domingo, 20 de fevereiro de 2022

Opinião do dia: Luiz Werneck Vianna*

“Nesse cenário, em que de um lado se usam de todos os recursos disponíveis a fim de impedir o caminho institucional a partir do qual as forças democráticas venham a impor pelas urnas a derrota do atual governo, de outro, confia-se cegamente que o curso natural das coisas e o simples fluxo do tempo facultará a interrupção do pesadelo que aflige o país. Desatenta ao terreno em que pisam, a oposição se entregou ao fetichismo institucional, e, pior, entregou-se a uma disputa fratricida pelo poder, sob a motivação de preservar suas identidades partidárias numa eventual vitória na sucessão presidencial. Por toda parte, engalfinham-se os postulantes por nacos de poder, como se vivêssemos na plenitude de um regime democrático.”

*Luiz Werneck Vianna, Sociólogo, PUC-Rio. “O que ainda nos falta”, Blog Democracia Política e novo Reformismo, 18/2/2022.

Luiz Sérgio Henriques* O Quixote e as ideologias

O Estado de S. Paulo

Os ideólogos de hoje, dependentes do inimigo de outrora, teriam seu lado comicamente absurdo, não fossem também perigosos

Uma anedota sobre exércitos e soldados é que estarão sempre fadados a travar a guerra anterior, aferrados disciplinadamente a linhas de defesa imaginárias ou irrelevantes na concreta guerra atual, que não entendem e em que batem cabeça uns com os outros. Pode-se dizer, sem medo de errar, que o caso é pior entre os “ideólogos”, entendidos como personagens que, por inclinação nem sempre razoável, costumam desorientar-se em meio a moinhos mal-assombrados, sem ter a candura ou a generosidade do engenhoso fidalgo de La Mancha.

O comunismo histórico talvez seja o “tema do delírio” preferido por quem se aplica a tais fumosos exercícios mentais. Equipará-lo ao nazismo é tópos obrigatório da virulenta retórica deste nosso tempo embaralhado por ideias e categorias em rápida obsolescência. Sim, não há dúvida: aquele comunismo inseriu-se plenamente entre os fenômenos totalitários do século passado e, por isso, mereceu morrer entre os escombros do Muro ou da URSS. Não soube, não quis ou não pôde se reformar: a denúncia dos inúmeros crimes de Stalin, em 1956, ficou a meio caminho. Os propósitos reformistas de Gorbachev vieram tarde demais. Estava “tudo podre”, segundo o diagnóstico consensual dos últimos reformistas, e havia pouco o que salvar.

Celso Lafer: Racismo, antissemitismo, liberdade de expressão

O Estado de S. Paulo

O negacionismo do Holocausto judaico, do genocídio armênio, do racismo estrutural que permeia a sociedade brasileira não é opinião, é uma iniquidade

 “Promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” é um dos objetivos do nosso país, contemplado na Constituição cidadã (artigo 3, IV).

É uma ideia a realizar que indica o caminho para dar plena efetividade ao Brasil como sociedade pluralista, diversificada e democrática, retificando múltiplas inadequações de nossa arquitetura imperfeita.

A intolerância de práticas discriminatórias é um obstáculo a esta ideia a realizar. Ela veio à tona com estridência em eventos recentes, como o brutal assassinato de Moïse Kabagambe, o refugiado do Congo que encontrou abrigo em nosso país para morrer a pauladas ao lado do quiosque onde trabalhava na orla carioca; a prepotência da prisão sem provas de Yago Corrêa de Souza no Jacarezinho, depois de comprar pão perto de sua casa; e o empenho discriminatório da apologia do racismo nazista veiculado pelo podcaster Monark (Bruno Aiub).

Merval Pereira: Liberdade de expressão

O Globo

Neste ano de campanha eleitoral acirrada, o conceito de liberdade de expressão será testado com frequência. As discussões em andamento sobre Telegram, fake news e outros fenômenos da pós-verdade mostram que esse assunto dominará o ambiente social brasileiro. Fake news, aliás, não deve ser traduzido por notícia falsa,  na verdade é notícia fraudulenta, com potencial danoso muito maior. É a arquitetura da internet que deve ser regulada, com vista à transparência e à lisura, o que tenta fazer o projeto de lei  das “Fake News” que está parado na Câmara.

O pano de fundo para o debate tem de ser o consenso do mundo ocidental sobre o escopo dessa liberdade, ao mesmo tempo um direito individual e uma garantia coletiva da sociedade, porque, de seus desdobramentos — como as liberdades informativas e a liberdade de imprensa —, depende aquilo que o jurista americano Oliver Wendell Holmes chamou de “marketplace of ideas”, o mercado de circulação livre de informações e ideias, um dos pilares das democracias liberais.

Eliane Cantanhêde: Kassab como ele é

O Estado de S. Paulo

Síntese da política, Kassab está com Lula, Pacheco, Leite ou com Bolsonaro?

No centro da barafunda eleitoral, o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, líder inconteste do PSD, não é candidato a nada, mas interfere no tabuleiro, embaralha as peças e mexe com os nervos de quem disputa a Presidência da República. Por que? Porque é capaz de tudo.

