domingo, 19 de julho de 2026

O Brasil e outra oportunidade perdida, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Na ofensiva tarifária de Trump a lição para os brasileiros é: não seja eficiente, seja dependente do governo

A tarifa americana de 25% aprofunda a escolha do Brasil de privilegiar setores ineficientes, sacrificar os eficientes, elevar o protagonismo do Estado, intensificar a transferência silenciosa de riquezas para grupos privilegiados e a dependência da China. Antes da ofensiva de Donald Trump, os EUA impunham alíquota média de 3%; a União Europeia, de 4%; o Mercosul, 11%.

Empresas com mais poder político usufruem de proteções ainda maiores: 18% para o etanol, 20% para produtos industrializados, 35% para automóveis e 63% para resinas termoplásticas, se consideradas as ações antidumping.

Com tanta proteção, o Brasil tinha muita margem para fazer concessões, que beneficiariam principalmente os brasileiros. A redução das tarifas permitiria a empresas brasileiras importar bens de capital e matérias-primas de alta qualidade a preços mais baixos, para impulsionar sua inovação e competitividade. Em vez disso, o governo brasileiro quis arrancar concessões dos EUA.

Um exemplo foi o etanol. A tarifa americana era de 2,5%. Os EUA queriam equiparação. O Brasil impôs como condição ampliar a cota de exportação de açúcar. Para o USTR, cujo mandato é buscar condições equilibradas, isso não fez sentido. Essa postura do Brasil se repetiu nos outros casos. Não precisava ser assim. O Reino Unido produz 800 milhões de litros de etanol, consome 1,4 bilhão por ano e protegia o setor com tarifa de 19%. O país exporta 100 mil automóveis por ano para os EUA e importava mil toneladas de carne americana.

Keir Starmer, premiê de esquerda criticado por Trump, negociou de forma rápida e pragmática, evitando politização. Abriu o mercado de etanol e de carne dos EUA e assegurou a exportação dos 100 mil automóveis sem tarifa. UE e Japão também conseguiram acordos com benefícios mútuos.

Empresas brasileiras que exportam para os EUA porque investiram em qualidade agora correm o risco de fechar as portas. O governo oferece R$ 15 bilhões de ajuda extra. O programa, com o nome demagógico de Brasil Soberano, desvia recursos que poderiam ser destinados a infraestrutura e capital humano para aumentar a competitividade. A lição é: não seja eficiente, seja dependente do governo.

O Brasil reduz exportações de alto valor agregado para os EUA e aumenta as de commodities para a China. Um dia após o tarifaço, o Brasil entrou na Organização de Cooperação de Inteligência Artificial, liderada pela China. O grupo tem 29 países, todos sob a órbita de China ou Rússia. Nenhuma democracia, com exceção do Brasil.

 

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