CartaCapital
O déficit não é fiscal, é de inteligência.
Austeridade já, corte duro e sem dó na estupidez tupiniquim!
Neste país abençoado por Deus e bonito por
natureza, com 25% da oferta mundial de terras-raras e 1% de mentes raras,
podemos concorrer com os Estados Unidos da América na estupidez, com
certeza. Abundante em minérios críticos, raras mentes críticas.
Contra a hiperinflação nacional de estupidez não há regime de metas que salve! Propomos criar metas para a estupidez nacional, uma meta que disciplina não os preços relativos, mas o besteirol exponencial que exala diariamente nas mentes raras. Um corte drástico não de gastos, mas de asneiras. O déficit não é fiscal, é de inteligência. Austeridade já, corte duro e sem dó na estupidez tupiniquim.
Na lendária MAD, revista americana satírica
que tirava sarro de tudo e de todos, protagonizada pelo personagem Alfred E.
Neuman, um garoto sardento de orelhas de abano, fazia-se de ingênuo. Deveríamos
reeditar aqui, na terra da Ordem e Progresso, um dos quadros mais famosos desse
gibi: Respostas Idiotas para Perguntas Imbecis. Tenho certeza de que o nosso
Stanislaw Ponte Preta concordaria com essa sugestão no seu grande livro Febeapá
– Festival de Besteiras Que Assola o País.
O Brasil dos Bolsonaro daria uma crônica
recheada de ironias. No livro, Stanislaw detonou as desgraças e mazelas do
golpe de 1964, certamente chamado de Revolução Redentora pelos asseclas do
golpe de 2022.
“Em Niterói – isto é até pecado, cruzes!!! –,
numa feira de livros instalada na Praça Martim Afonso, a polícia apreendeu
vários exemplares da encíclica papal Mater et Magistra, sob a alegação de que
aquilo era material subversivo. Para representar o mês de março de 1965 no
Festival, isso é mais que suficiente.
“Foi então que estreou no Teatro Municipal de
São Paulo a peça clássica Electra, tendo comparecido ao local alguns agentes
do Dops para prender Sófocles, autor da peça e acusado de subversão, mas já
falecido em 406 a.C. Era junho e o pensador católico Tristão de Ataíde, o mesmo
Alceu de Amoroso Lima, uma das personalidades mais festejadas da cultura
brasileira, chegava à mesma conclusão da flor de Ponte Preta em relação à
burrice reinante, ao declarar, numa conferência: ‘A maior inflação nacional é
de estupidez’.
“Em João Pessoa, no dia 17 de agosto de 1965,
Eunice Lemos Jekiel, paraibana que vivera 22 anos nos Estados Unidos e
esquecera o português, era presa enquanto almoçava num restaurante local. Para
soltá-la, da prisão: ela estava falando inglês em público e, portanto, talvez
fosse comunista.”
Somente outra frase que conseguiu rivalizar
com esta, para gáudio do Febeapá, foi aquela que pronunciou o então ministro
Juracy Magalhães: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.
Nesse caso, até Juracy Magalhães concordaria
em copiar o quadro da revista MAD intitulado “O que É Bom para os Estados
Unidos É Bom para o Brasil”. Afinal, respostas idiotas para perguntas imbecis,
se valem nas terras do Tio Sam, valem muito também por aqui. Não é isso,
Stanislaw Ponte Preta?
A família Bolsonaro e as Bancadas da Bala e
da Bola comemoram efusivamente com salva de 21 tiros para cima a classificação como
grupos terroristas do Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho
(CV).
E a milícia? Pergunta idiota para um bando de
imbecis!
Flávio propôs uma moção de louvor e
congratulações ao então capitão da Polícia Militar Ronald Paulo Alves Pereira
“pelos importantes serviços prestados ao Estado do Rio de Janeiro”, em 2004.
Hoje major, Ronald foi preso em 2019 na operação “Os Intocáveis”, acusado de
ser um dos líderes de uma milícia na capital carioca.
Não bastasse o gesto de reverência a um
policial envolvido com criminosos, que deveria combater, Flávio Bolsonaro
invadiu o perigoso terreno da promiscuidade ao contratar a mãe e a mulher de
outro miliciano, Adriano Magalhães da Nóbrega, para prestarem serviços em seu
gabinete. O senador Bolsonaro descarregou sobre o assessor Fabrício
Queiroz a responsabilidade pela contratação das senhoras Nóbrega. “A curpa é do
técnico”, já acusava o sambista da pauliceia Adoniran Barbosa, em uma de suas
ironias de saudosas malocas.
Stanislaw detonou as mazelas do Golpe de
1964, uma Revolução Redentora nas mentes dos asseclas do Golpe de 2022
Voltamos às ironias de Stanislaw lançadas
contra a política econômica e o golpe de 1964.
“A política de contenção do doutor Roberto (o
avô do Campos Neto) é simplesmente gloriosa! Em breve, até as classes menos
favorecidas aplaudirão a medida. Todos ouviram e, como tava todo mundo com o
traseiro encostado na cerca, naqueles dias (e muitos estão até hoje), ninguém
contestou.
“O que eu sei é que o Genésio deu o grande
durante uns quatro ou cinco meses. Depois, como era um filho de jacaré com
cobra-d’água, caiu de novo no seu chatíssimo cotidiano e só ficou elogiando a
“redentora” por vício ou talvez por causa de uma leve esperança de se arrumar
ainda. Mas teso é teso, é ou não é?
“O tempo foi passando e o boi sumiu; o leite
é isso que se vê aí; o feijão anda tão caro que, noutro dia, num clube da Zona
Norte, promoveram um jogo de víspora, marcando as pedras com caroço de feijão,
e foi aquela vergonha… alguém roubou os caroços todos para garantir o almoço do
dia seguinte. Genésio começou a desconfiar que tinha entrado numa fria.
“Aquilo não era revolução pra quem vive de
ordenado. Em casa, a mulher dava broncas ciclópicas, porque o ordenado mensal
dele estava acabando mais depressa do que a semana. Houve um dia em que botou
sua bronca: — Você é que não sabe fazer economia – disse para a mulher. — Pode
deixar que eu vou fazer a feira. Ah, rapaziada, pra quê!”
Fossem vivos, Stanislaw Ponte Preta e Millôr
Fernandes não perderiam vaza para reinterpretar os lemas dos bolsonaristas. Não
temos a presunção de mimetizar o talento dos dois humoristas geniais, mas
imagino que poderiam sugerir a substituição de “bandido bom é bandido morto”
por “bandido bom é bandido nosso”.
O que é bom para milícia é bom para quem?
Vamos encerrar com O Samba do Crioulo Doido, de Stanislaw Ponte Preta:
…Joaquim José (que também é da Silva Xavier)/
Queria ser dono do mundo, e se elegeu Pedro
II/
Das estradas de Minas seguiu pra São Paulo e
falou com Anchieta/
O vigário dos índios aliou-se a Dom Pedro e
acabou com a falseta/
Da união deles dois ficou resolvida a
questão/
E foi proclamada a escravidão/
E foi proclamada a escravidão.
Publicado na edição n° 1416 de CartaCapital, em 10 de junho de 2026.

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