quarta-feira, 10 de junho de 2026

Motta abre caminho para a regulação da IA, por Fernando Exman

Valor Econômico

Presidente da Câmara colocou o tema como uma prioridade de sua gestão

Há fartos sinais vindos do exterior que embasam a decisão do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), de dar novo impulso às discussões sobre a regulação da Inteligência Artificial. Governos e empresas de tecnologia empreendem uma arriscada “corrida de IA”, cujas potenciais consequências já começam a sair das projeções de mais longo prazo de especialistas em futurismo para aparecer nos alertas do presente.

Para os céticos, um indicador financeiro: a recuperação do setor de tecnologia nos Estados Unidos vem ajudando a drenar recursos estrangeiros do mercado brasileiro, com reflexos no câmbio e na bolsa de valores. E o movimento pode se intensificar: após a Anthropic, a OpenAI anunciou que protocolou um pedido de oferta pública inicial de ações (IPO). Para a sexta-feira (12), está agendada a estreia na bolsa da SpaceX, que também tenta se capitalizar para ter mais musculatura para investir em IA.

Corre-se, mas ainda não se sabe para onde. Ou, pior, sabe-se muito bem e se quer evitar tal destino.

Poucos dias depois de o papa Leão XIV divulgar encíclica sobre como salvaguardar “a pessoa humana na era da Inteligência Artificial”, a própria Anthropic pediu que os principais laboratórios de IA considerem uma pausa coordenada e verificável no desenvolvimento da tecnologia. Os avanços têm sido tão rápidos, alertou a criadora do Claude, que eles podem em breve permitir que sistemas de IA se aprimorem sozinhos mais rapidamente do que a capacidade da humanidade de administrar os riscos. Ou seja, eles estariam caminhando para o ponto no qual a tecnologia consegue evoluir sem a intervenção humana.

Este é um risco previsto há anos por especialistas. O que alguns comemoram como o salto que mudará a história da humanidade é, na visão de outros, um pulo em direção ao abismo.

As IAs se diferenciam dos “computadores tradicionais” justamente pela capacidade de aprender. Nesse processo, treinam para conseguir tirar suas próprias conclusões. Respostas sem explicações são fornecidas aos usuários de forma articulada e coerente, mas nem mesmo os criadores da IA conseguem acessar os modelos que a levaram a fornecer tal informação.

Em outros casos, o risco é lidar com “delírios” da máquina. Como a IA é capaz de transformar a ciência que conhecemos hoje, será necessário estabelecer limites da sua autoridade sobre a verdade.

Em outra frente, ao tentarem garantir que a IA consiga desenvolver uma relação confiável entre a realidade e as formulações que apresenta, pesquisadores podem acabar possibilitando que as máquinas ganhem uma espécie (ainda que rudimentar) de “autoconsciência”. Qual seria a sua consideração sobre os seres humanos e o tratamento que poderia dar, no futuro, a homens e mulheres?

Especialistas também debatem riscos e benefícios do uso da IA pelo Estado e tomadores de decisão. Ainda são imprevisíveis os impactos na democracia, na economia, no respeito aos direitos humanos e nas relações internacionais. Isso sem falar na medicina e, no limite, na própria evolução física da espécie humana.

Mundo afora, governos ainda buscam um caminho para implementar uma regulação que reduza riscos sem estrangular investimentos, tendo Estados Unidos e China como opositores nessa trilha. A União Europeia, por exemplo, recentemente adiou restrições que seriam aplicadas no uso de IA em situações de alto risco - seu modelo, aliás, serviu como referência importante nas discussões realizadas no Senado brasileiro. Nos EUA, a preferência tanto da oposição quanto do governo Trump é a construção de uma fórmula que garanta ao Estado participação nas empresas (ou nos seus lucros) para assegurar que os benefícios sejam compartilhados com a sociedade.

O Brasil também quer marcar posição. Por isso, o presidente da Câmara colocou o tema como uma prioridade de sua gestão. Logo criou uma comissão especial para analisar o projeto aprovado pelo Senado no fim de 2024 e, agora, quer levar o texto relatado pelo deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) para o plenário antes do recesso.

Motta tem feito articulações com o Judiciário e o Palácio do Planalto, e acompanha as interações de Ribeiro com o Senado. Como o projeto será alterado, retornará para a outra Casa do Parlamento antes de seguir para sanção. A meta é divulgar um texto que já seja palatável aos senadores.

Uma possibilidade é a proposta incorporar os incentivos previstos na medida provisória que estabelecia o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata) e acabou caducando. As novas sanções americanas ao Brasil dão argumento aos defensores da iniciativa, uma vez que grande parte dos dados brasileiros acaba em datacenters no exterior.

Será inescapável o necessário debate sobre a remuneração dos direitos autorais do conteúdo utilizado para treinamento da IA. Também se espera que o relator trate da tributação das empresas e governança do setor. Discute-se a necessidade de um ministério específico que, junto a outros órgãos reguladores, defina políticas públicas e fiscalize o segmento.

Ribeiro diz que seu parecer será “atemporal” e que a lei precisa ser “viva”. Ou seja, que consiga sobreviver a avanços tecnológicos. Em uma situação que dá tolerância zero para equívocos, de fato a estratégia não pode ser de “tentativa e erro”.

 

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