domingo, 26 de julho de 2026

Medo e delírio em Maceió, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ex-seminarista, tesoureiro de Collor usava citações em latim ao dissertar sobre corrupção

“Na longa noite em que seria morta, Suzana Marcolino foi ao salão de beleza Liu’s, no centro de Maceió, pintou as unhas na cor renda — discreta variação do branco — e pediu um leve corte nos cabelos”. É assim, com tintas de Garcia Márquez, que Xico Sá inicia a crônica de uma morte anunciada: a de Paulo César Farias, o PC. Ele e a namorada Suzana foram encontrados com balas no peito na manhã de 23 de junho de 1996. Era o fim trágico do maior vilão da Nova República: o tesoureiro responsável pela ascensão e queda do presidente Fernando Collor.

O mistério da praia de Guaxuma nunca foi elucidado. A Justiça descartou a versão de crime passional seguido de suicídio, mas não apontou culpados pelo duplo assassinato. Trinta anos depois, Xico volta à cena do crime para narrar a saga do homem mais investigado do país na década de 90. “Por acaso, também era minha principal fonte jornalística”, confidencia o autor de “O tesoureiro: o esquema de corrupção, a fuga espetacular e a morte de PC Farias”, que chega às livrarias nas próximas semanas.

Anos antes de se consagrar como cronista, Xico cobriu as bandalheiras da República de Alagoas como repórter da Folha de S.Paulo. Em junho de 1993, aproveitava uma folga no Recife quando ouviu no rádio a notícia de que um juiz havia decretado a prisão de PC por sonegação fiscal. “Só sonegação?”, perguntou-se o jornalista, que abandonou o amigo Chico Science na mesa do bar e pegou a estrada para Maceió.

Em vez de se entregar à polícia, PC contratou uma quadrilha chilena para organizar uma fuga cinematográfica. De peruca e sem o famoso bigode, embarcou num bimotor no sertão alagoano e fez escalas em Bom Jesus da Lapa (BA), Dourados (MS) e Assunção, no Paraguai, até pousar num pequeno aeroporto nos arredores de Buenos Aires, na Argentina. Depois de alguns dias incógnito, o tesoureiro voou rumo ao Caribe, de onde decolou para a Europa.

“Cadê o PC Farias?”, cobravam chefes, leitores e até a mãe do repórter. A resposta seria dada pelo próprio fugitivo. Descoberto por Xico, ele ligou para a redação e confirmou um dos maiores furos daquela cobertura: estava escondido em Londres. No rápido diálogo, o tesoureiro ainda encontrou tempo para se gabar: agora era vizinho de Diana, a recém-separada princesa de Gales.

Para localizar PC, Xico gastou sola de sapato e recorreu a métodos que não se aprendem nas faculdades de jornalismo. Fez valer o diploma de detetive particular, tirado por correspondência, e a leitura de romances policiais. Em Maceió, seguiu a receita de Hunter Thompson e investiu na ronda de bares e inferninhos, transformando seguranças e trabalhadoras da noite em informantes. Uma das espiãs, de codinome Brigitte Montfort, daria a pista definitiva do esconderijo na Inglaterra.

O PC que emerge do livro é um personagem e tanto. Ex-seminarista, leitor ávido de Nelson Rodrigues, despejava citações em latim ao dissertar sobre o esquema de corrupção que montou, com a colaboração de figurões do empresariado nacional. Numa das conversas, revelou a Xico ter subornado o então chefe da Interpol no Brasil, Edson Antônio de Oliveira. Depois de facilitar a fuga, o delegado posou como o responsável pela prisão de PC na Tailândia. Tentou usar os 15 minutos de fama para virar deputado, mas não se elegeu.

 

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