Revista Veja
Em uma disputa apertada, a crise com os EUA
poderá ser decisiva
Pelo menos desde 1945 não há registro de
eleições brasileiras tão influenciadas por fatores externos. Naquele ano, a
ditadura de Getúlio Vargas foi derrubada a partir de uma situação paradoxal: o
Brasil lutava contra regimes totalitários, ao lado das democracias clássicas,
sendo ele próprio uma ditadura. Tinha sido arrastado ao conflito mundial em
razão de seu valor estratégico como fornecedor de matérias-primas aos aliados.
Oitenta anos depois, estamos no meio de uma guerra tarifária, de uma disputa geopolítica pelas nossas terras-raras e ainda somos atingidos por decisões como a declaração de organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas. As questões nos colocam no turbilhão geopolítico contemporâneo.
A consequência eleitoral é evidente.
Tanto Lula quanto
Flávio Bolsonaro tentam explorar a situação a seu favor. O que complica é a
oscilação americana entre a relação amena — com redução de tarifas e diálogo
presidencial — e decisões duras, como o recente novo tarifaço e a classificação
de facções como terroristas.
“Muitos verão a intromissão com simpatia por
considerarem Lula condescendente com o crime organizado”
No mesmo caldeirão, a China assiste e espera
que o desgaste das relações entre Brasília e Washington a beneficie. Mas,
enquanto a China tem paciência milenar, os Estados Unidos nem tanto. A
declaração de Marco Rubio, secretário de Estado americano, de que o Brasil não
é país amigo coloca o nível de tensão em alerta e abre a possibilidade de novas
sanções.
Ainda que Donald Trump seja movido mais por
interesses do que por ideologia, setores importantes do governo americano veem
a derrota de Lula como estratégica: enfraqueceria o esquerdismo regional e
puniria o que consideram leniência, ou mesmo colaboração, brasileira com os
interesses chineses na região. Assim, negociar pode ser a solução, mas não é
absolutamente garantido que tudo fique bem entre os dois países.
Eleitoralmente, muitos verão a intromissão
americana com simpatia, por considerarem o governo Lula condescendente com o
crime organizado. O tema da segurança continua sendo crítico para as eleições.
Outros, no campo da esquerda, recorrerão à narrativa de que o imperialismo
ianque busca nos submeter. Daí as declarações de opereta bufa de Lula acusando
adversários de “vendilhões da pátria”.
O fato é que o Brasil está no centro das
atenções mundiais como nunca esteve. Pelos fatores mencionados — crime
organizado, tráfico de drogas, terras-raras e, sempre, a questão ambiental. Mas
também pelas questões do Pix e das big techs, que incomodam o governo
americano, e pelas relações com a China. Sem contar a aproximação histórica do
Lula 3 com o regime dos aiatolás no Irã e com Putin na Rússia.
Considerando que a disputa tende a ser
apertada, o fator externo pode ser decisivo para um lado ou para o outro. O
eleitorado pode pender contra ou a favor de um candidato à medida que as
questões internacionais ganhem dimensão. Imaginemos, a título de especulação,
que a questão das terras-raras se transforme — ainda que improvável — em uma
espécie de “o petróleo é nosso”. Ou que se forme clamor para que as facções
sejam combatidas como grupos terroristas. São dois exemplos de narrativas que
estarão sendo veiculadas dentro das bolhas da polarização. Enfim, tudo pode,
potencialmente, tornar-se eleitoralmente decisivo a partir dessas questões de
política externa. Fato inédito na história recente do país.
Publicado em VEJA de 5 de junho de
2026, edição nº
2998

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