O Globo
Cada um pensa na própria fogueira, e o
Tesouro que lide com o incêndio na floresta
Em ano de eleição, uma máxima da política
brasileira segue impiedosa: farinha é pouca, meu pirão primeiro. Nos últimos
dias, o Senado, tido como “casa da moderação”, pôs para andar diferentes
pautas-bomba como se não houvesse amanhã. Os senadores até se esforçam para
imprimir caráter republicano às votações, mas a verdade é uma só. A preocupação
que os norteia hoje, independentemente da conta bilionária que fica para o
país, é a reeleição.
Num consórcio que vai do PL ao PT, cada senador faz um cálculo particular, segundo o qual tudo bem aprovar uma pauta-bomba aqui e outra acolá, desde que elas o ajudem a se segurar na cadeira por mais oito anos. Ninguém vê tamanho empenho para aprovar pautas de interesse coletivo como a PEC da Segurança.
De nada adiantou o ministro da Fazenda, Dario
Durigan, e o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, irem até os senadores
anteontem para pedir, na prática, que tenham responsabilidade fiscal, uma vez
que as pautas-bomba podem ter impacto fiscal de R$ 270 bilhões nos próximos
anos. No dia seguinte à visita, a Comissão de Assuntos Sociais do Senado
aprovava o aumento do piso salarial de médicos e cirurgiões-dentistas de R$
3.636 para R$ 13,6 mil para jornada de 20 horas semanais. Um impacto de R$ 47
bilhões em um ano. E essa é apenas uma das mais de 30 categorias que,
apadrinhadas por diferentes senadores, pressionam por piso salarial ou
reajuste, a ponto de o próprio presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP),
nesta semana, admitir em plenário: “Ou votamos todas ou não votamos nenhuma”.
São garis, fisioterapeutas, enfermeiros e
outros profissionais que servem o país e devem ser remunerados dignamente.
Seria muito bom que todas as demandas deles pudessem ser atendidas, mas a
realidade não é essa, e os homens públicos deveriam saber lidar com as
restrições do mundo real. Não dá para atender a todo mundo ao mesmo tempo,
porque fulano ou beltrano quer se eleger. Cada um pensa na própria fogueira, e
o Tesouro que lide com o incêndio na floresta.
“Não estamos falando de problema de eleição.
Estamos falando de um segmento que carrega o Brasil”, disse a ex-ministra da
Agricultura Tereza Cristina (PP-MS) ao defender a aprovação de outra
pauta-bomba ontem no Senado. A renegociação das dívidas dos produtores rurais
pode, segundo o governo, ter impacto de mais de R$ 800 bilhões em 13 anos. O
agro também presta enorme contribuição ao país, assim como agentes comunitários
de saúde, médicos, enfermeiros e garis. Tem levado o crescimento da economia
muitas vezes nas costas. Mas o que vale para os outros setores vale também para
o agro: o orçamento é finito.
É difícil convencer um político a ter
responsabilidade fiscal quando está em jogo seu instinto de sobrevivência
eleitoral. Até Alcolumbre, que tem interesse em atender aos senadores para
pavimentar sua reeleição à presidência da Casa em 2027, manifestou-se sobre o
impacto das demandas: “Não dá para criar dez Brasis para pagar a conta”.
A melhor definição, no entanto, foi feita,
reservadamente, por um dos parlamentares mais influentes do país: “Quer quebrar
o Brasil? Reúna os senadores”.

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