O Estado de S. Paulo
Daniel Vorcaro tem esculachado – sob novos graus de esculacho – a já esculachada colaboração premiada brasileira, cuja matriz a serviço do interesse público está posta em xeque novamente, pela preponderância da má-fé de um corruptor obstrutor da Justiça que opera os recursos de uma concessão excepcional do Estado para proteger o próprio patrimônio; também a sua porção imaterial...
Quantas chances lhe darão Procuradoria-Geral da República e Polícia Federal? Quantas, se as investigações estão lá na frente – capazes já de lhe prescindir da palavra – e o tipo insiste em gerir a negociação como instrumento de defesa de mão única, protelatório, com contrapartida debochante e plantador de condições para nulidades?
Será o caso de lembrar que os senhores que
comandam as instituições portas de entrada para o acordo, Paulo Gonet e Andrei
Rodrigues, sentaram-se à mesa do
clube do uísque londrino de Vorcaro, em abril de 2024, com os delatáveis Alexandre de
Moraes e Dias Toffoli. Hugo Motta estava lá. Clube do uísque vorcárico cuja
versão nova-iorquina, de maio daquele ano, teria Ciro Nogueira, Cláudio Castro
e o onipresente Motta.
(Será o caso de lembrar a mensagem de Vorcaro
à noiva, em março de 2025, poucos dias antes do anúncio do memorando de
entendimento para a compra do Master pelo BRB: “Acabou chegando hugo e ciro
aqui para falarem com alexandre”.)
Confrarias que tanto impõem nomes
incontornáveis, cujas ausências em propostas de delação redefiniriam o conceito
de escárnio, quanto explicam a essência peculiar da colaboração premiada à
brasileira. Colaboração premiada à brasileira, exposta no contrato firmado por
Mauro Cid, cuja delação foi reformada até entregar – não será crença
inverossímil – o que Xandão queria. Ninguém – da inteligência jurídica
influente – reclamou; ninguém, entre os virtuosos defensores monopolistas do
estado democrático de direito. Era um golpista, afinal.
Com Vorcaro, consideradas as relações do
sujeito em (a partir de) Brasília e a natureza de seus golpes (cuja
prosperidade dependeu desses relacionamentos), as reações são diferentes, em
disputa o controle sobre a delação seletiva do cara; sobre a capacidade de lhe
denunciar a delação seletiva. Dado – admitido – que a delação será seletiva,
lançada está a campanha por não estar nela; no que formará a plantação na
imprensa de ministros do Supremo preocupados com a carga pública para que o
banqueiro entregue ministros do Supremo.
Disputa-se o benefício da mentira. O
benefício de fazer prevalecer o texto segundo o qual a invisibilidade do
“elefante pintado de azul” (apud Flávio Dino), que engordava charutando pela
Praça dos Três Poderes, derivaria da incompetência dos fiscais – e não de
estarem todas as turmas sobre o bicho Master.
Para (por ora) a tranquilidade geral do
sistema de poder no Brasil, Vorcaro, amante do cinema e da hotelaria nacionais,
parece insistir – no que seria mais uma oferta de acordo – na tese de que
distribuía milhões a autoridades, com ou sem contrato, “por amizade”. Os gonets
querem acreditar.

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