Kassab blefa o tempo todo e deixa aliados e adversários, reais ou potenciais, sem entender o que ele pretende. Logo, com a pulga atrás da orelha, ora se esforçando para tirar proveito, ora para escapar da manipulação.

Em meio às articulações, análises de pesquisas e definições de estratégia, o mundo político se dedica a uma tertúlia político-psicológica: afinal, qual é a jogada de Kassab? Cada um arrisca um palpite, envolvendo seu palpite com ares de verdade absoluta.

Luiz Carlos Azedo: Doria e Garcia, dois candidatos perdidos na Pauliceia desvairada

Correio Braziliense / Estado de Minas

A filiação de Garcia ao PSDB gerou duas fricções: uma com o DEM, que se fundiu ao PSL, formando a União Brasil, afastando-se de Doria; outra, a dissidência de Alckmin, Aloysio e Aníbal

Oh! Minhas alucinações!/ Como um possesso num acesso em meus aplausos/ aos heróis do meu Estado amado!../ E as esperanças de ver tudo salvo!/ Duas mil reformas, três projetos…/ Emigraram os futuros noturnos… E verde, verde, verde!…/ Oh! minhas alucinações!/ Mas os deputados, chapéus altos,/ mudavam-se pouco a pouco em cabras!/ Crescem-lhes os cornos, descem-lhes as barbinhas…/ E vi que os chapéus altos do meu estado amado,/ com os triângulos de madeira no pescoço,/ nos verdes esperanças, sob as franjas de oiro da tarde,/ se punham a pastar/ rente do palácio do senhor presidente…/ Oh! minhas alucinações!”

Os versos de Mário de Andrade, publicados em 1922, são considerados um marco modernista da literatura brasileira. Composto por 22 poemas, Pauliceia Desvairada tem como pano de fundo a acelerada modernização e a urbanização de São Paulo. Marcados pelo afeto e pelo sarcasmo, pela crítica ao transformismo dos políticos, traduzem a realidade de uma forma exagerada, alucinatória, que produz um novo olhar sobre a realidade, despido de fórmulas prontas e preconceitos. O moderno, a renovação, a experimentação pedem passagem, sem nenhuma ingenuidade.

Bernardo Mello Franco: Cúmplices do cúmplice

O Globo

Augusto Aras nem disfarça: é cúmplice das investidas de Jair Bolsonaro contra a saúde pública e a democracia. O procurador-geral da República fez vista grossa a todos os crimes do presidente na pandemia. Em outra frente, finge não ver seus ataques e ameaças à Justiça Eleitoral.

Nos últimos dias, Aras prestou mais dois serviços ao Planalto. Na quinta-feira, pediu arquivamento do inquérito em que Bolsonaro é investigado por violação de sigilo funcional. Na sexta, livrou o presidente das suspeitas de prevaricação no escândalo da Covaxin.

A Polícia Federal concluiu que Bolsonaro cometeu crime ao vazar uma investigação sobre suposto ataque aos servidores do TSE. O capitão distorceu o teor dos papéis para propagar uma tese conspiratória. Sem provas, disse que a oposição teria contratado hackers para “desviar” 12 milhões de votos em 2018.

Cidadania decide formar federação com PDSB, mas tucanos precisam formalizar

Negociação final inclui uma única candidatura à presidência. Na disputa, estão João Doria e Alessandro Vieira

Melissa Duarte / O Globo

BRASÍLIA — O Cidadania aprovou a formação de uma federação com o PSDB, modelo de aliança pela qual os partidos participantes se comprometem a atuar juntos, como uma só sigla, por pelo menos quatro anos. A decisão foi anunciada neste sábado após reunião do Diretório Nacional, que angariou 56 votos — a maioria absoluta é o mínimo necessário para selar o acordo.

Com a decisão, a regra geral é que o partido presidido por Roberto Freire responda por 20% da governança da federação, o que autoriza juntar o desempenho de todos os candidatos. Outros arranjos podem ser feitos nos estados para comportar as necessidades políticas.

Falta discutir os pontos finais, como elaboração de estatuto, junto ao PSDB. Os tucanos já haviam dado aval, por unanimidade, à formação de aliança em reunião da Executiva Nacional em janeiro.

Havia outras duas propostas em jogo para o Cidadania: formar uma federação partidária com o PDT de Ciro Gomes ou com o Podemos. Ambas foram derrotadas em votação.

— Foi um ótimo exercício de diálogo entre os partidos e uma decisão democrática — afirmou Freire ao GLOBO.

O presidente do PSDB, Bruno Araújo, disse em nota que a federação "fará a diferença no Congresso" e nas próximas eleições presidenciais.

"Será também um passo importante na consolidação de partidos fortes, fundamentais para a consolidação das instituições brasileiras. Com essa decisão, o Cidadania se incorpora formalmente, junto o PSDB, na tentativa de uma federação ainda maior, com o diálogo em andamento entre MDB e União Brasil, com serviços prestados à democracia brasileira", acrescentou a nota.

