Folha de S. Paulo
Toda vez que Flávio Bolsonaro cai nas
pesquisas, pede para a Casa Branca punir os brasileiros
Se tarifaço fosse de esquerda, todas as
legendas mais ou menos progressistas já teriam perdido registro
Toda vez que Flávio
Bolsonaro cai nas pesquisas, pede para a Casa Branca punir os
brasileiros. Do jeito que a coisa vai, temo que o Brasil seja alvo de um ataque
nuclear americano se vazarem vídeos do filho do Jair pelado na festa do
Vorcaro.
Os sucessivos tarifaços
americanos são a maior agressão
à soberania brasileira desde que os nazistas afundaram navios em nossa
costa. O bolsonarismo é o único movimento da história brasileira que tentou
roubar uma eleição presidencial por intervenção aberta de superpotência
estrangeira.
E o máximo que pode acontecer a essa turma é perder dois ou três pontos nas pesquisas presidenciais.
Agora imaginem o seguinte. O que aconteceria
se o tarifaço tivesse sido imposto a pedido de um candidato de esquerda?
Se o tarifaço fosse de esquerda, todas as
legendas mais ou menos progressistas já teriam perdido seu registro como
partido político com base no artigo 28, inciso II, da Lei nº 9.096, de 19 de
setembro de 1995, que estabelece que partidos não podem ser subordinados a
entidades estrangeiras. A regra foi feita para dificultar a vida dos velhos
partidos comunistas, que tinham vínculos com Moscou ou Pequim.
Deixo para os historiadores debaterem se os
vínculos da direita brasileira contemporânea com Washington são mais fortes ou
mais fracos do que os dos velhos comunistas com suas naves-mães. Imagino que a
resposta varie conforme o momento da Guerra Fria com que se compare o atual
período.
Se o tarifaço fosse de esquerda, o Congresso
Nacional, dominado pela direita porque construímos nossa democracia com a
classe política da ditadura, já teria instaurado CPI para achar culpados. Toda
a bancada mais ou menos progressista perderia o mandato. Novas leis seriam
feitas para combater potenciais focos de infiltração estrangeira nos
sindicatos, nas ONGs, nas universidades públicas. Qualquer sem-teto com um
pedaço de pau na mão seria considerado vanguarda do Exército de Libertação
Popular chinês.
Se o tarifaço fosse de esquerda, os
formadores de opinião que quisessem manter sua reputação de equilibrados,
razoáveis etc. se estapeariam no ar, nas páginas, nas redes, para saber quem
desde sempre denunciou a esquerda com mais entusiasmo.
Os que já tivessem, em algum momento,
defendido qualquer coisa vagamente iluminista e hoje considerada marxismo (voto
feminino, sei lá) fariam um campeonato de autocrítica que faria a revolução
cultural chinesa parecer um sóbrio colóquio acadêmico.
Isso tudo aconteceria se o tarifaço fosse de
esquerda. Mas o tarifaço é de direita. Por isso, não vai acontecer nada.
Mesmo se Flávio Bolsonaro perder para Lula, a turma do
Master e do tarifaço vai eleger a esmagadora maioria dos governadores e a
esmagadora maioria dos congressistas. Ser de direita no Brasil é o maior
barato.
Se o pessoal conseguiu emplacar o discurso
"caso Master afeta
igualmente esquerda e direita", vão acabar dando um jeito de dizer que a
culpa pelo tarifaço tem que ser dividida entre a família Bolsonaro e algum
vizinho esquerdista que os obrigou a se tornarem fascistas porque ficava
ouvindo Chico Buarque no
último volume até tarde da noite.
Se é isso que a direita faz com o
"Brasil acima de tudo", o "Deus acima de todos" que se
cuide.

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