Folha de S. Paulo
Flávio Bolsonaro balançou, mas não caiu, e
seus rivais à direita têm desempenho pior do que o dele contra Lula
Caiado, Zema e Renan Santos nem discordam da
pauta de livrar o ex-presidente da prisão
Foi um arranhão significativo para Flávio.
No Datafolha de
abril, ele estava numericamente à frente de Lula no
segundo turno. No de sexta passada, já aparecia atrás —47% a 43%—, no limite da
margem de erro.
Lula ganhou triplamente. Primeiro, porque seu principal adversário piorou sua projeção de votos no primeiro e no segundo turnos. Segundo, porque Lula vai numericamente melhor mesmo nos cenários sem Flávio. Sinal de que não foi só Flávio que caiu; Lula teve um avanço na estima do povo. Quem sabe o Desenrola, o subsídio pro carro novo, o desconto na gasolina, o auxílio gás, o fim da 6x1 e outras promessas do pacote de bondades começam a fazer efeito. Ter a caneta na mão faz diferença.
Em terceiro lugar, porque Flávio balançou,
mas não caiu. A relação com Vorcaro pega mal mas, até agora, ela não implica
Flávio em nenhum crime. Se —e é um grande "se"— nenhuma nova
revelação mostrar algo pior sobre Flávio, ele deve manter a candidatura. Para
Lula, melhor um Flávio —com seu potencial e suas fragilidades conhecidas—
chamuscado do que uma Michelle (ou outro nome?) com a ficha limpa e com o
elemento surpresa.
A política vem em ondas. Semanas atrás,
falava-se na desistência de Lula. Hoje, é Flávio precipitadamente descartado.
Daqui uma semana novas notícias hão de inverter esse quadro novamente, e assim
iremos até o dia da eleição, que se promete acirrada.
Para Lula, a pesquisa foi ótima. Para Flávio,
ruim mas não desastrosa. Ela foi péssima é para a "terceira via", ou
seja, todos os demais candidatos, em especial para os três nomes de direita que
sonham em tirar Flávio do páreo e ir para o segundo turno com Lula: Caiado,
Zema e Renan
Santos.
Flávio balançou; todos vieram com sede ao
pote para ocupar seu lugar. Zema, que até outro dia era seu aliado, passou a
criticá-lo duramente. Renan Santos vem apostando no
escândalo Master como um catalisador do sentimento antissistema
nestas eleições e
faz um trabalho muito intenso de militância digital. Até Caiado, que pouco
aparece, deu a entender que Flávio está "contaminado". E, no entanto,
na hora da pesquisa, eles nem saíram do lugar?
Até agora, Flávio tem se mostrado vazio.
Repete alguns bordões ("o Bolsonaro que tomou vacina") por onde quer
que vá e é isso. A única causa que o mobiliza é livrar seu pai da prisão (e, em
breve, seu irmão?). Caiado, Zema e Renan nem discordam dessa pauta, como já
deixaram claro. Eles só não a colocam como a prioridade suprema do país. A
bandeira da anistia, aliás, nem é popular.
E, no entanto, ninguém chega perto de ameaçar
Flávio. Seus rivais à direita têm desempenho pior que o dele mesmo no segundo
turno contra Lula. Há quem diga que eles são muito próximos do bolsonarismo, e
por isso não decolam. Alguém sinceramente acredita, contudo, que um nome mais
de centro —um Eduardo Leite,
por exemplo, que chegou a ser cotado pelo PSD— teria um
resultado muito diferente a essa altura?
Bolsonarismo e petismo seguem as principais
forças políticas do país. Um muro até agora intransponível para quaisquer
outras forças. Aqueles que o atacam prestam um serviço ao país, mas é difícil
acreditar que terão sucesso. E não, isso não mudará "quando a campanha
começar". A campanha já começou.

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