quarta-feira, 10 de junho de 2026

A virada global dos juros, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Sem um recuo maior no preço do petróleo, vem aí uma era de aperto global dos juros

A aceleração dos índices de preços ao consumidor e a piora das expectativas de inflação, desde o início da guerra no Irã, estão forçando uma mudança de postura nos principais bancos centrais do mundo: alguns deles se anteciparam e elevaram os juros preventivamente; outros até tentaram esperar passar o choque de oferta do petróleo e de outras matérias-primas, mas devem embarcar em breve num ciclo de aperto monetário; e os que já haviam começado a cortar os juros estão sob pressão crescente para pausar, como é o caso do Brasil.

Os que ainda estavam pregando paciência, à espera de uma resolução iminente no conflito do Oriente Médio, com a reabertura do Estreito de Ormuz, querem evitar a repetição da disparada da inflação em 2022, quando a invasão da Ucrânia pela Rússia gerou um choque de preços de combustíveis. Naquela época, vários bancos centrais demoraram a reagir e acabaram tragados numa espiral inflacionária. Foi o caso do Banco Central Europeu (BCE), que viu a inflação na Zona do Euro atingir 10,6% em outubro de 2022. Não à toa, o BCE vem sinalizando que irá elevar os juros em 0,25 ponto porcentual, para 2,25%, na sua reunião de política monetária marcada para amanhã. Até o fim do ano, o mercado aposta em outras duas altas de juros pelo BCE.

Entre os países desenvolvidos, a Austrália e a Noruega foram os primeiros a ajustar os juros. O BC australiano já elevou sua taxa básica três vezes neste ano, para 4,35%, visando conter a escalada dos preços de energia sobre o custo de vida. Em abril, a inflação ficou em 4,2%, bem acima da meta de 2% a 3% do BC australiano. A Noruega também elevou os juros, para 4,25%, em meio ao aumento no custo dos combustíveis e à pressão de reajustes salariais. Já a Nova Zelândia só manteve os juros inalterados na sua reunião de junho com um voto de desempate do presidente de seu banco central, mas o mercado precifica 90% de chance de elevação da taxa em julho. No Japão, é praticamente garantida uma alta dos juros neste mês.

Já entre os países emergentes, a lista dos bancos centrais que começaram a aumentar os juros é maior: Indonésia, África do Sul, Singapura e Filipinas. Muitos deles estão sofrendo com a desvalorização de suas moedas ante o dólar, o que torna as importações mais caras.

Nos EUA, a chance de o Federal Reserve voltar a cortar os juros, como quer Donald Trump, virou pó após os últimos dados do emprego e da inflação. O risco agora é de elevação da taxa básica até o fim do ano. Sem um recuo maior no preço do petróleo, vem aí uma era de aperto global dos juros.

 

 

 

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