Cidadania aprova federação com tucanos

Em votação apertada, diretório decide pela aliança com o PSDB, em vez do PDT, e rompe o isolamento da candidatura Doria

Gustavo Côrtes, Pedro Venceslau,colaborou Jander Porcella / O Estado de S. Paulo.

“Essa decisão é um sinal de que as forças políticas do centro estão se unindo e saindo do isolamento. Pode haver um candidato único desse campo e o partido acha isso fundamental”. (Roberto Freire, Presidente do Cidadania)

O diretório nacional do Cidadania aprovou ontem a formação de uma federação partidária com o PSDB e, com isso, tirou a pré-candidatura presidencial do governador João Doria (PSDB) do isolamento. “Essa decisão é um sinal de que as forças políticas do centro estão se unindo e saindo do isolamento. Pode haver um candidato único desse campo e o partido vê isso como fundamental”, disse o ex-deputado Roberto Freire, presidente nacional do Cidadania.

A decisão foi comemorada no grupo de Doria no PSDB, que vive um momento interno turbulento. Um grupo de tucanos abriu uma dissidência pública contra a candidatura do governador, que venceu as prévias em 2021 contra o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e o ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio.

Em nota, a assessoria tucana disse que o acordo é o primeiro movimento formal em volta do nome de João Doria, mas Freire ressaltou que ainda é cedo para falar sobre quem será o candidato, lembrando que o senador Alessandro Vieira, do Cidadania, também é pré-candidato ao Planalto.

Cidadania decide se unir ao PSDB em federação partidária

Diretório nacional da legenda realizou votação que incluía também PDT e Podemos

Flávio Ferreira / Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O Cidadania decidiu compor uma federação partidária com o PSDB em reunião do diretório nacional neste sábado (19).

Os tucanos saíram vencedores após discussões que envolveram também o PDT, do pré-candidato à Presidência da República Ciro Gomes (CE), e o Podemos, que cogita lançar o ex-juiz Sergio Moro (PR) para a disputa ao Palácio do Planalto. O PSDB tem o governador de São Paulo, João Doria, como pré-candidato ao Executivo federal.

O órgão da cúpula do Cidadania chegou à decisão após votação em dois turnos. No primeiro, o PSDB obteve 54 votos, ante 37 para o PDT e 14 para o Podemos, e houve 5 abstenções.

Na rodada final, os tucanos foram escolhidos por 56 dirigentes e o PDT por 47, com 7 abstenções.

De acordo com nota do Cidadania, "agora as Executivas dos dois partidos irão aprofundar as negociações sobre as regras da federação. Entre elas, a que estabelece prioridade na aliança para governadores candidatos à reeleição".

Bruno Boghossian: Lula em modo 'pé no chão'

Folha de S. Paulo

Mesmo petistas confiantes dizem que a eleição será mais apertada do que o cenário atual

Em duas conversas recentes, Lula deixou de lado os números das últimas pesquisas para lembrar a aliados que uma eleição difícil os aguarda. O petista disse que era preciso tratar como certa uma recuperação de Jair Bolsonaro nos próximos meses. Gente que participou de reuniões diferentes usou a mesma expressão para descrever o comportamento do ex-presidente: "pé no chão".

O que pode ser interpretado como sobriedade ou capacidade de leitura política também revela uma certa preocupação no campo petista. Ainda que o retrato atual pareça favorecer Lula, integrantes da campanha do ex-presidente apontam sinais que posicionam Bolsonaro como um adversário competitivo.

O primeiro é a estabilidade dos índices de aprovação ao governo. Petistas avaliam que os números de Bolsonaro pararam de cair no momento em que ele toma fôlego com o Auxílio Brasil, a ampliação de outras despesas e a desaceleração da curva da inflação. Algum alívio na economia deve amenizar a rejeição ao presidente na campanha.

Elio Gaspari: O TSE fala demais

O Globo

O ministro Edson Fachin assumirá a presidência do Tribunal Superior Eleitoral depois de uma entrevista bombástica. Ele fica na cadeira até agosto. Fará uma gestão estelar se impuser a Edson Fachin e a alguns colegas um sistema de cotas para as próprias falas. Cada um e todos só deverão ir aos holofotes de forma que apareçam mais por seus votos e despachos do que por seus discursos. Em bom português, trabalhar mais e falar menos. Seria muito pedir que sigam a discrição da ministra Rosa Weber, do STF, mas algum limite precisa ser colocado. A ministra diz a quem quiser ouvir que não vai a eventos e não dá entrevistas. Não é arroz de festa.

O Tribunal meteu-se a trazer militares para a discussão das urnas eletrônicas e colocou o general da reserva Fernando de Azevedo e Silva na sua diretoria. Foi a carga da cavalaria ligeira dos ingleses na Batalha de Balaclava, um lindo desastre para um filme, uma celebração para a literatura. O general foi embora, e a mistura do Exército com a eficácia das urnas foi transformada por Jair Bolsonaro em mais um de seus espetáculos semanais. A vivandagem, com o Tribunal indo aos granadeiros, resultou apenas num constrangimento.

