quinta-feira, 11 de junho de 2026

Direita subestimou trabalhador sobre escala 6x1, Thaísa Oliveira

Folha de S. Paulo

Talvez por prepotência, bolsonaristas acharam que sobreviveriam às redes sociais defendendo o pagamento por hora

Basta conversar com um caixa de supermercado para entender por que só 22 deputados votaram contra redução da jornada

Sensível ao termômetro das redes sociais, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) percebeu rapidamente a cilada que é a PEC que autoriza a contratação por hora trabalhada, apresentada pelos bolsonaristas em reação ao fim da escala 6x1.

Correu para o plenário para dizer que sempre defendeu o fim da "maldita" escala e continuaria do lado do trabalhador. Cleitinho admitiu estar apanhando —o que os outros 40 signatários da PEC alternativa ainda hesitam em fazer.

Autor da proposta, o coordenador da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência, Rogério Marinho (PL-RN), disse que, se o pagamento por hora for aprovado, o empregado poderá trabalhar o quanto quiser, inclusive 50 horas por semana.

Como 7 vezes 7 são 49, a esquerda achou a senha que faltava para atacar: eis a escala 7x0. O baque foi tão grande que o próprio Marinho diz estar sendo vítima de fake news. Romário (PL-RJ) também tenta explicar o inexplicável: assinou a PEC porque é a favor do debate sobre ela, mas não a favor dela.

Não sei se por prepotência, falta de opção política (ou de conexão com o povo), a direita achou que conseguiria constranger o governo insistindo no discurso de que até apoia uma redução na jornada, desde que isso implique a devida redução salarial.

Como se já não estivesse nas entrelinhas, o pagamento por hora virou bandeira da Fiesp, da CNI, do dono da Havan... "Mas seu salário vai ser achatado e você vai precisar fazer bico", dizem os críticos do fim da escala 6x1. Boa parte desses trabalhadores já não ganha perto do piso, como mostrou o Ipea?

Em resposta à deputada Júlia Zanatta (PL-SC), o gari Raimundo Nonato expressou o que talvez esteja na cabeça de outros tantos brasileiros: do meu dia de folga, faço o que eu quiser. Inclusive bico.

Basta conversar com um caixa de supermercado para entender por que só 22 dos 513 deputados tiveram coragem de votar contra a diminuição da jornada de trabalho. É raro em Brasília, mas às vezes a narrativa encontra resistência na realidade.

 

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