O Globo
O objetivo não pode ser apenas exportar mais,
mas usar a integração comercial para elevar a produtividade da economia
O erro mais comum na discussão sobre as novas
tarifas americanas contra o Brasil é tratá-las como mais um episódio da
turbulenta relação entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da
Silva. Essa dimensão existe. Mas ela esconde a transformação mais importante.
Os Estados Unidos passaram a reorganizar sua política comercial em torno do poder nacional. O comércio tornou-se instrumento de competição estratégica — controles de exportação de tecnologia sensível, exigências de conteúdo local para subsídios industriais, triagem de investimentos por segurança nacional. Quando a Suprema Corte anulou parte das tarifas de 2025, o governo Trump reconstruiu sua política tarifária sobre bases jurídicas mais sólidas. As novas tarifas contra o Brasil são parte dessa estratégia mais ampla.
O Brasil não é o alvo principal. O verdadeiro
alvo é a arquitetura da globalização das últimas três décadas. A competição
entre Estados Unidos e China reorganiza os incentivos de todos os demais
países. A Europa fortalece sua política industrial. A China acelera sua
autonomia tecnológica. Economias de todos os portes reduzem dependências
arriscadas e diversificam relações comerciais. O comércio internacional deixa
de ser espaço de ganhos mútuos e volta a ser terreno de competição entre
Estados.
É aí que reside a vulnerabilidade brasileira.
Nosso modelo de inserção internacional foi construído para um mundo com regras
claras, onde era possível ampliar o comércio com a China e preservar boas
relações com Washington sem
grandes escolhas estratégicas. Esse mundo está desaparecendo.
A crescente concentração das exportações
brasileiras no mercado chinês cria dois riscos distintos. O primeiro é
Washington cobrar politicamente a proximidade com Pequim. O segundo é essa
concentração dar a Pequim influência sobre escolhas brasileiras. O mesmo vale
para a dependência brasileira de sistemas financeiros e tecnológicos ancorados
nos Estados Unidos. Dependências comerciais deixam de ser apenas oportunidades
econômicas: tornam-se moeda de barganha.
Por isso, o debate brasileiro não deveria se
limitar à escolha entre retaliar ou negociar com Washington. Essas são questões
táticas. A questão estratégica é outra: transformar o comércio exterior do
Brasil em instrumento de fortalecimento das capacidades nacionais.
O objetivo não pode ser apenas exportar mais,
mas usar a integração comercial para elevar a produtividade da economia,
incorporar tecnologia, qualificar trabalhadores e acelerar uma transição
lucrativa para uma economia de baixo carbono. O agronegócio compreendeu essa
lógica: investiu em pesquisa, adotou tecnologia em escala e diversificou
mercados. Grande parte do restante da economia, não.
O verdadeiro significado das tarifas de Trump
não está no aumento da alíquota, mas no fato de que anunciam um mundo em que o
comércio cumpre papel novo. A pergunta que interessa ao Brasil não é como
reagir, mas como construir uma política comercial capaz de transformar a
inserção internacional do país em desenvolvimento, resiliência e poder
nacional.
Isso significa condicionar apoio público e
compras governamentais a metas de conteúdo tecnológico; usar acordos comerciais
para atrair investimento em elos de cadeias produtivas ausentes no país; e
tratar a transição ecológica não como custo a compensar, mas como vantagem
econômica a explorar.
* Matias Spektor é professor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo

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