Valor Econômico
Milei presta serviço a Trump, tem uma agenda
liberalizante que converge com demandas do eleitorado brasileiro e é
competitivo para sua reeleição
Javier Milei enfrenta percalços de popularidade desde o início do arrocho, o que não o impediu de ganhar as eleições legislativas de outubro. Suas medidas vêm, ainda, sendo legitimadas pelo Legislativo. Quando percebeu que seria derrotado, como na votação do orçamento para a educação, recuou. “Com um custo social altíssimo, Milei domou a fera e a sociedade argentina topou porque seu programa de controle inflacionário é um sucesso”, diz a historiadora e especialista em relações Brasil-Argentina Monica Hirst. “O que ele inaugurou na convenção do PL foi a estratégia de fazer deste sucesso uma bandeira regional a serviço de Donald Trump”.
Monica Hirst morou por quase quatro décadas
na Argentina, onde atuou em três universidades (Flacso, Torquato di Tella e
Quilmes), no Instituto de Serviço Exterior, o Rio Branco daquele país, e,
ainda, na Fundação Centro de Estudos Brasileiros de Buenos Aires. Une-se ao
consenso de que o presidente argentino provocou a maior crise nos mais de 200
anos de relação bilateral. Não se deixa impressionar, porém, pela reação
negativa que se colhe, de imediato, ao comportamento de um chefe de Estado que
cruzou a fronteira para xingar o presidente da República e um ministro do
Supremo Tribunal Federal em solo brasileiro.
É verdade que não foram poucas as reações. O
governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, disse que os insultos
do presidente de seu país envergonharam a Argentina, e o jornalista Claudio
Jacquelin, do La Nacion, maior jornal conservador do país, afirmou que Milei
não tem limites em provocar danos à Argentina. A repercussão foi tão negativa
por lá que, ao desembarcar de volta, o presidente argentino inventou que o
Brasil teria financiado uma campanha contra seu país.
Monica Hirst também vai contra a corrente que
vê brevidade no projeto Milei. Diz que o presidente argentino mitigou a
liderança de sua maior opositora, Cristina Kirchner, e tem chances de se
reeleger no próximo ano. O que a move é a certeza de que Milei persegue a
construção de um projeto de extrema-direita para o continente que possa vir a
liderar a “serviço do imperador”. O Brasil, que sempre temeu uma base militar
dos EUA na fronteira, hoje tem uma ameaça mais efetiva, o que chama de
protetorado americano na bacia do Prata.
A camisa da seleção argentina vice-campeã da
Copa do Mundo que exibiu ao lado da bandeira de um Brasil eliminado nas oitavas
de final não deixou dúvidas de que Milei pretende, com seu discurso, alimentar
a animosidade mais radicalizada de seus eleitores aos brasileiros. Para isso,
não se limitou a empilhar impropérios, de ladrão a presidiário, contra Lula.
Afirmou que está a conduzir um projeto de poder que passa por ajuste fiscal,
desregulamentação das amarras ao empreendedorismo e erradicação da
delinquência.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, engoliu
a isca ao entabular um “palhaço” antes de enumerar os quesitos em que a
Argentina é facilmente ultrapassada pelo Brasil, do risco-país à inflação,
passando pela dívida pública. Nenhum desses indicadores escamoteia o fato de
uma maioria de brasileiros que ultrapassa, com folga, aqueles que se dizem de
direita rejeitar políticas públicas que aumentem a dependência do governo e não
ver a falta de oportunidades como causa principal da criminalidade.
O eleitor brasileiro não precisa aprovar a
ingerência estapafúrdia de Milei na campanha nacional para comungar com apelos
de seu discurso. Além disso, a forte aposta da campanha lulista na soberania
não tem sido capaz de reverter a percepção de que o presidente poderia ter
feito mais para impedir o tarifaço - 51% segundo o Datafolha - e que a
responsabilidade de Lula e Flávio Bolsonaro no episódio é equivalente: 41% apontam
o dedo para um e o mesmo percentual, para o outro. Algum sucesso, portanto, o
PL tem tido ao afrontar tão abertamente o interesse nacional como Milei o fez
no acordo que escancarou a soberania argentina a Trump.
É possível que tudo isso caia no vazio
quando, findas as convenções, a campanha, de fato, começar e Lula for capaz de
mostrar que ser xingado por um presidente que chamou o papa Francisco de
imbecil e burro é currículo. Ou ainda que a Argentina erra ao agredir o
principal destino de suas exportações, negociador do acordo da União Europeia-
Mercosul, que tornou o bloco menos dependente dos EUA, e responsável pela
custódia da embaixada argentina, ameaçada em Caracas, a pedido de Milei.
Na tarde de ontem, Lula desobedeceu a
recomendações de assessores de que permanecesse em silêncio sobre Milei ao
reagir com um “quem é esse cara?”, mas, além da convocação do embaixador
brasileiro em Buenos Aires, manteve uma agenda de reação ao isolamento que o
presidente argentino e Trump têm tentado impor ao Brasil. A visita do
presidente da Coreia, Lee Jae-Myung, nesta segunda, e o telefonema em que Xi
Jiping rechaçou interferências externas no Brasil sinalizam nesta direção.
Na nota do governo brasileiro sobre o
telefonema, que teria durado cerca de uma hora na noite do domingo, se diz que
Lula e Xi convergiram na necessidade de acelerar tratativas de um acordo
China-Mercosul, bloco que Milei despreza. Já o relato da agência estatal
chinesa Xinhua ignora o Mercosul e menciona duas vezes a convergência em torno
do Brics, bloco de hegemonia chinesa. É o preço, por ora, a ser pago.

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