O Globo
Vença quem vencer a eleição deste ano,
seremos reféns do passado até pelo menos 2030, quando haverá uma nova safra de
políticos à disposição dos eleitores.
Vença quem vencer a eleição deste ano,
seremos reféns do passado até pelo menos 2030, quando haverá uma nova safra de
políticos à disposição dos eleitores, o que não acontece desde 1994, quando
Fernando Henrique, um presidente ocasional como ele gosta de se definir, surgiu
no cenário nacional fruto de uma visão moderna da política trazida pelo PSDB,
que rompeu com o desgastado MDB devido aos mesmos problemas que vivemos hoje,
especialmente a corrupção.
O hoje presidente Lula envelheceu no poder, de um renovador apresentado ao eleitorado em 1989 a um velho oligarca que hoje comanda um partido político, o PT, que caminha para a obsolescência assim que seu único líder se retirar da política, pela derrota este ano ou até 2030, ao terminar um possível quarto mandato presidencial. Se alguma intercorrência, de saúde ou política, impedir que termine o eventual mandato, seu substituto será o vice Geraldo Alckmin, outra raposa política vinda dos tucanos para o petismo, capaz de cantar a Internacional Socialista com a mesma entonação monocórdica com que acusava Lula de ter roubado na eleição presidencial que disputaram entre si em 2006.
Nem Lula é esquerdista, como ele mesmo diz,
muito menos Alckmin, mas os dois encontraram-se no terceiro governo de Lula
como uma solução para aquietar a classe média de centro. O PSDB, seu berço
político, não é nem sombra hoje do que já foi, e para isso o destino foi cruel
com os brasileiros. Sendo um presidente sem vícios da política tradicional,
saído da Academia diretamente para o Senado com um eleitorado de opinião,
Fernando Henrique não tinha gosto pelas artimanhas partidárias, preferia a arte
da política com P maiúsculo. No varejo partidário, ajudavam-no o ex-ministro
Sérgio Motta, um “trator” político, e o ex-governador e ex-presidente da Câmara
Luís Eduardo Magalhães, um fino político de raízes profundas no nordeste e nas
tramas de bastidores de Brasília.
Ambos morreram sem garantir ao PSDB a
continuidade de seu projeto, interrompido pela assunção do líder operário Lula.
Para se livrar da concorrência da social-democracia tucana, os petistas
inventaram de taxar de direitistas políticos como José Serra, Fernando
Henrique, Mário Covas, mas a verdade é que aconteceu com o PSDB o contrário do
PL bolsonarista de hoje. Os tucanos foram a força política capaz de derrotar o
petismo, e a direita, àquela altura com vergonha de se declarar, levou o PSDB
ao poder duas vezes no primeiro turno e várias vezes para o segundo turno, com
chances claras de vencer em 2014 com Aécio Neves, que hoje lidera um PSDB
minguado que tende a apoiar o bolsonarismo a pretexto de ser antipetista.
A direita hoje está refém da extrema direita
liderada por Bolsonaro, e era liderada pela social-democracia quando existia o
PSDB original. O faro elogiável de Alckmin confirmou-se, portanto. Um político
que era considerado amorfo pela esquerda, o atual vice na verdade tinha fortes
raízes sociais, tanto que escolheu ir para o PT a ficar num PSDB, este sim,
amorfo. É como o eleitor órfão dos tucanos, que hoje vota no PT para evitar a
vitória de Bolsonaro. Nunca mais, desde o Plano Real, tivemos governos com
projeto de país, mas governos que se opõem aos adversários pela negação do
outro, sem que apresentem ao eleitorado luzes para o desenvolvimento nacional.
As ações de natureza social, indispensáveis, iniciadas pelos tucanos e aprofundadas pelo petismo, encerraram-se em si mesmas, sem que dessem início a uma retomada de projeto de país para além das decisões compensatórias. O bolsonarismo chegou a bordo de uma farsesca luta antissistema e anticorrupção, com o objetivo de destruir o que fora construído, colocando no lugar um governo golpista que não convive com as regras democráticas. Estamos neste ponto.

Um comentário:
Saudade da rivalidade entre coxinha e mortadela,éramos felizes e não sabíamos.
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