Janio de Freitas: O golpismo busca outras armas

Folha de S. Paulo

Justificada suspeita reforçou a preocupação com o golpismo anti-eleitoral

Justificada suspeita reforçou a preocupação, retornada em crescendo duas semanas antes, com o golpismo anti-eleitoral. Nas formalidades, quem viajou à Rússia e à Hungria levava o título de presidente; na verdade, quem procurou Putin e Orbán foi o pretendente à reeleição.

Convidado há tempos, Bolsonaro só agora foi a Moscou por seu interesse em contar com a interferência cibernética dos russos na disputa eleitoral. Ao fascista, foi por tê-lo como seu orientador de golpismo, com intermediação mensageira de Carlos Bolsonaro.

interferência de Moscou na derrota de Hillary Clinton para Trump, por cerrada emissão de fake news ao eleitorado americano, se feita no Brasil seria indefensável, como tem provado a indiferença do simples Telegram às restrições da Justiça Eleitoral. A ação russa nos Estados Unidos tornou-se a mais escandalosa, mas várias outras foram constatadas. Com os resultados pretendidos.

Vinicius Torres Freire: Guerra, comida e gasolina

Folha de S. Paulo

Invasão da Ucrânia e punição séria da Rússia mexeriam com milho, trigo, petróleo e finança

Ucrânia vende 17% do milho do mercado mundial. Tem peso relevante, embora fique atrás de EUA, Brasil e Argentina. Ucrânia e Rússia exportam 30% do trigo comprado pelo resto do planeta —é muito.

Quase 47% do gás e 25% do petróleo que a União Europeia importa sai da Rússia. Os russos têm mais ou menos 11% das exportações mundiais de petróleo, apenas atrás da Arábia Saudita (17%). Quase metade das exportações russas é de energia, o que sustenta a economia e as contas do governo.

Míriam Leitão: Estamos perdendo a guerra do clima

O Globo

Morros altos e íngremes descendo em belas escarpas até vales estreitos. A geografia de Petrópolis encanta o país desde o Império. Nos últimos dias foi o cenário de horror e de morte. Um dos mitos fundadores do Brasil está no primeiro verso do Hino Nacional. Estamos deitados em berço esplêndido, terra livre de terremotos, vulcões e furacões. A mudança climática eleva o custo dos erros velhos, como a ocupação desordenada do solo urbano, e o desmatamento acelera a mudança climática. O Brasil é hoje um país exposto às tragédias que ele mesmo tem provocado.

Winston Fritsch*: Lula vem aí, e daí?

O Globo

A coalizão de esquerda montada em torno do PT dispara nas pesquisas. Lula é do ramo. Fala pouco, mantém sem esforço seu bloco de partidos amarrado a ele e abriu um sério complicador adicional à terceira via acenando com um vice de enorme recall, experiente político de centro e paulista. Por isso parece improvável que ou a alternativa Moro ou a dança das alianças partidárias de centro em torno de nomes unificadores de um grupo inorgânico produza um pré-candidato que ameace chegar ao segundo turno. Especialmente se o atual presidente continuar mantendo seu teimoso quinto dos votos nas pesquisas.

Entretanto isso é largamente irrelevante, pois nenhum candidato —inclusive Lula —é garantia de governabilidade, uma vez que, com o atual número de partidos, como argumentei neste jornal (“A única via”, 16/10/2021), o presidencialismo de coalizão brasileiro perdeu a funcionalidade. Restaurar o equilíbrio fiscal requer medidas impopulares e, na falta de uma coalizão programática resiliente, quem ganhar a eleição verá sua base majoritária de apoio inicial desmoronar lentamente. Passada a lua de mel com o eleitorado, o presidente eleito vira refém do Centrão. Até o PT sabe disso.

Dorrit Harazim: Em carne viva

O Globo

A visionária cientista e ambientalista Rachel Carson, autora do clássico “Primavera silenciosa”, alertara o mundo já nos idos de 1960: “O ‘controle da natureza’ é uma frase concebida na arrogância, nascida da era Neandertal da biologia e da filosofia, quando se supunha que a natureza existe para a conveniência humana”. Bingo. No Brasil de 2022, como ao longo de seus 200 anos desde a Independência, a natureza continua a ser tratada como commodity a serviço de suas sucessivas elites. Em nome de uma prosperidade seletiva, gananciosa, ela, a natureza, nunca conseguiu ter lugar à mesa — nem mesmo diante da revolta climática em franca rebentação sobre o planeta.

Cacá Diegues: Jabor, a última voz

O Globo

Ele foi o mestre de um cinema que outros haviam tentado, mas ninguém o fizera tão bem quanto ele

Eu ainda estava no ginásio do Colégio Santo Inácio quando me aproximei de Arnaldo Jabor, tentando conquistar um papel num espetáculo colegial que ele produzia e dirigia. Tratava-se da dramatização de um daqueles poemas do romantismo brasileiro sobre os paulistas que haviam conquistado o interior do país. Lá para as tantas, uma febre assolava os bravos conquistadores e duas ou três vítimas passavam no fundo do palco, se arrastando a pedir água. Eu seria uma delas. Mas, sofrendo o que considerava um agressivo desinteresse por meu talento dramático, não passei da estreia. Abandonei o espetáculo e pedi demissão do grupo. Não sei exatamente como, mas o episódio acabou nos aproximando, ficamos amigos para sempre graças a meu fracasso dramático.

