Carta Capital
O filósofo Edgar Morin rejeitava todo tipo de
nacionalismo e xenofobia
Um dos mais respeitados e lidos intelectuais franceses, doutor honoris causa de 40 universidades do mundo, pensador da complexidade e do saber transdisciplinar e humanista, Edgar Morin rejeitava toda forma de espírito clânico, qualquer nacionalismo, toda xenofobia. Costumava dizer que seu espaço era o mundo, todo ser humano era seu igual. Sentia-se cidadão da Terra-Pátria, ameaçada pela ação predadora do homem. Em seu engajamento pela biodiversidade, via “o poder esmagador do dinheiro na origem da degradação do meio ambiente”.
Sociólogo do tempo presente, o filósofo
humanista morreu na
França na sexta-feira 29, aos 104 anos. David-Simon Edgar Nahoum nasceu
em Paris em 8 de julho de 1921, de pais judeus originários de Salônica,
Grécia, emigrados para a França na Primeira Guerra Mundial.
Morin foi um sutil analista dos novos
paradigmas científicos nos seis tomos da obra La Méthode, na qual expõe seu pensamento
da “complexidade” e analisa as dinâmicas históricas. “O método parte da
constatação de que a concórdia e a discórdia são pai e mãe de todas as coisas,
que no mundo físico, como na vida e na história humana, há conflito entre as
forças de união e de destruição, entre Eros e Tanatos. Eu defendo Eros, o
amor.”
Quando ele completou 100 anos, fiz um texto
para CartaCapital comentando o livro que escreveu para a data, Lições de Um
Século de Vida. A impressionante lucidez do intelectual se manteve até o fim.
Um mês antes de sua morte, deu uma excelente entrevista ao jornal Le Monde.
Sua vida foi um milagre. Luna, a mãe,
cardíaca, teve um parto difícil e o filho demorou a respirar ao nascer. A mãe
adorada morreu quando ele tinha apenas 10 anos e essa ausência foi uma presença
permanente em toda a sua longa vida. Ele definiu a morte da mãe como uma “Hiroshima
interior”. Morin escreveu cerca de 70 livros, tratando de cinema e
filosofia, passando pela política e a sociologia. O primeiro foi Ano Zero da
Alemanha, escrito depois de dirigir o bureau do governo militar da zona
francesa de Baden-Baden. Nesse ensaio, recusa os clichês sobre a má natureza
germânica e tenta compreender como a pátria de Goethe e de Beethoven foi capaz
de engendrar a barbárie nazista.
Em Lições de Um Século de Vida, escreve: “Sou
um francês de origem sefardita, parcialmente italiano e espanhol, amplamente
mediterrâneo, europeu cultural, cidadão do mundo, filho da Terra-Pátria. Tudo
isso ao mesmo tempo? Não, depende das circunstâncias e dos momentos, nos quais
uma ou outra dessas identidades predomina”. Engajado nas lutas dos oprimidos,
apoiou publicamente, em 2013, o cacique Raoni em seu combate contra a barragem
de Belo Monte. Com intelectuais, juristas e políticos, participou do lançamento
de um “tribunal moral para os crimes contra a natureza e o futuro da
humanidade” durante a conferência Rio+20.
Morin foi um intelectual star na América
Latina. “Talvez porque a mestiçagem cultural favorece uma abertura de
espírito”, tentava explicar. Hoje é difícil imaginar que, antes de se tornar
uma unanimidade também na França, era esnobado nos meios acadêmicos, o que o
levou a dizer: “Filósofos, sociólogos, cientistas resmungam, vociferam, quando
se fala meu nome e a alergia que lhes inspiro os afasta. Fui cerca de trinta
anos solitário, marginal, fora de moda, enquanto reinavam o sartrismo,
althusserismo, lacanismo, foucaultismo, deleuzismo, sociologismo, marxismo,
estruturalismo”.
Em sua identidade, a vertente política sempre
foi importante. Morin foi o codinome escolhido quando, aos 20 anos,
entrou na Resistência para libertar a França da ocupação nazista. Ele pegou em
armas, depois de ter militado na adolescência pelo pacifismo. Ao revisitar os
cem anos passados, não se colocava na posição de sábio que dá
lições. Ao contrário, fazia um balanço de seus enganos: a militância pacifista,
quando a Alemanha começava a preparar a guerra, e a militância comunista, que
depois o levou à oposição ao stalinismo. Um de seus artigos críticos, de 1951,
foi o estopim para sua exclusão do Partido Comunista Francês. Continuou
socialista, mas se afastou da ortodoxia que dominava o pensamento comunista.
A impressionante lucidez do intelectual se
manteve até o fim
Tive o prazer de entrevistá-lo quatro
vezes, duas para esta revista. Antes, havia traduzido, em 1996, com Clarisse
Meireles, sua autobiografia, Meus Demônios. A um interlocutor que telefona
enquanto o entrevisto, em 2012, para dizer que deseja lançar sua candidatura à
Academia Francesa, Morin responde que a instituição “não faz parte de suas
fantasias”.
Na entrevista que me concedeu em 2004,
comentando a invasão do Iraque, analisou profeticamente: “Os Estados
Unidos querem levar o mundo ocidental a esse confronto e dessa forma legitimar
a onipotência de intervir em qualquer lugar, de espalhar sua hegemonia pelo
mundo e, se for preciso, utilizar suas pequenas bombas atômicas de modelos
recentes, que fazem pequenas Hiroshimas. Os únicos lugares que eles não
controlarão totalmente são a China, a Índia e a Rússia”.
Em 2002, num artigo intitulado
“Israel-Palestina, o câncer”, coassinado por Sami Naïr e Danièle Sallenave,
publicado no Le Monde, o filósofo analisa a guerra colonial que
gangrena a paz da região. “Israel”, dizia o texto, “vê seu terrorismo de Estado
contra os civis palestinos como autodefesa e vê terrorismo na resistência
palestina. O Ocidente e a mídia falam de guerra israelense-palestina, mas
essa falsa simetria camufla a desproporção de meios, a desproporção de mortos,
a guerra de tanques, helicópteros e mísseis contra fuzis e Kalashnikovs. A
falsa simetria mascara a total desigualdade na relação de forças e mascara a
evidência simples: esse conflito opõe ocupantes que ampliam a ocupação e
ocupados que ampliam a resistência. A falsa simetria oculta a evidência de
que o direito e a justiça estão do lado dos oprimidos. A falsa simetria
coloca os dois campos no mesmo plano, enquanto um faz a guerra e o outro não
tem meios de fazê-la e opõe atos esporádicos de resistência e terrorismo.”
Morin constatava que “as vítimas palestinas eram 15 a 20 vezes mais numerosas
que as vítimas israelenses”. E perguntava: “A piedade deve ser exclusivamente
reservada a umas e não às outras?”
Acusado de ser antissemita, foi processado e
absolvido dois anos depois. Apesar disso, nunca deixou de defender o
Direito Internacional, ignorado por Israel, e a paz entre judeus e
palestinos. Sobre a guerra em Gaza, chamada por ele de “carnificina”,
declarou ao Le Monde: “Um processo catastrófico está em curso, mesmo Trump e
Netanyahu não sendo eternos. Atualmente, não há nenhuma chance de salvação, só
podemos testemunhar nossa impotência. A única esperança está no improvável.
Resistamos”. •
Publicado na edição n° 1416 de CartaCapital,
em 10 de junho de 2026.

Nenhum comentário:
Postar um comentário