domingo, 19 de julho de 2026

Novo primeiro-ministro britânico, Andy Burnham critica neoliberalismo e promete guinada à esquerda, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Fantasiado de lixeira, candidato de protesto ameaça derrotar líder da ultradireita populista

Nesta segunda-feira, Andy Burnham cruzará os portões do Palácio de Buckingham para uma audiência com o rei. Charles III vai perguntar se o novo líder do Partido Trabalhista aceita formar um governo em seu nome. O rito se repete há mais de três séculos — mas nunca foi encenado tantas vezes em tão pouco tempo.

Ex-prefeito de Manchester, Burnham se tornará o sétimo primeiro-ministro britânico em uma década. A instabilidade começou quando a população da ilha foi às urnas e tomou uma decisão estúpida: abandonar a União Europeia.

O Brexit deixou o Reino Unido mais pobre, mais isolado e mais difícil de governar. Em outubro de 2022, o tabloide Daily Star abriu uma transmissão ao vivo para saber quem duraria mais: o gabinete de Liz Truss ou uma folha de alface. A verdura venceu a conservadora, que caiu em apenas 49 dias.

Em julho de 2024, os trabalhistas conseguiram voltar ao poder, depois de 14 anos na oposição. Keir Starmer assumiu com uma supermaioria, mas logo passou a bater recordes de impopularidade. Deixará o poder em baixa, destronado pelos próprios colegas de sigla.

Burnham, o novo primeiro-ministro, promete mudanças. Sua plataforma sugere uma guinada à esquerda: combate ao aumento do custo de vida, resgate da assistência social, investimentos para solucionar a crise de moradia popular.

Visto com desconfiança pela elite financeira de Londres, ele afirmou na sexta-feira que não vai aumentar impostos e será um “líder pró-mercado”. Mas fez questão de condenar as “quatro décadas de neoliberalismo” que cortaram gastos sociais e desindustrializaram o país, deixando ruína e ressentimento na região em que nasceu.

Em decadência desde o reinado de Margaret Thatcher, o norte da Inglaterra votou em peso pelo Brexit no referendo de junho de 2016. Acreditou que romper com a União Europeia seria uma solução mágica para reverter o declínio econômico. A promessa era furada, mas seus porta-vozes não saíram de cena.

A ultradireita populista lidera as pesquisas para a próxima eleição geral, em 2029. O Partido Reforma aparece à frente de conservadores e trabalhistas, que se revezam em Downing Street há mais de um século. Burnham precisará enfrentá-lo sem cair em suas armadilhas. O novo primeiro-ministro sempre criticou o Brexit, mas avisa que não pretende reabrir o debate. A ver se conseguirá tourear o assunto por muito tempo.

O líder do Reforma está diante de um desafio mais peculiar. Em manobra para mostrar força após uma série de escândalos, Nigel Farage renunciou ao Parlamento e se candidatou a reocupar a própria cadeira. Agora corre o risco de ser derrotado por uma piada: o candidato de protesto Conde Cara de Lixeira (Count Binface).

O personagem do comediante Jonathan Harvey promete tabelar o preço do sorvete, banir o VAR do futebol e nacionalizar a cantora Adele. Sem tirar a fantasia, ridicularizou a pose antissistema de Farage e ameaça varrê-lo de Westminster. O reino pode não ser mais o mesmo, mas o humor britânico continua em dia.

 

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