Fomos juntos para a PUC, onde ambos demos preferência às atividades político estudantis, mais emocionantes e úteis ao país que queríamos construir. Eu era o redator-chefe de O Metropolitano, o jornal da União Metropolitana dos Estudantes (UME), que era dirigido pelo futuro deputado Paulo Alberto Monteiro de Barros (o cronista Artur da Távola), nomeado pelo presidente da entidade Alfredo Marques Viana. Chamei Arnaldo para se ocupar da página de arte do jornal e nunca mais nos separamos.

Cristovam Buarque*: A cloroquina do transporte

Blog do Noblat / Metrópoles, 19.2.2022

O jeitinho é filho do negacionismo que domina a política brasileira, desde sempre, por eleitos e eleitores, sobretudo por populistas

Há décadas o orgulho brasileiro pela prática de jeitinhos cobra alto preço, ao preferir gambiarras e ilusões, no lugar do enfrentamento correto de nossos problemas. O atual presidente tentou a gambiarra da cloroquina para enfrentar a tragédia do covid: o resultado são centenas de milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas. Mas a gambiarra não é prática apenas do atual presidente. O jeitinho é filho do negacionismo que domina a política brasileira, desde sempre, por eleitos e eleitores, sobretudo por populistas e imediatistas.

Investimos em uma modernidade apressada, tendo a indústria automobilística como carro chefe do crescimento, independente de suas consequências. O resultado são nossas “monstrópoles”, resultantes do inchaço das cidades, sem planejamento, sem cuidados, crescendo descontroladamente e recebendo gambiarras no lugar de estruturas robustas.

A tragédia de Petrópolis, nesta semana, e muitas outras no passado recente, decorrem deste comportamento de jeitinhos e gambiarras fruto do negacionismo diante da dimensão do problema. A tentativa de controlar o preço do combustível é outro exemplo.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Por uma agenda consensual pelo crescimento

O Globo

É comum ouvirmos gente dizer que economia é difícil e que não dá para acompanhar o assunto. É verdade que o economês declinado e escandido nas discussões afasta o tema da realidade, enquanto a maioria continua a sofrer as consequências da inflação, do desemprego, dos salários defasados e do futuro sacrificado pela qualidade sofrível da mão de obra e da educação brasileiras. No debate público, clareza é tudo. Uma discussão sem jargões, capaz de decifrar o sentido dos termos técnicos, das dúvidas e das principais decisões diante do país, só tem a ganhar em qualidade.

Foi com esse espírito em mente que o GLOBO deu início a uma série de artigos que se estenderá pelos próximos meses. Em ano de eleição presidencial, os brasileiros precisam dedicar parte do tempo para decidir o melhor caminho adiante. O colunista Fábio Giambiagi, um dos economistas mais respeitados do país, com vasta experiência no setor público, proporá temas em suas colunas, depois comentados por representantes de diferentes escolas.

Poesia| Carlos Drummond de Andrade: E agora Jose

 

Música | Jorge Aragão - Coisa de pele

 

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Alvaro Costa e Silva: A pátria amada esqueceu sua Independência

Folha de S. Paulo

Ao contrário de 1922, celebração do Bicentenário corre o risco de virar uma motociata

Na coluna do último sábado (12), ao registrar a farra de Pixinguinha e do conjunto Os Batutas na Paris de 1922, não contei como tudo terminou. Fora a saudade e o frio, eles tinham forte motivo para voltar. Não queriam perder uma festa no Rio que prometia ser ainda maior: a Exposição do Centenário da Independência, que ergueu uma cidade dentro da cidade.

Cristina Serra: O TSE caiu numa arapuca

Folha de S. Paulo

Ter um militar abelhudando nosso processo de votação é anomalia inexplicável

O TSE caiu numa arapuca criada por ele mesmo. Em virtude dos ataques de Bolsonaro, no ano passado, ao sistema eletrônico de votação, o presidente da corte, Luís Roberto Barroso, criou a Comissão de Transparência das Eleições e para ela convidou um representante dos militares. A comissão foi formalmente criada um dia depois do 7 de setembro golpista.

Demétrio Mamgoli: Guerra cultural é conflito assimétrico

Folha de S. Paulo

A esquerda identitária elege a direita identitária

Qual é a treta do dia? O cancelamento da semana? Quando as expedições de policiamento identitário típicas das redes sociais transbordam cotidianamente, como lava tóxica, às páginas da Folha, não duvide: as guerras culturais tornaram-se um traço dominante da política nacional.

Há décadas, o Ocidente oscila no ritmo das guerras culturais. A direita inventou o artefato; a esquerda pós-marxista resolveu imitá-la. Tais conflitos organizam-se não sobre "o que fazer?", a interrogação política clássica, mas sobre "quem somos?", uma pergunta muito mais divisiva.

