O Estado de S. Paulo
Congresso compra votos e decide em causa(s) própria(s), descaradamente, em ano eleitoral
O grande tema da semana é o fim da escala de trabalho 6x1, agora prevendo transição até 2027, como acertado entre os presidentes Lula e o da Câmara, Hugo Motta, e entre governo e oposição, mas essa prioridade não pode apagar os rastros destruidores do Congresso em áreas tão amplas, com um escândalo atrás do outro, sem a devida indignação, especialmente na semana passada, mas não só.
O fim da 6x1 interessa aos trabalhadores e
impacta o setor produtivo, a economia e as candidaturas do Congresso em
outubro, do PT ao PL. O governo até trabalha com a hipótese de unanimidade.
Quem ficará contra os eleitores? Quem só decide em causa própria?
Neste momento, o STF julga uma decisão
anterior do Congresso que reduz o tempo de inelegibilidade para políticos sujos
e fica ainda mais feia em ano eleitoral, podendo trazer de volta figuras como
Sérgio Cabral, ex-governador do Rio condenado a 425 anos, dos quais cumpriu
seis.
A relatora Cármen Lúcia votou contra o
Congresso, mas o STF parece dividido entre fazer a coisa certa, de acordo com a
realidade, ou fazer a coisa errada, em nome da independência de Poderes.
Intervir na decisão do Legislativo ou prestigiar a tecnicidade em prol do
absurdo?
E a derrubada de vetos de Lula e permitir
repasses federais para municípios em ano eleitoral, fora de tempo e lugar? São
candidatos a presidente, governador, senador ou deputado federal cooptando
prefeitos com os nossos impostos. Uma descarada compra de votos.
O parlamentar-candidato destina verba
pública, inclusive de emendas não impositivas, para as “suas” prefeituras
comprarem tratores, fazerem praças ou simplesmente desviarem para interesses e
bolsos, em troca de palanques e votos para Sua Excelência.
Vejam a diferença. O Congresso, que é contra
empregadores e a favor de trabalhadores na escala de trabalho, votou na semana
passada pró-setores do agro e madeireiras e contra o ambiente, os
ambientalistas e o futuro, na escandalosa redução de quase 40% da Floresta
Nacional do Jamanxim, no Pará, para “flexibilizar” o seu uso e ameaçar sua
preservação.
O lobby do agro é mais forte do que o do
setor produtivo nos polos populosos? Ou o Congresso é mais suscetível aos
poderosos e ao dinheiro dos Estados distantes e, ao contrário, aos votos
populares nos grandes centros urbanos que dão mais holofote a Brasília?
O fato é que PL, PT e Centrão fazem o mesmo cálculo: vale o que é bom para mim, os meus e o meu partido, não para o País, no campo e nas cidades. Os prefeitos são peças-chave nesse jogo que atinge algo essencial na democracia: a igualdade de condições nas eleições.

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