Copa do Mundo sai vitoriosa com diversidade
Por O Globo
Ponto negativo do torneio ocorreu fora de
campo, com Fifa cedendo à pressão de Trump por anulação de cartão
Quando a Fifa anunciou a realização da Copa do Mundo de 2026 com 48 seleções — a maior da História — nos Estados Unidos, Canadá e México, havia dúvidas se o aumento do número de participantes, que levaria a campo equipes de pouca ou nenhuma tradição, funcionaria. Depois de 39 dias e mais de cem partidas em que jogadas antológicas de craques como Lionel Messi, Kylian Mbappé, Lamine Yamal, Harry Kane, entre outros, se misturaram a pisadas de bola do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do comandante da Fifa, Gianni Infantino, parece certo que, ao menos dentro de campo, a maratona do futebol passou no teste.
Antes mesmo do fim de junho, a Copa já havia
quebrado o recorde de público, superando os 3,6 milhões de torcedores da edição
de 1994, também nos Estados Unidos. Nas semifinais, com cem jogos disputados, o
torneio já somava 6,5 milhões de espectadores. Apesar dos preços
estratosféricos dos ingressos, a ocupação das arenas também se mostrou
bem-sucedida (99%, ante 96% em 1994). Sem falar nos bilhões de telespectadores
que acompanharam a competição no mundo inteiro. Essa plateia planetária foi
brindada com a maior média de gols em 56 anos (2,92).
Nem o torcedor mais ranzinza há de negar que
a Copa de 2026 proporcionou partidas emocionantes. Mesmo seleções sem tradição
fizeram bonito. Cabo Verde, representando um país de 560 mil habitantes,
arrebatou uma legião de fãs. A Espanha derrotou a favorita França e passou à
final com um futebol coletivo sedutor. A tricampeã Argentina, a outra
finalista, protagonizou partidas épicas, como as viradas sobre o Egito e a
Inglaterra.
Se dentro do gramado a bola rolou suave, fora
dele o roteiro desandou. Trump, inconformado com o cartão vermelho aplicado
pelo árbitro brasileiro Raphael Claus ao americano Folarin Balogun na partida
entre Estados Unidos e Bósnia e Herzegovina, telefonou para Infantino e pediu
que a punição fosse revista. A suspensão foi prontamente anulada, mas de pouco
adiantou. Mesmo com Balogun, os Estados Unidos foram goleados pela Bélgica.
Infantino alegou que a decisão foi do comitê arbitral. Não explicou por que só
o americano foi beneficiado. Sob apatia da Fifa, o governo dos EUA já tinha
vetado a entrada do somali Omar Abdulkadir Artan, considerado um dos melhores
árbitros da África, e restringido estadias da seleção iraniana no país.
Para a seleção brasileira, a Copa de 2026 não
trará boas recordações. A frustrante derrota por 2 x 1 para a Noruega de Erling
Haaland adiou uma vez mais o sonho do hexa e inaugurou o período de maior jejum
de títulos. Mas é possível tirar lições do fracasso. Está claro que o
improviso, a falta de planejamento, as reviravoltas no comando da CBF
projetaram a derrota muito antes de o Brasil entrar em campo. Os trabalhos
visando 2030 precisam começar desde já, de modo mais profissional. As cenas de
torcedores vibrando com o escrete canarinho em Bangladesh encheram os
brasileiros de orgulho. Mas elas espelham mais o passado que o presente. Tão
importante quanto trazer a sexta estrela é devolver à seleção essa glória que
atravessa fronteiras.
Ensino para jovens e adultos exige mais
empenho das autoridades
Por O Globo
Perto de 64 milhões de brasileiros não
concluíram ensino básico na idade adequada, conclui pesquisa
Quase 64 milhões de brasileiros não
concluíram o ensino básico na idade adequada, ou 37,3% da população com mais de
15 anos, segundo relatório das Fundações Roberto Marinho (FRM), Bradesco,
Itaú Educação e
Trabalho e Arymax, com a cooperação da Unesco. É o equivalente à população da
França ou do Reino Unido. Pior: a Educação de Jovens e Adultos (EJA) só alcança
1,5% do potencial, de acordo com a pesquisa. O resultado mostra que não basta o
país ter alcançado a universalização no acesso às escolas. É preciso manter os
alunos na sala de aula e assegurar que concluam os estudos.
É verdade que a parcela da população sem
ensino fundamental tem caído. Mas isso se deve menos a qualquer política
pública do que a fatores demográficos. Desde 2012, 51% da queda na procura por
EJA se deve à morte de idosos, e apenas 8% à conclusão do programa de ensino. Para
cada aluno que concluiu o ensino básico por meio de EJA, seis morreram sem
terminar o ciclo, concluiu a pesquisa.
Entre 2008 e 2024, os municípios sem turmas
de EJA mais que dobraram, de 493 para 1.092. Das 122.469 escolas que oferecem
ensino básico no Brasil, em apenas 24,6% há turmas para jovens e adultos. “Os
próximos 10 a 15 anos representam a última janela de oportunidade para alcançar
as gerações nascidas entre 1960 e 1980”, afirma o relatório.