Ascânio Seleme: 'Revogazo'

O Globo

Enquanto Lula anuncia que se for eleito quer rever as reformas tributária e trabalhista, gente do PT opera sobre bases mais realistas e elenca medidas infralegais tomadas pelo governo Bolsonaro e para as quais basta uma canetada do presidente ou do ministro da área para serem revogadas. Para mexer na Previdência ou nas leis trabalhistas, Lula vai precisar do Congresso. Este que está aí, já disse presidente da Câmara, Arthur Lira, é de centro e não quer rever nada. Mesmo que o Congresso eleito em outubro se mova para a centro-esquerda, mudanças legais tomam tempo e exigem dedicação política. Mexer em decretos, portarias e pareceres não custa nada, nem tempo.

Pablo Ortellado: Bolsonaro prepara alegação de fraude

O Globo

Nos últimos dias, começaram a despontar os primeiros elementos da estratégia de Bolsonaro de alegar fraude caso perca as eleições. De um lado, ele busca fomentar a desconfiança dos eleitores nas urnas por meio de uma campanha intensa de desinformação; de outro, pretende arrastar os militares para o centro da crise institucional que se anuncia.

Sem grandes surpresas, Bolsonaro resolveu descartar o compromisso de não atacar mais a confiabilidade do sistema eleitoral. O compromisso havia sido assumido após as duras reações das instituições aos protestos antidemocráticos de 7 de setembro de 2021 e depois que a proposta do voto impresso fora derrotada no Congresso.

Eduardo Affonso: O Brasil é um caso sério

O Globo

Não, De Gaulle jamais disse que o Brasil não era um país sério. A frase é de um brasileiro, Carlos Alves de Souza Filho, embaixador em Paris por ocasião da “Guerra da Lagosta”, entre Brasil e França — guerra que, como a Batalha de Itararé e a viúva Porcina, foi sem nunca ter sido.

Também não houve, por enquanto, a invasão da Ucrânia — evitada pela providencial ida de Bolsonaro à Rússia. Pelo menos é o que se deduz do vídeo em que o presidente Putin declara: “Hoje estava prestes a atacar a Ucrânia quando conversei com o presidente Jair ainda em voo. Ele, que veio de um lugar tão longe, disse: ‘Ô Vladi, o mundo é nossa casa. Deus está acima de todos’. Isso tocou na minha alma. Portanto agora decidi retirar minhas tropas da fronteira. E parar essa guerra. Agradeço de coração, presidente brasileiro”.

Carlos Alberto Sardenberg: O que fazer com os 30 quilos de cocaína?

O Globo

Em 9 de julho de 2019, quando tomava corpo o desmonte da Lava-Jato e de todo o sistema de combate à corrupção, o professor de Direito Constitucional Joaquim Falcão deu uma aula sobre esse tema aqui no GLOBO. Começou contando uma história que ouvira de um ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal.

A seguinte: “O Supremo julgava um traficante de drogas. Preso com 30 ou mais quilos de cocaína. Não lembro bem. Uma enormidade. Na apreensão, ou durante o processo, uma autoridade teria cometido ato duvidoso diante da lei. A defesa argumentou ofensa ao princípio de devido processo legal. Donde, in dubio pro reo. O debate no Supremo caminhava rotineiramente para a soltura e absolvição do traficante preso. Quando, surpresa, um ministro perguntou a seus colegas: E a cocaína? O que fazemos com os mais de 30 quilos apreendidos?”.

João Gabriel de Lima: Caetano Veloso e Olavo de Carvalho

O Estado de S. Paulo

Em 1996, o poeta Bruno Tolentino provocou uma polêmica na área da cultura. Em entrevista a Geraldo Mayrink, um dos maiores jornalistas culturais daquele tempo, criticou o que lhe parecia um dado nocivo no País: músicos populares – notadamente Caetano Veloso – dando opiniões sobre o Brasil, quando na França eram filósofos da academia que ocupavam este espaço. Mayrink rebateu: “Mas existe algum filósofo brasileiro que mereça mais espaço na mídia?” Tolentino citou um nome: Olavo de Carvalho. De volta à redação, Mayrink confessou aos colegas que não sabia quem era.

Ricardo Rangel: Um deserto de candidatos e de ideias

Revista Veja

O perturbador cenário de indigência a oito meses da eleição

O mundo gira, a Lusitana roda, e a terceira via continua no mesmo lugar: nenhum.

Simone Tebet (que declarou que sua candidatura estava “se tornando irreversível”) e João Doria (famoso por não desistir nunca) cogitam desistir de concorrer em prol de uma candidatura única a ser lançada por uma federação entre MDB, PSDB e União Brasil. Que candidatura seria essa, ninguém sabe.

O que se sabe é que Gilberto Kassab, do PSD, vai acabar apoiando Lula, mas, enquanto isso, tenta encontrar alguém para esquentar a cadeira e aumentar o valor de seu passe. Seu plano A é Rodrigo Pacheco, que não decola. O plano B é Eduardo Leite, que teria de ganhar a final depois de perder a semifinal (se tentar e perder de novo, o que é quase certo, pode enterrar sua promissora carreira). Kassab já tem plano C: Paulo Hartung, que é honesto, experiente e consertou o Espírito Santo, que parecia sem conserto. Mas é desconhecido e não tem carisma.

