domingo, 19 de julho de 2026

O mais importante sobre o novo tarifaço não é a tarifa, por Matias Spektor*

O Globo

O objetivo não pode ser apenas exportar mais, mas usar a integração comercial para elevar a produtividade da economia

O erro mais comum na discussão sobre as novas tarifas americanas contra o Brasil é tratá-las como mais um episódio da turbulenta relação entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva. Essa dimensão existe. Mas ela esconde a transformação mais importante.

Os Estados Unidos passaram a reorganizar sua política comercial em torno do poder nacional. O comércio tornou-se instrumento de competição estratégica — controles de exportação de tecnologia sensível, exigências de conteúdo local para subsídios industriais, triagem de investimentos por segurança nacional. Quando a Suprema Corte anulou parte das tarifas de 2025, o governo Trump reconstruiu sua política tarifária sobre bases jurídicas mais sólidas. As novas tarifas contra o Brasil são parte dessa estratégia mais ampla.

O Brasil não é o alvo principal. O verdadeiro alvo é a arquitetura da globalização das últimas três décadas. A competição entre Estados Unidos e China reorganiza os incentivos de todos os demais países. A Europa fortalece sua política industrial. A China acelera sua autonomia tecnológica. Economias de todos os portes reduzem dependências arriscadas e diversificam relações comerciais. O comércio internacional deixa de ser espaço de ganhos mútuos e volta a ser terreno de competição entre Estados.

É aí que reside a vulnerabilidade brasileira. Nosso modelo de inserção internacional foi construído para um mundo com regras claras, onde era possível ampliar o comércio com a China e preservar boas relações com Washington sem grandes escolhas estratégicas. Esse mundo está desaparecendo.

A crescente concentração das exportações brasileiras no mercado chinês cria dois riscos distintos. O primeiro é Washington cobrar politicamente a proximidade com Pequim. O segundo é essa concentração dar a Pequim influência sobre escolhas brasileiras. O mesmo vale para a dependência brasileira de sistemas financeiros e tecnológicos ancorados nos Estados Unidos. Dependências comerciais deixam de ser apenas oportunidades econômicas: tornam-se moeda de barganha.

Por isso, o debate brasileiro não deveria se limitar à escolha entre retaliar ou negociar com Washington. Essas são questões táticas. A questão estratégica é outra: transformar o comércio exterior do Brasil em instrumento de fortalecimento das capacidades nacionais.

O objetivo não pode ser apenas exportar mais, mas usar a integração comercial para elevar a produtividade da economia, incorporar tecnologia, qualificar trabalhadores e acelerar uma transição lucrativa para uma economia de baixo carbono. O agronegócio compreendeu essa lógica: investiu em pesquisa, adotou tecnologia em escala e diversificou mercados. Grande parte do restante da economia, não.

O verdadeiro significado das tarifas de Trump não está no aumento da alíquota, mas no fato de que anunciam um mundo em que o comércio cumpre papel novo. A pergunta que interessa ao Brasil não é como reagir, mas como construir uma política comercial capaz de transformar a inserção internacional do país em desenvolvimento, resiliência e poder nacional.

Isso significa condicionar apoio público e compras governamentais a metas de conteúdo tecnológico; usar acordos comerciais para atrair investimento em elos de cadeias produtivas ausentes no país; e tratar a transição ecológica não como custo a compensar, mas como vantagem econômica a explorar.

* Matias Spektor é professor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo

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