sábado, 6 de junho de 2026

Fim do Pix? Um debate que não deveria existir, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Por mais que a opinião pública esteja muito firme no seu apoio ao meio de pagamento brasileiro, o simples fato de que um expoente do bolsonarismo, filho de Jair Bolsonaro e irmão do pré-candidato, se sinta autorizado a colocar a possibilidade na mesa deveria causar espanto

Depois do anúncio de mais um tarifaço e da classificação de duas organizações criminosas brasileiras como terroristas, temos um outro tema no centro das tensões entre Estados Unidos e Brasil: o Pix. Os americanos já manifestam há algum tempo seu descontentamento com o meio de pagamento que se popularizou por aqui: considerado uma ameaça ao lucro das empresas de cartão de crédito, o Pix foi inserido por Donald Trump num caldo confuso que envolve combate ao crime organizado e debate sobre equilíbrio da balança comercial.

Que as medidas tenham sido anunciadas logo após a visita do senador Flávio Bolsonaro não é uma surpresa. A correlação entre visita e sanções é notória, e nem precisaríamos da foto publicada pelo próprio presidente americano no dia da revelação do tarifaço para perceber o esforço do bolsonarismo em instrumentalizar sanções para fins eleitorais.

Trago este tema mais uma vez ao leitor porque ele nos permite ressaltar uma marca do comportamento político da extrema-direita: sua habilidade para introduzir no debate público, normalizando-os, absurdos que deveriam, de pronto, ser recusados por qualquer mente mais razoável. O cavalo de Troia da vez é o Pix, uma criação brasileira que entrou em vigor em 2020.

Como sistema de pagamentos instantâneos, o Pix permite transferir dinheiro e fazer pagamentos em poucos segundos, sem custo ao usuário, 24 horas por dia e sete dias por semana. É algo nosso, prático, que funciona bem, não onera o brasileiro e que já responde por um volume expressivo de movimentações. No segundo semestre de 2025, o Pix foi utilizado em 54,7% de todas as transações de pagamento no País. Nós não deveríamos abrir mão dele ou sequer discutir a possibilidade de negociá-lo. Como país soberano, o Brasil tem autonomia para gerir o seu Sistema Financeiro Nacional.

Durante a semana, Eduardo Bolsonaro publicou vídeo em suas redes no qual sugere a possibilidade de negociação sobre o Pix, ao mencionar um meio de pagamento privado disponível nos EUA, o Zelle. Por mais que a opinião pública esteja muito firme no seu apoio ao meio de pagamento brasileiro, o simples fato de que um expoente do bolsonarismo, filho de Jair Bolsonaro e irmão do pré-candidato, se sinta autorizado a colocar a possibilidade na mesa deveria causar espanto.

No fim, é mais uma evidência do quão frágil é o patriotismo do grupo, da sua noção capenga de soberania. Na sua lógica, vale qualquer coisa para eleger Flávio Bolsonaro, inclusive negociar uma conquista que facilita a vida do brasileiro. É certo que na democracia o debate público é aberto e admitimos divergências construtivas, o que não significa ignorar limites e transigir com propostas manifestamente estapafúrdias.

*Professora de Direito da UFCE

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