Marcus Pestana*: A transição inconclusa e a nova geração de líderes

A sociedade brasileira se cansou daquela estória do Brasil ser o país do futuro, já que há décadas tropeçamos em crises variadas e permanentes que nos brindam com um “voo de galinha” na economia e um passivo enorme e inaceitável no campo social.

A geração da redemocratização tinhas objetivos ousados e generosos. A agenda democrática dos anos de 1970 – anistia ampla e geral, constituinte livre e soberana e eleições diretas para presidente – carregava uma utopia muito maior. Não só a conquista das liberdades democráticas, dos direitos individuais, mas a construção da cidadania substantiva para todos a partir da consolidação dos direitos mínimos à renda, ao emprego, à segurança alimentar, à saúde e educação de qualidade, à habitação e ao saneamento. Este é o espírito da “Constituição Cidadã” de 1988.

Dora Kramer: Questão de estilo

Revista Veja

Rejeição a Bolsonaro é obra de uma vida que não pode ser mudada em passes de mágica

Os arquitetos da campanha do presidente Jair Bolsonaro parecem convencidos de que as traquinagens com o Tesouro não serão suficientes para reconstruir as relações dele com o eleitorado a fim de garantir um desempenho capaz ao menos de torná-lo competitivo na tentativa de reeleição. Pelo que andam dizendo, o candidato só terá salvação se o presidente mudar seu estilo.

Para suavizar a crítica ao comportamento de Bolsonaro, a ordem é atribuir a desventura eleitoral ao fato de ele não ter se vacinado e, por isso, agora se empenham em convencê-lo a se imunizar. O bruto, claro, resiste, embora provavelmente não por muito tempo. A julgar por essa versão edulcorada sobre a razão das desventuras presidenciais, uma vez vacinado, Bolsonaro estaria pronto a enfrentar Luiz Inácio da Silva e quem mais vier pela frente em condições de igualdade ou até mesmo bastante favoráveis em outubro.

De duas, uma: ou esse pessoal está delirando num exercício forte de autoengano ou a ideia é a de exercitar a arte da enganação para cima dos brasileiros. Não os que se deixam engambelar com entusiasmo, mas aqueles que integram o contingente de decepcionados que só faz crescer nos últimos três anos. Processo agravado pelas atitudes da chefia na crise sanitária, mas iniciado bem antes disso.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

É urgente resolver o problema das habitações precárias

O Globo

Depois das chuvas arrasadoras que já deixaram mais de 130 mortos e pelo menos 213 desaparecidos, o horror estampado nas encostas instáveis de Petrópolis, na Região Serrana do Rio, expôs de forma dolorosa um problema que não pode mais ser negligenciado. Em ano eleitoral, o déficit habitacional e a falta de políticas públicas para o setor, que empurram milhares de famílias para áreas de risco, precisam ter destaque no debate político dos candidatos a presidente, governador, deputado e senador.

A história se repete de forma trágica. Chuvas torrenciais na serra fluminense produziram em 2011 o maior desastre natural do país, com quase mil mortos. Era de esperar que o Brasil acordasse para o problema das habitações precárias, construídas de forma irregular e desordenada em áreas sujeitas a deslizamentos. Passado o clamor da tragédia, tudo volta à estaca zero. Em Friburgo e Teresópolis, onde bairros inteiros foram destruídos há 11 anos, casas condenadas voltaram a ser ocupadas. Em Petrópolis, um levantamento do município apontou que 27 mil famílias estavam em locais de alto risco. Continuaram no mesmo lugar. A questão não diz respeito apenas a Petrópolis. Em cidades de Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo e São Paulo, o drama é idêntico.

Poesia: João Cabral de Melo Neto: Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

Música | Simone: Haja Terapia

 

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Luiz Werneck Vianna* O que ainda nos falta

Em respeito aos fatos seria ocioso dizer que o governo que aí está já acabou, deixando atrás de si um monte de escombros, o culto narcísico do poder pelo poder em personagens liliputianos, embevecidos com o destino imerecido com que foram contemplados, agarrados como ostras às posições a que foram alçados sem merecimento. Personagens como os ministros Queiroga e Paulo Guedes mereceriam ser objeto da ironia de um Machado de Assis que certamente não escapariam de uma de suas páginas com suas empáfias solenes e vazias. Mas, no mundo da política as coisas não caem pela ação da gravidade como as maças de Newton, é preciso uma ação que provoque sua queda, e como tarda entre nós esse movimento o governo que não governa encontra meios para persistir em posições de mando.

Por falta disso, mesmo que sem um propósito claro, salvo o de se perpetuar no poder, o regime Bolsonaro subsiste diante de uma oposição que passivamente se mantém na expectativa de que a maça caia no seu colo como anunciam as previsões eleitorais. Tais previsões são conhecidas por todos, escrutinadas pelos estrategistas bolsonaristas, que conspiram em tempo contínuo para que elas não se realizem, inclusive em movimentos de alto risco como nessa viagem a Moscou em plena crise de alcance mundial pela questão da Ucrânia, em claro movimento dissonante da política dos EEUU, potência hegemônica com a qual sempre nos alinhamos.

