Folha de S. Paulo
Presença do senador impede outros nomes de
crescer
Nenhum candidato avança sem passar pelo
bolsonarismo
A direita brasileira tem hoje um candidato
que gostaria de abandonar e um eleitorado do qual não pode abrir mão.
Esse é o seu dilema na corrida presidencial
de 2026. Flávio
Bolsonaro atrapalha os planos, mas o bolsonarismo continua sendo a
única direita com piso eleitoral relevante e base mobilizada. A direita chega à
disputa com uma vantagem: a rejeição a Lula é enorme
e o antipetismo continua em alta. O problema é que isso só será força real se
passar pelo eleitorado bolsonarista.
A direita tradicional adoraria se livrar o quanto antes da candidatura de Flávio Bolsonaro. Não lhe faltam candidatos, ambições ou projetos alternativos, mas Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan sabem que Flávio ocupa um espaço que os impede de crescer. O senador larga na frente graças ao sobrenome e torna a direita refém das próprias vulnerabilidades.
Flávio tem pés de barro. Carrega o desgaste
dos áudios ligados a Daniel
Vorcaro, que atingiram precisamente a credencial moral de que se gaba o
bolsonarismo. Carrega a percepção de vassalagem política a Trump, num país em
que a direita sempre se apresentou como patriótica e nacionalista. Carrega a
rejeição antibolsonarista que foi fatal na eleição de 2022. Carrega, por fim, o
radicalismo tradicional da extrema direita, que anima a militância, mas
desperta desconfiança em parte do eleitorado que gostaria apenas de trocar o
governo, não de entrar outra vez numa guerra santa.
Caiado, Zema e Renan gostariam de parecer uma
direita mais normal, administrativa e eleitoralmente palatável. Mas são nomes
de direita tentando sobreviver num campo que Bolsonaro radicalizou e passou a
comandar.
Podem até ter menos rejeição, melhor trânsito
com setores econômicos, máquinas estaduais, discurso de gestão e maior
capacidade de conversar com eleitores cansados do barulho permanente da política
brasileira. Mas não têm, sozinhos, o que Jair
Bolsonaro tem: uma base nacional que vota por fidelidade, identidade e
obediência afetiva. Bolsonaro, por sua vez, quer entregar essa base ao filho,
porque só confia no próprio sangue para guardar um lugar que considera seu por
direito.
Podem parecer mais viáveis contra Lula em
simulações de segundo turno, mas precisam primeiro chegar lá. Para isso,
dependem da bênção de quem talvez não tenha interesse algum em abençoá-los.
Bolsonaro sabe que a política não tolera
vácuo. Quem imagina Caiado, por exemplo, sentado no Planalto apenas para
esquentar a cadeira até a volta de Bolsonaro não conhece Caiado, nem conhece o
poder. Um presidente eleito pela direita controlaria orçamento, cargos,
articulação parlamentar, agenda pública e comando simbólico do campo. Passaria
a ser o novo centro de gravidade da direita brasileira. A tendência seria que o
bolsonarismo se transformasse naquela base sem a qual não se ganha eleição, mas
com a qual não se governa.
Um filho, ao contrário, pode funcionar como
guardador de lugar. Pode perder sem ameaçar a propriedade política do clã. Pode
vencer sem deslocar o comando familiar. Para Jair Bolsonaro, a derrota de
Flávio pode ser menos perigosa do que a vitória de um aliado. Talvez calcule
que uma derrota com votação expressiva e bancada robusta preserve melhor seu
domínio sobre a oposição do que uma vitória alheia.
A direita não bolsonarista pode ensaiar
pactos de unidade, posar para fotografias com Flávio, prometer convergência e
repetir que o adversário comum é Lula. Nada disso elimina o fato de que não
lidera o próprio campo. Orbita em torno de Bolsonaro e espera que a família
decida se permitirá uma alternativa mais competitiva.
Flávio Bolsonaro, nesse sentido, é menos
causa do problema do que sintoma de sua estrutura. Ele mostra que a direita
brasileira cresceu, mas não se emancipou. Tornou-se numerosa, mas continua
dependente. Produziu governadores, bancadas, influenciadores e máquinas
estaduais, mas ainda não produziu uma autoridade capaz de enfrentar Bolsonaro
dentro do seu próprio território eleitoral.
A direita que acusa Lula de personalismo,
hegemonia partidária e apego ao poder encontra-se presa a uma sucessão familiar
muito menos institucionalizada e muito mais caprichosa. Quer vencer a eleição
presidencial com outro candidato, mas sabe que só teria chance se Bolsonaro
retirasse o próprio filho da corrida eleitoral para ungir outro escolhido. O
cálculo político do clã, porém, manda priorizar a sobrevivência dinástica,
usando o espólio eleitoral como ativo de proteção jurídica e política. A
direita quer ganhar a eleição; Bolsonaro quer continuar dono da direita. A
conta não fecha.
*Professor titular da UFBA, doutor em filosofia e autor de “Transformações da Política na Era Digital”, “A Democracia no Mundo Digital” e “A Tirania da Virtude”

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