Revista Veja
Milhões de brasileiros são abandonados à
margem da educação
Dos 2,5 milhões de brasileiros nascidos em
2025, no máximo 300 000 concluirão,
em 2043, a educação básica com a qualidade
necessária para enfrentar e usufruir do mundo contemporâneo,
dispondo do mapa para buscar sua felicidade pessoal e das ferramentas para
construir um país melhor. A cada ano, o Brasil escolhe 2 milhões de seus
recém-nascidos e os deixa para trás, abandonados por uma espécie de “Escolha de
Sofia”.
No livro de William Styron, depois levado ao cinema, a mãe, obrigada por soldados nazistas a escolher qual de seus dois filhos sobrevive, fica traumatizada e termina sua vida em suicídio. O Brasil sacrifica milhões de suas crianças como se não houvesse escolha: abandonadas pela lógica de que seus pais não têm recursos para pagar uma boa escola privada ou porque não conseguem vaga em uma das raras públicas de excelência, quase sempre federais. Como se fosse um destino natural que define quem recebe boa educação e o direito à inclusão social, e quem é abandonado.
Na Alemanha nazista, alguns prisioneiros
saltavam heroicamente dos trens que os levavam aos campos de concentração, como
nos conta Luiz Schwarcz em seu excelente livro O Ar que Me Falta. No Brasil, a multidão não embarca no
trem ao futuro: a escola de qualidade. Não são conduzidos à morte em fornos
crematórios, mas lançados ao “mar da desescola”: nosso “campo de concentração”
onde sobrevivem os excluídos socialmente.
“O país se recusa a realizar os esforços
necessários para atender todas as crianças que nascem a cada ano”
O livro e o filme provocaram lágrimas em
centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo. A atriz Meryl Streep declarou
ter sido profundamente impactada pela interpretação da personagem. Mas nós, a
mãe-pátria brasileira, não nos consideramos responsáveis pelo fato de que, um
século e meio depois da abolição e da Proclamação da República, ainda não
oferecemos uma escola de máxima qualidade com absoluta equidade a todos os que
estão nascendo hoje — e nem aos que nasceram depois. Tratamos com naturalidade
nossa falta de humanidade ao escolher os poucos que levaremos ao futuro e os
muitos que deixaremos para trás.
O soldado nazista foi possivelmente promovido
por conduzir à morte um dos filhos de Sofia, mas a mãe-pátria brasileira se
degrada ao negar o direito à educação de qualidade a todos os seus filhos,
porque cada criança deixada para trás representa não apenas um pecado social,
mas também uma perda na eficiência econômica, social, cultural e política. Nos
amarra na armadilha da renda média, na injustiça da concentração de renda, e o
resultado é péssimo: instabilidade na democracia.
Ainda assim, o país se recusa a realizar os
esforços necessários para substituir “nossa escolha de Sofia” por uma rede
escolar de excelência, capaz de atender todos os brasileiros que nascem a cada
ano, e levá los a algum ponto de dignidade no futuro, em vez de jogá-los no
“mar da desescola”. Podemos evitar “nossa escolha de Sofia”, sim, porque ela
não nos é imposta por soldados nazistas, mas por nós mesmos, quando elegemos
prioridades voltadas ao presente e aceitamos condenar milhões à morte social da
exclusão educacional. O que fazer? O correto, por óbvio, seria assegurar
inclusão social a todos por meio de uma educação de qualidade, da primeira
infância à conclusão do ensino médio. Mas é uma pena, porque preferimos
escolher os que ficarão para trás como algo natural da brasilidade.
Publicado em VEJA de 5 de junho de
2026, edição nº
2998

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