terça-feira, 26 de maio de 2026

Campanha da fraternidade, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Primeiras avaliações mostram que Flávio Bolsonaro sai ferido de revelação de envolvimento com irmão Vorcaro

Escândalo, porém, não criou situação que o obriga a abandonar imediatamente a candidatura presidencial

Às vezes, invejo profissões alheias. Nos próximos meses, marqueteiros não ligados a Flávio Bolsonaro vão se divertir bolando alusões ao relacionamento fraterno entre o senador e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. "Você vai mesmo votar no irmão do Vorcaro?" é a minha sugestão para os dias finais da propaganda na TV. Será a campanha da fraternidade.

Isso dito, as primeiras pesquisas após o bólido sugerem que o choque deixa Flávio Bolsonaro ferido, mas não força uma substituição imediata de candidato. É o melhor cenário para Lula. O ideal para o petista é concorrer com alguém que tenha uma rejeição tão grande quanto a sua, e o Bolsonaro menor é quem mais se aproxima dessa condição.

Paradoxalmente, o meteoro master não alterou muito o quadro macro da eleição. O simples fato de Flávio Bolsonaro seguir no páreo é um forte indicativo de que este pleito, como o de 2022, vai opor petistas convictos a antipetistas renitentes. Como os dois blocos têm tamanhos semelhantes, a eleição acabará sendo decidida pelo contingente dos eleitores menos apaixonados, que pode ir tanto para um lado como para o outro.

É aí que o amor fraterno, a filadélfia, entre Bolsonaro e Vorcaro pode ter produzido uma hemorragia interna mais difícil de diagnosticar. Se o caso afastar definitivamente o eleitor independente do senador fluminense, sua vitória num segundo turno pode tornar-se inviável. Evangélicos e o povo alérgico à corrupção são os grupos-chave aqui. É o flanco aberto que os marqueteiros antibolsonaristas devem tentar explorar. E nem é necessário convencer esses eleitores com perfil mais à direita a apoiar Lula.

Basta que anulem seu voto ou não compareçam num eventual segundo turno para dar ao petista uma vantagem que poderá revelar-se decisiva. Outro paradoxo é que o novo escândalo não trouxe nenhuma informação sobre Flávio Bolsonaro que já não tivéssemos antes. Pelo menos desde o caso das rachadinhas na Alerj, sabemos que é temerário pôr na mesma frase o nome desse jovem político e a palavra ética.

 

 

 

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