Correio Braziliense
Com a ilusão de que isso reduzirá a violência
dos batedores de carteira das esquinas e dos corredores do Estado, o povo
aceita a vergonha de sermos um país associado ao terrorismo e,
consequentemente, perdermos parte de nossa soberania
Além da vergonha nacional, a inclusão do Brasil entre os países que abrigam grupos terroristas nos impõe algumas lições.A primeira é reconhecer que fracassamos na luta contra o crime. Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV) e outras facções são apenas a face mais ostensiva da violência que caracteriza a sociedade brasileira: desigualdade, pobreza, analfabetismo, batedores de carteira nas esquinas, assaltantes nos corredores do Estado por meio de supersalários, penduricalhos, desperdícios, privilégios e ostentação.
A segunda lição é que, durante décadas,
deixamos de fazer o dever de casa: construir uma sociedade harmônica, sobretudo
por meio de uma educação básica de qualidade para todos. Há 60 anos, Darcy
Ribeiro nos alertava que ou fazíamos escolas ou teríamos de fazer prisões.
Preferimos outras prioridades e não implantamos um sistema nacional de educação
pública com máxima qualidade e absoluta equidade.
A terceira lição é que, com a ilusão de que
isso reduzirá a violência dos batedores de carteira das esquinas e dos
corredores do Estado, o povo aceita a vergonha de sermos um país associado ao
terrorismo e, consequentemente, perdermos parte de nossa soberania. Duzentos
anos depois de conquistarmos a independência, corremos o risco de aceitar a
perda de soberania em troca da promessa de paz nas ruas.
A quarta lição nos ensina que os defensores
da submissão não são apenas um ou outro político, mas também seus partidos e
correligionários. A disputa eleitoral está concentrando a crítica pelo
servilismo em apenas um candidato à Presidência, mas deve alcançar todos os
políticos antipatriotas e seus partidos. Dois séculos depois de declararmos
nossa independência de Portugal, poderemos ter uma eleição entre partidos que
defendem a submissão do Brasil à vontade de um governo estrangeiro e partidos
que defendem a cooperação internacional com preservação da soberania nacional.
Além dos candidatos à Presidência da República, há dezenas de candidatos aos
governos estaduais, ao Senado, à Câmara dos Deputados e às Assembleias
Legislativas que adotam posições contrárias aos interesses e à independência do
Brasil.
A quinta lição é que transferir para um
governo estrangeiro a luta contra o PCC e o CV representa um retrocesso aos
tempos coloniais ou ao período da ditadura militar, quando um embaixador
brasileiro em Washington afirmou que "o que é bom para os Estados Unidos é
bom para o Brasil". Mesmo reconhecendo o fracasso dos governos federal e
estaduais no combate à violência urbana e ao crime organizado — com
parlamentares que empregam criminosos, convivem com milícias, elogiam e
condecoram bandidos ou recebem financiamento eleitoral de organizações
criminosas —, a perda de soberania afeta negativamente todos os
brasileiros.
Ao integrarmos o conjunto de países
associados ao terrorismo, os turistas poderão hesitar em visitar nossas cidades
ao lembrarem que temos grupos comparáveis ao Boko Haram, à Al-Qaeda ou ao
Hamas. Ficaria legitimada, ainda que improvável, a hipótese de bombardear
morros do Rio de Janeiro para eliminar terroristas, da mesma forma que Gaza e
Líbano são bombardeados sob esse argumento. A suspeita de que um banco ou outra
empresa mantenha relações com o crime organizado poderá levar seus dirigentes a
perderem o visto de ingresso nos Estados Unidos ou até mesmo serem mortos
legalmente sob a legislação norte-americana. Da mesma forma, caso haja suspeita
de que alguns dos iates ancorados na Baía de Botafogo transportem drogas, os
órgãos de defesa dos Estados Unidos poderão sentir-se autorizados a atacá-los,
como fazem com embarcações no litoral colombiano. Também poderiam sequestrar
cidadãos brasileiros suspeitos de envolvimento com grupos classificados como
terroristas: advogados que os defendem, operadores financeiros que movimentem
seus recursos, dirigentes de bancos onde sejam depositados lucros oriundos do
crime, juízes que tenham proferido sentenças favoráveis ou parlamentares que
tenham empregado ou condecorado integrantes dessas organizações.
A sexta lição é que, na disputa entre os
"partidos da soberania" e os "partidos da submissão", o
Brasil precisa que os eleitores rejeitem candidatos vinculados a partidos contrários
à nossa independência. Em 2025, o tarifaço de Trump nos uniu; em 2026, o
"terroraço" deve nos unir em defesa da soberania nacional, baseada na
cooperação internacional, jamais na submissão ao governo de outra nação.
*Cristovam Buarque — professor emérito da
Universidade de Brasília (UnB)

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