O Globo
Os votos que deixaram o candidato do PL
parecem estar sendo absorvidos principalmente pelos indecisos
A notícia não é boa para Lula.
A pesquisa Datafolha divulgada ontem, ao mostrar um cenário inalterado em
relação a junho, reforçou uma tendência já detectada por outros institutos.
Desde maio, diferentes levantamentos vêm registrando desgaste de Flávio
Bolsonaro sem um crescimento correspondente de Lula ou dos demais
candidatos.
O que a consistência desses dados sugere é que a disputa continua aberta. Os votos que deixaram o candidato do PL parecem estar sendo absorvidos principalmente pelo contingente de indecisos. Para onde eles migrarão a partir de agora é a questão que pode definir a eleição.
Para alguns analistas, nem sequer é possível
dizer que será Flávio o adversário de Lula num eventual segundo turno. Felipe
Nunes, CEO da Quaest, diz que o destino dos votos perdidos pelo candidato do PL
dependerá em grande medida do início da campanha, em especial da exposição que
Flávio terá nos debates. Isso, naturalmente, se houver debates: até agora,
nenhum dos mais bem colocados demonstrou entusiasmo pela ideia. Lula, por não
ter nada a ganhar como favorito; Flávio, pela notória dificuldade em enfrentar
situações do tipo e porque, quanto mais fica conhecido, maior é sua rejeição.
— O brasileiro dá grande importância à
performance dos candidatos. Um desempenho muito bom ou muito ruim de um nome
pode fazer uma parcela importante do eleitorado mudar seu voto — diz Nunes.
O economista Maurício Moura, fundador do
Instituto Ideia, é mais cético quanto à possibilidade de Flávio ser
ultrapassado na corrida pelo segundo turno. Pelo Datafolha, Ronaldo Caiado,
por exemplo, teria de tomar dele 15 pontos percentuais. Considerando os mais de
40% de desconhecimento do ex-governador, seu reduzido tempo de TV e tempo de
campanha, Moura avalia que o goiano só chegaria ao segundo turno na hoje
improvável hipótese de Flávio sair do páreo.
Assim, a situação mais provável continua
sendo uma disputa entre Lula e Flávio — uma contenda de assimetria inédita, a
começar pelo peso político dos protagonistas. Lula, qualquer que seja o
julgamento que se faça dele, pertence ao minúsculo grupo das figuras
incontornáveis da história política brasileira. Em larga medida, as disputas
nacionais das últimas quatro décadas se organizaram em torno dele, do partido
que fundou e das forças que surgiram para enfrentá-lo — sendo o bolsonarismo a
mais recente e eloquente delas.
É diante dessa dimensão histórica que a
pequenez política de Flávio Bolsonaro se revela em sua plenitude. Senador de
trajetória medíocre, o primogênito de Jair chega à convenção do partido sem
vice, incapaz de atrair aliados, cercado de denúncias e transformado em
candidato por decisão exclusiva do pai. A situação escancara a segunda gritante
assimetria da disputa: a diferença de capacidade estratégica das campanhas.
Para o PT,
disputar eleições é um ofício aperfeiçoado ao longo de 40 anos; para Flávio,
tem sido um acúmulo de erros primários — de vídeos desfocados e declarações
desastrosas à incapacidade de identificar os segmentos decisivos do eleitorado
e falar com eles. Flávio já era o adversário preferido de Lula desde quando não
se sabia quem seria o candidato do bolsonarismo. Entende-se agora por quê.
A dez semanas da eleição, o petista chega à
campanha em trajetória ascendente e com a máquina de governo trabalhando a seu favor
em voltagem máxima. Flávio chega ao período decisivo no limite de suas
dificuldades.
Ainda assim — e essa é a notícia ruim para
Lula —, se os votos que abandonaram o filho de Bolsonaro dificilmente migrarão
para o petista e tampouco serão suficientes para impulsionar um terceiro nome,
restam dois destinos possíveis: converter-se em brancos e nulos ou retornar ao
próprio Flávio, que, num eventual segundo turno, pode acabar vitaminado pela
polarização. Se hoje Lula avança rumo ao quarto mandato, não está sozinho. O
antipetismo — como ele, uma sólida força da política brasileira — segue firme
ao seu lado.

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