O Estado de S. Paulo
Os Bolsonaros atacaram, Lula tentou defender e perdeu. Trump ganhou a guerra
A palavra de ordem na crise das tarifas entre
Brasil e EUA é negociação, mas isso depende de algo básico: combinar com os
adversários. Não há conversa se um dos lados fecha portas e ouvidos e esse é o
caso de Donald Trump e Marco Rubio, que não estavam e não estão dispostos a
conversar governo a governo. Quando um não quer, dois não brigam. Quando um não
quer, ninguém negocia.
O presidente Lula não passa ileso de críticas, desde que, apesar da “química” com Trump, insistiu em dar caneladas no presidente americano. Uma ou outra eram indispensáveis, mas a insistência foi além do necessário. Isso, porém, não significa que o Brasil não tenha se esforçado para negociar.
A iniciativa privada, ao largo da política e
da eleição, teve mais êxito, mas o governo fez o possível. Os argumentos
técnicos foram muito bem construídos contra as inúmeras mentiras sobre PIX,
desmatamento, balança comercial e vai por aí afora. Mas... Os “negociadores” do
outro lado não estavam dispostos a ceder um milímetro e nem mesmo a ouvir os
argumentos técnicos. Foi uma decisão unilateral, trancada num único cofre: a
cabeça de Trump. Ele quis, ele impôs.
A questão política foi fundamental desde o
tarifaço de 50%. A origem de tudo foi o acesso de Eduardo Bolsonaro à Casa
Branca e a prova é a carta de Trump, de julho de 2025, fazendo ameaças e
exigindo o imediato fim do processo contra Jair Bolsonaro por tentativa de
golpe. Mais político, impossível.
Todos os ataques vieram depois disso, até
Trump recuar e suspender os 50%. O marco da volta dos ataques foi o encontro de
Flávio Bolsonaro e Trump, seguido da classificação de PCC e CV como terroristas
(uma ameaça latente de intervenção), a retomada da retórica beligerante, Trump
contra Lula no G-7 e a bomba da Seção 301 de Comércio. Portanto, o movimento de
Trump é, sim, contra o mundo e o multilateralismo, mas tem um viés político
inegável em relação ao Brasil, o maior país da América do Sul, com fartas
terras raras e ainda fora do controle da direita.
E agora, o que esperar? Engolir em seco seria
prejudicar setores importantes da economia e milhares de empregos. Retaliar,
pura e simplesmente, não seria prudente. A Lei de Reciprocidade, aprovada pelo
Congresso, é um instrumento à mão. Se convém ou não é caso para discussão.
Como a motivação tem claro viés político, os
Bolsonaro jogaram o Brasil nas mãos de Trump, Lula tirou uma casquinha e há um
impasse, o tarifaço tem efeito eleitoral, queiramos ou não, e qualquer reação
ou negociação depende do próximo governo. Que seja altiva, mas pragmática. Não
é pedir muito.

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