quinta-feira, 11 de junho de 2026

Alvejado no Master, STF renova figurino de guardião, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Protagonismo na regulação digital e na contenção das pautas-bomba mostra esforço da Corte em sair da sombra do Master

Da regulação digital à barreira contra as bombas fiscais, o Supremo Tribunal Federal começa a pavimentar as condições para reprisar o papel de “guardião da democracia e da estabilidade” que o envolvimento de ministros da Corte com o Master de Daniel Vorcaro e sua divisão sobre o código de ética puseram em xeque.

A primazia na regulação digital nas eleições começou a ser delineada na sessão desta quarta quando começaram a ser apreciados 12 embargos à decisão da própria Corte sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet.

Aquele artigo condicionava a responsabilidade das plataformas por danos causados pelo conteúdo veiculado a uma decisão judicial. A decisão criou um novo regime de responsabilização com a obrigação de maior iniciativa das plataformas no monitoramento e retirada de conteúdo ilegal. Foi contra esta decisão que se apresentaram recursos.

A previsão é a de que o julgamento confirmará a decisão de 2025 reafirmando a centralidade do STF num tema que tem preocupado a campanha à reeleição, vide o avanço da extrema-direita na América Latina. Se, no resto do mundo, o presidente americano tem sido pé frio nas disputas eleitorais de aliados, no continente em que as “big techs” enfrentam menos resistência institucional, acontece o inverso.

Aliados da Casa Branca têm sido - ou estão para ser - eleitos depois de retas finais marcadas por viradas a partir de disparos em massa de conteúdos falseados por inteligência artificial, vide a campanha de desinformação que atingiu Iván Cepeda, candidato do presidente colombiano Gustavo Petro.

O STF também traça a risca de giz para o Tribunal Superior Eleitoral. A sessão desta quarta aconteceu menos de 24 horas depois daquela do TSE em que, graças a um pedido de vista da ministra Estela Aranha, o presidente daquela Corte, ministro Nunes Marques, não prevaleceu numa liminar disparatada contra a AtlasIntel. Os resultados auferidos pela pesquisa deste instituto, que desagradaram o bolsonarismo, foram confirmados pela Genial/Quaest desta quarta.

Não foi o primeiro ato a demonstrar a disposição de Nunes Marques em concentrar poderes. Contrariando uma tradição do TSE, que atribui a responsabilidade a juízes substitutos, nomeou para a comissão de propaganda daquela Corte, três ministros titulares: André Mendonça, vice-presidente da Corte, Estela Aranha e a si mesmo. Os titulares costumavam ficar fora desta comissão porque o volume de ações motivadas pelo tema inviabiliza sua atuação no julgamento de recursos.

Nunes Marques inovou na concentração de poderes mas valeu-se de precedente. No 2º turno de 2022, o então presidente do TSE, ministro Alexandre de Moraes, nomeou a si mesmo e à então vice-presidente, ministra Cármen Lúcia, para reforçar uma comissão de propaganda formada por juízes substitutos. Moraes justificou a decisão pelo “excepcional volume de processos”. Nunes Marques não apresentou justificativa.

A se confirmar a previsão de que o STF mantenha a responsabilização das plataformas, estarão referendados, também, os decretos presidenciais de maio. Numa reação quase instantânea do aval dado pela Câmara ao disparo em massa de mensagens por redes sociais, os decretos dispõem, por exemplo, sobre o que o chamado “dever de cuidado” das plataformas contra a veiculação de conteúdos criminosos e a obrigatoriedade de representante legal no Brasil. O Senado ainda não se pronunciou, mas os decretos sinalizam convergência entre Planalto e STF.

Esta convergência também produziu controvérsias. Os decretos conferem plenos poderes à Agência Nacional de Proteção de Dados para regulação, fiscalização e apuração de infrações aos direitos de usuários e aos deveres dos provedores de internet.

O Conselho Diretor da ANPD tem cinco cadeiras. Duas, inclusive a do presidente, foram indicadas no governo passado. Ambos deixarão seus cargos depois do 2º turno. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou outros dois, o advogado Iagê Miola, professor da USP e ex-assessor do ministro Vinícius Carvalho na Controladoria-Geral da União, e a economista Lorena Coutinho, servidora do Mdic, ex-economista de política digital da OCDE e nora do ministro do STF, Gilmar Mendes.

A quinta vaga está congelada pela paralisia provocada com a rejeição da indicação do ministro da AGU, Jorge Messias, ao STF. Além disso, a agência funciona com um corpo técnico cedido pela ausência de concurso público. Não parece haver dúvidas de que, ante tamanha precariedade, o STF, cujo decano dedicou seu seminário anual em Lisboa ao tema, venha a ser requisitado a sanar lacunas.

Não bastasse o protagonismo no tema que mais tem preocupado o Palácio do Planalto no embate eleitoral, o STF resolveu se adiantar em outra seara, a das pautas-bomba, que inquieta um mercado já insatisfeito pelo derretimento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Quem se adiantou, na verdade, não foi a Corte mas Gilmar Mendes. O ministro foi às redes sociais nesta quarta assim que a CCJ do Senado aprovou a aposentadoria especial dos agentes comunitários e voltou a se pronunciar sobre a inconstitucionalidade da criação de despesas sem a indicação da receita correspondente quando o plenário da Casa sinalizou a perspectiva de votação da renegociação das dívidas rurais.

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