O Estado de S. Paulo
Na ofensiva tarifária de Trump a lição para os brasileiros é: não seja eficiente, seja dependente do governo
A tarifa americana de 25% aprofunda a escolha
do Brasil de privilegiar setores ineficientes, sacrificar os eficientes, elevar
o protagonismo do Estado, intensificar a transferência silenciosa de riquezas
para grupos privilegiados e a dependência da China. Antes da ofensiva de Donald
Trump, os EUA impunham alíquota média de 3%; a União Europeia, de 4%; o
Mercosul, 11%.
Empresas com mais poder político usufruem de proteções ainda maiores: 18% para o etanol, 20% para produtos industrializados, 35% para automóveis e 63% para resinas termoplásticas, se consideradas as ações antidumping.
Com tanta proteção, o Brasil tinha muita
margem para fazer concessões, que beneficiariam principalmente os brasileiros.
A redução das tarifas permitiria a empresas brasileiras importar bens de
capital e matérias-primas de alta qualidade a preços mais baixos, para
impulsionar sua inovação e competitividade. Em vez disso, o governo brasileiro
quis arrancar concessões dos EUA.
Um exemplo foi o etanol. A tarifa americana
era de 2,5%. Os EUA queriam equiparação. O Brasil impôs como condição ampliar a
cota de exportação de açúcar. Para o USTR, cujo mandato é buscar condições
equilibradas, isso não fez sentido. Essa postura do Brasil se repetiu nos
outros casos. Não precisava ser assim. O Reino Unido produz 800 milhões de
litros de etanol, consome 1,4 bilhão por ano e protegia o setor com tarifa de
19%. O país exporta 100 mil automóveis por ano para os EUA e importava mil
toneladas de carne americana.
Keir Starmer, premiê de esquerda criticado
por Trump, negociou de forma rápida e pragmática, evitando politização. Abriu o
mercado de etanol e de carne dos EUA e assegurou a exportação dos 100 mil
automóveis sem tarifa. UE e Japão também conseguiram acordos com benefícios
mútuos.
Empresas brasileiras que exportam para os EUA
porque investiram em qualidade agora correm o risco de fechar as portas. O
governo oferece R$ 15 bilhões de ajuda extra. O programa, com o nome demagógico
de Brasil Soberano, desvia recursos que poderiam ser destinados a
infraestrutura e capital humano para aumentar a competitividade. A lição é: não
seja eficiente, seja dependente do governo.
O Brasil reduz exportações de alto valor
agregado para os EUA e aumenta as de commodities para a China. Um dia após o
tarifaço, o Brasil entrou na Organização de Cooperação de Inteligência
Artificial, liderada pela China. O grupo tem 29 países, todos sob a órbita de
China ou Rússia. Nenhuma democracia, com exceção do Brasil.

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