Washington e, no
entusiasmo, anunciou que
irá à reunião do G7 na França, para "pôr ordem na
casa". Veremos o que fará de fato.
Por enquanto, o que temos é retórica
eleitoreira respondida no mesmo diapasão por Flávio Bolsonaro. Em tese levaria
a vantagem de ser oposição e não ter a responsabilidade de encaminhar a
mitigação de prejuízos. Na prática, porém, um candidato a presidente precisaria
apresentar credenciais nos quesitos perícia técnica e habilidade política. Não
é o caso.
No lugar de se associar ao oponente na
torrente de adjetivos vãos, o presidente poderia ganhar pontos usando de suas
prerrogativas para ir com objetividade ao pote.
Um exemplo? Dar consistência à defesa
do Pix apoiando
a emenda em
tramitação no Congresso que amplia a autonomia do Banco Central
e cujo texto põe o Pix sob a proteção da Constituição. Valeria mais que
quaisquer frases exibidas em cartazes de forma e conteúdo pueris.

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