Correio Braziliense
A ideia do Mercosul teve como exemplo o modelo do Mercado Comum Europeu, visando a integração, não só no terreno econômico, mas também político, cultural, físico
A assinatura do tratado entre União Europeia
e Mercosul nesta semana tem uma dimensão tão grande que torna impossível ser
assimilado agora seu significado. Basta saber que será uma das maiores zonas de
livre-comércio do mundo e, para nós, consolida o Mercosul definitivamente, pois
já sobreviveu a algumas agressões sérias. A primeira no governo Menem, com a
limitação dos seus sonhados objetivos para uma visão mais estreita.
Limito a dizer que, sem o presidente Alfonsín, não teríamos acordado a Declaração de Iguaçu, com sua principal consequência, o Mercosul. Também crucial foi a ajuda do presidente Julio Sanguinetti, outro eminente homem público, que participou das negociações e foi um algodão entre vidros naquele tempo de relações difíceis no Cone Sul.
Embora as ideias tenham partido de mim, sem o
fim das rivalidades entre Argentina e Brasil não teríamos chegado a nada. O
grande estadista da América, presidente da Argentina, Raúl Alfonsín, aceitou
nossa proposta, com aquele mesmo sentimento de Sáenz Peña: "Tudo nos une,
nada nos separa".
Há um provérbio chinês que diz: "Toda
vez que formos beber água num poço, não devemos esquecer quem o abriu".
Quando ouvi, nesta semana, o presidente da Argentina esquecer o seu predecessor
histórico, o seu primeiro antecessor democrático, fiquei com a impressão de que
uma omissão grave fora cometida. Se Alfonsín estivesse vivo, ele diria:
"Esqueceram de mim!" (Quanto a mim, nenhuma queixa, pois o
presidente Lula tem sido muito generoso comigo ao manifestar publicamente a
minha participação decisiva para a existência do Mercosul).
Paulo Tarso Flecha de Lima, Thompson Flores e
Rubens Ricupero muito me ajudaram a clarear os objetivos do Mercosul e, já
naquele 30 de novembro de 1985, estávamos em Iguaçu. O encontro teve meticuloso
planejamento. Estabelecemos que devíamos levar toda a nossa cúpula militar, os
três ministros, para começarmos a abrir as janelas da desconfiança e fixar
nossos propósitos de construir um novo tempo com novo patamar em nossas
relações. O clima da época era totalmente diferente do de hoje. Havia o
propósito permanente de piorar nossas relações. Tudo mudou. Desapareceram as
rivalidades e, hoje, as relações culturais, de turismo e de amizade estão cada
vez mais presentes. E jamais permitiremos retroceder. Como lema, adotamos:
"Vamos crescer juntos".
A Declaração de Iguaçu, que então firmamos, é
o documento básico dessa política. Ela é o marco que pode ser igualado ao
Tratado Franco-Germânico, que possibilitou o início do Mercado Comum Europeu.
Disse, àquela época, ao presidente argentino que devíamos marcar nossos
governos com o gesto histórico de encerrarmos todas as rivalidades,
estabelecendo uma política de estreita cooperação, visando a estabelecer, no
futuro, um mercado comum entre os dois países, Brasil e Argentina, incluindo o
Uruguai e outros países da região.
Devíamos sair da retórica para os fatos.
Falamos sobre o ponto delicado da política nuclear e manifestei o desejo de
abrirmos nossas caixas pretas, de país a país, estabelecendo uma aberta
cooperação nesse setor, o que foi possível com fatos que depois se confirmaram:
a minha visita a Pilcaniyeu, nos Andes, onde estava localizada a usina
argentina de enriquecimento de urânio, e a posterior inauguração, pelo
estadista argentino, da nossa fábrica de Aramar, quando dominamos a tecnologia
do urânio enriquecido através do processo de centrifugação.
Voltemos a Iguaçu. Lá ocorreu o gesto
corajoso e simbólico de um sagaz homem público, Alfonsín. Esse gesto mostraria
sua determinação de aderir a minhas propostas. Sem figurar no programa, sem que
a ninguém ele tivesse dito — e, penso, dominando a incompreensão existente em
alguns setores militares que o acompanhavam —, o presidente argentino, quando
lhe disse que nosso hotel estava a dois quilômetros da Barragem de Itaipu, me
respondeu: "Presidente Sarney, vamos visitar Itaipu?" Em seguida, lá
estávamos e batíamos uma foto — considerada impensável, pela sensibilidade do
problema das águas do Paraná e a construção da hidroelétrica no sangradouro da
barragem. Por essa foto, ele pagou duas rebeliões e uma cerrada crítica: os
dois presidentes, tendo como fundo as águas que desciam do vertedouro de
Itaipu, demonstrando uma vontade política forte, que haveria de mudar os rumos
do Cone Sul.
A ideia do Mercosul teve como exemplo o
modelo do Mercado Comum Europeu, visando a integração, não só no terreno
econômico, mas também político, cultural, físico. Ao contrário de uma visão
livre cambista, de Zona de Livre Comércio, nós nos propusemos a fazer uma
comunidade de nações. A Assembleia Constituinte brasileira colocou no art. 4º
da Carta Magna, entre os princípios nacionais, "buscar a integração dos
povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana
de nações".
O Mercosul começou como um mercado de mais de
200 milhões de habitantes e um PIB combinado de US$ 800 bilhões. Hoje,é um
gigante com 300 milhões de consumidores, e o PIB quase alcançando três trilhões
de dólares (US$ 2,8 trilhões).
No terreno político também o Mercosul
consolida nossas instituições democráticas, que possibilitaram um projeto dessa
envergadura. É bom lembrar que a iniciativa de criar o Mercosul só foi possível
depois que Argentina, Brasil e Uruguai se redemocratizaram. O Mercosul é
resultado da democracia no continente. Nela nasceu esse projeto que não tem
volta, talvez o fato mais importante na região.
Como disse Padern Martinez, então prefeito
uruguaio de Rivera, cidade fronteiriça a Santana do Livramento: "O
Mercosul foi o fato mais importante desde nossas independências".
*Ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

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