O Globo
“Trump pretende dobrar o Brasil. Fracassará.
Meu governo decidiu encarar o tarifaço como oportunidade de modernização
econômica. Movemo-nos pelo interesse nacional, não pelo interesse eleitoral.
Desisti do programa Brasil Soberano. Os
setores tarifados abrangem, largamente, a ‘indústria Paulo Skaf’: empresas
pouco competitivas, historicamente protegidas. Não receberão subsídios do
governo. Concedê-los seria ampliar a dívida pública, pressionando ainda mais a
taxa de juros. Não agiremos como seguradora de empresários, transferindo-lhes a
renda do povo em nome do protecionismo.
Deixemos o protecionismo para Trump. Nosso caminho é o inverso: como fizeram Indonésia e Vietnã, baixaremos taxas alfandegárias para estimular a importação de bens de capital e insumos, impulsionando a modernização industrial.
Só exporta quem importa. A abertura de
mercado proporcionará aumento e diversificação das exportações, além de
produtos melhores e mais baratos aos consumidores. O Brasil é aliado dos Estados Unidos.
Por isso ajudaremos Trump a alcançar seu objetivo, isolar os Estados Unidos do
mundo. Queremos parcerias comerciais com Ásia, Europa e Canadá. A redução de
tarifas de importação começa seletivamente. Exclui os Estados Unidos e
beneficia concorrentes das empresas americanas no setor estratégico de máquinas
e equipamentos.
— Temos que negociar! — falam por aqui os
lobbies dos setores da lista de exceções.
Fingem não saber que tentamos negociar ao
longo de meses. Trump queria submissão: o monopólio da exploração de nossas
terras-raras e o fim do Pix, além de outras exigências abusivas. Não somos
colônia.
As tarifas punitivas foram aplicadas sob
pretextos falsos (o Brasil mantém déficit com os Estados Unidos) e injuriosos
(repudiamos, aqui e no exterior, o trabalho forçado). O tarifaço tem motivações
políticas e ideológicas. Negociação de verdade, só com reação. Temos cartas, ao
contrário do que Trump imagina.
Não somos néscios. Ninguém imporá tarifas
simétricas de importação. Seria um tiro no pé. Escolhemos a retaliação
assimétrica calibrada. Por meio de impostos discriminatórios sobre exportações
(apenas para os Estados Unidos), faremos os consumidores americanos pagarem
mais pelo hambúrguer e pelo café. Vai doer neles, na hora das eleições ao
Congresso.
A China ensinou ao mundo uma lição, ao
ensaiar o controle de exportações de minérios críticos, impondo a negociação à
Casa Branca. Não somos a China, mas os Estados Unidos não têm substitutos para
nosso nióbio, essencial à produção de aços especiais para as indústrias
aeronáutica e de defesa. Não descartamos proibir temporariamente as exportações
para os Estados Unidos.
Embraer e Bombardier fornecem quase todos os
aviões regionais usados nos Estados Unidos. Em aliança com o Canadá, abrimos a
possibilidade de controlar as exportações dessas aeronaves. Que fique claro:
seriam controles temporários, dirigidos exclusivamente aos Estados Unidos, que
cessarão quando concluirmos um acordo comercial equânime.
Retaliação não sai de graça. Os setores
excluídos do tarifaço são compostos por empresas modernas, altamente
competitivas, com forte lastro financeiro. Mas a vida não se resume a lucros.
Fazendo sua parte no esforço nacional, elas sofrerão perdas momentâneas.
Contudo, mesmo antes de recuo dos Estados Unidos, acelerarão a diversificação
de mercados já em curso, exportando para China, Japão, Sudeste da Ásia, Europa
e Canadá. Ao longo dessa trajetória, o agro oferecerá alimentos mais baratos para
um mercado interno em expansão.
A ideia é negociar, não escalar, mas tudo
está sobre a mesa: tarifar serviços prestados por empresas americanas, taxar
pesadamente as big techs, quebrar patentes farmacêuticas. Imagino que não
seremos forçados a chegar a esses limites.
O governo do Brasil não desfralda bandeiras ideológicas. Queremos restaurar o intercâmbio comercial normal com os Estados Unidos. Soberania não é de esquerda ou de direita. Conclamamos a oposição a desviar-se da estrada da submissão a interesses estrangeiros, participando da resistência nacional ao ataque contra nossa economia. Não pedimos adesão. O voto popular está aí para deliberar sobre nossas divergências.”

Nenhum comentário:
Postar um comentário