A derrota eleitoral em 2022 no segundo turno, se não no primeiro, já faz parte da planilha dos dirigentes bolsonaristas, onde medra a desconfiança com as forças aliadas do Centrão que podem face ao horizonte sombrio que lhes parecem reservar as urnas buscar alternativas de sobrevivência nas hostes da oposição, várias delas treinadas nas artes da convivência com elas. Para o regime Bolsonaro o processo eleitoral é percebido como a crônica de uma morte anunciada, e, nesse sentido, se prepara para tumultuá-lo e impedir sua tramitação efetiva, reiterando as práticas de Donald Trump nas últimas eleições americanas com a invasão do Capitólio. Aqui, seu cavalo de batalha é o da denúncia das urnas eletrônicas, garantia de lisura da competição eleitoral, procurando aliciar para esses fins setores das forças armadas.

Vera Magalhães: Pão de queijo na Fiesp

O Globo

O primeiro encontro institucional do novo presidente da Fiesp, o mineiro Josué Gomes, com a imprensa foi num café da manhã em que não faltou o típico pão de queijo. Um emblema sutil de uma nova fase na entidade que representa a indústria paulista e tem desempenhado forte papel político na História brasileira.

Josué, filho e herdeiro empresarial do ex-vice-presidente da República José Alencar, começou por delimitar a mudança de paradigmas no prédio inclinado da Avenida Paulista ao dizer que a entidade não vê com nenhum temor uma nova eleição do ex-presidente Lula, que teve seu pai como companheiro de chapa e de governo no período de 2002 a 2010.

Para ele, a “população é soberana” para escolher seu candidato, e a Fiesp respeitará o resultado das eleições, “ganhe A ou B”.

É uma referência direta e reta à famosa frase de Mário Amato, que presidia a instituição em 1989 e previu uma fuga em massa de industriais caso o petista vencesse Fernando Collor de Mello na primeira eleição direta depois da ditadura.

Josué também tratou a Fiesp como contraponto ao mercado financeiro, que recebeu algumas leves estocadas, marcando uma contraposição bem nítida entre a pauta do setor produtivo e do financeiro, que fica patente nas prioridades que elenca para o Brasil.

Bernardo Mello Franco: Armadilha para o TSE

O Globo

Jair Bolsonaro retomou os ataques à urna eletrônica e à Justiça Eleitoral. O capitão disse que os ministros do TSE “têm partido” e querem torná-lo inelegível “na base da canetada”. Acrescentou que os juízes teriam um objetivo secreto: “eleger seu candidato, o Lula”.

A tese seria cômica se não fosse ridícula. Bolsonaro se elegeu numa disputa em que o mesmo Lula, então líder das pesquisas, teve a candidatura negada pelo TSE. O atual presidente da Corte, Luís Roberto Barroso, deu o primeiro dos seis votos para barrar o petista.

O capitão não precisa temer a Lei da Ficha Limpa. Conta com a proteção do cargo e com a omissão do procurador-geral da República. Apesar da blindagem, ele manterá o discurso da perseguição. Quer minar a confiança nas urnas e incitar a tropa contra o TSE.

Bolsonaro nunca escondeu seu plano golpista. Se for derrotado, tentará virar a mesa e melar a eleição. O roteiro original incluía a volta do voto impresso. Agora a ideia é arrastar os militares para o centro do tumulto.

Entrevista José Serra: ‘Siglas devem se unir para acabar com polarização’

José Serra Senador defende resultado das prévias vencidas por Doria e diz que diálogo com Lula é ‘natural’

Adriana Ferraz / O Estado de S. Paulo

Senador da República por São Paulo; foi chanceler, ministro da Saúde, governador, deputado e prefeito da capital paulista

Federações. Para senador, ‘exigências e peculiaridades locais’ podem travar acordos de união partidária

O senador paulista José Serra (PSDB), que pediu licença médica de quatro meses no ano passado para tratar da doença de Parkinson, ficou oficialmente afastado da política, mas não se desligou. Diz ter acompanhado as prévias tucanas, a tentativa de aproximação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com quadros históricos de seu partido – considerada “natural” por ele –, e a novidade das federações.

Aos 79 anos, Serra afirma não ter se decidido se vai tentar renovar o mandato, que se encerra em dezembro. Em entrevista ao Estadão por email, o senador disse que o PSDB deve respeitar o resultado das prévias que escolheram o governador João Doria como pré-candidato à Presidência, mas acha que os partidos precisam se unir em torno de um nome com chances de romper com o que classificou como “polarização entre extremos”.

Como o sr. avalia o processo de prévias tucanas e a vitória de Doria?

Como democratas, optamos por um processo de votação interna com candidatos qualificados. Agora, há que se respeitar o resultado das nossas urnas. O foco principal do partido deve ser a busca por projetos e planos de governo estruturantes para o País.