É urgente definir um plano de ação que atraia
de volta à escola o máximo possível de jovens e adultos que abandonaram a sala
de aula. Para isso, será necessário aumentar a relevância do EJA na
distribuição dos recursos públicos destinados à educação. Em 2023, o governo
interrompeu um longo período de 16 anos em que o EJA esteve relegado a plano
inferior pelo Fundeb, o fundo dedicado ao ensino básico.
Os três níveis de governo encaram a questão
como resposta às dificuldades de crescimento econômico. É consenso entre os
economistas a associação entre educação e geração de riqueza. Nos países
desenvolvidos, a renda é maior porque existe uma população mais instruída capaz
de gerá-la. O estudo estima que, em razão do abandono precoce do estudo, houve
perda de R$ 66 bilhões em renda anual. Caso metade dos 64 milhões que não
concluíram o ensino básico tivesse se formado, haveria um aumento potencial do
PIB de 0,6%, segundo a pesquisa.
São grandes as dificuldades para que jovens e adultos retornem à escola, e os próprios pesquisadores reconhecem isso. O principal motivo é a necessidade de trabalhar. Mas isso não redime governos da negligência com o ensino para essa parcela da população. O último material didático voltado ao EJA foi distribuído em 2014, sinal de que, apesar da necessidade eloquente, a questão não ocupa lugar de destaque nos planos de gestores educacionais. É preciso fazer mais.
Guerra no Irã se agrava e ameaça economia
global
Por Folha de S. Paulo
Conflito mal conduzido por Trump deixa fase
de latência e se aproxima de embate mais aberto
Com o bloqueio naval dos Estados Unidos,
mercado de energia reage negativamente; as reservas globais de óleo estão
acabando
No espaço de pouco mais de uma semana, a
guerra de Donald Trump no Irã agravou-se
de forma dramática, ameaçando escalar novamente a um conflito aberto e
destrutivo.
No dia 8 deste mês, o presidente
americano teve de dar
por encerrado o acordo que havia assinado em 17 de junho com o
regime teocrático, que previa trégua de dois meses para a definição de uma paz
duradoura.
O arranjo era uma lista de concessões aos
iranianos, que ainda assim não acreditaram na palavra de Trump. Em vez de
deixar aberto o estreito de
Hormuz, como previa a minuta, o Irã trabalhou para reforçar seu
controle sobre o tráfego marítimo na região.
Atingiu petroleiros de aliados dos EUA,
levando Trump a retomar bombardeios. Ele o fez inicialmente de forma contida,
focando alvos militares, mas Teerã passou a atacar instalações americanas no
golfo Pérsico.
Como não mirou Israel,
parecia estabelecido um padrão de conflito moderado e contínuo. A situação,
entretanto, começou a sair de controle.
Sem conseguir dobrar a teocracia, Trump
decidiu, na segunda (13), bloquear portos iranianos no estreito, que antes da
guerra dava passagem a 20% do petróleo e
do gás natural do planeta.
Além disso, o republicano anunciou que iria
cobrar 20% de pedágio sobre cargas de navios transitando por Hormuz, em troca
de garantir sua navegação. Era uma
balela, porque os EUA não têm esse poder hoje e criticavam a ideia
do Irã de fazer o mesmo.
Fiel ao caráter invertebrado de suas
decisões, Trump disse depois que trocaria a taxa por acordos comerciais tão
incríveis quanto inexistentes com países do golfo. O bloqueio, porém, foi
efetivado, a violência recrudesceu e as hostilidades entre as forças apoiadas
pela Arábia
Saudita e os rebeldes houthis pró-Irã foram retomadas no Iêmen.
A carta dos aiatolás é fechar o estreito que conecta
o mar Vermelho ao oceano Índico, afetando a rota alternativa de exportação do
petróleo saudita.
Com isso, empresas e analistas temem
uma disparada do preço do petróleo, que passou dos US$ 100 por
barril em contratos futuros durante a fase aberta da guerra. Após a trégua,
havia caído para cerca de US$ 70 e fechou a semana ao redor de US$ 85.
Diferentemente daquele momento, as reservas
globais de óleo estão acabando. A Agência Internacional de Energia diz que só
há 100 milhões de barris disponíveis ao mercado, um quarto do total no começo
do conflito.
A isso soma-se a situação da Rússia, que
interrompeu a exportação de óleo diesel devido a ataques ucranianos a suas
refinarias, o que afeta economias como as do Brasil e da Turquia.
Dada a inflexibilidade dos iranianos, mesmo
com o instrumento do embargo, Trump terá de fazer concessões se quiser reverter
o curso desastroso de sua guerra —e talvez salvar cadeiras que poderá perder
nas eleições legislativas de novembro.
Mundo avança na garantia à morte digna
Por Folha de S. Paulo
Parlamento francês autoriza eutanásia;15
países permitem o procedimento ou o suicídio assistido
Congresso brasileiro se recusa a debater o
tema, que é inerente à liberdade individual; outros países enfrentaram forte
oposição religiosa
Na última quarta-feira (15), a Assembleia
Nacional da França aprovou
um projeto que autoriza tanto o suicídio assistido (o paciente recebe
orientações médicas para pôr fim à própria vida) quanto a eutanásia (a morte é
conduzida por médico ou outro profissional de saúde) —nesse caso, apenas quando
o paciente não tiver capacidade física de realizar o ato.
O texto ainda
será avaliado pelo Conselho Constitucional, órgão independente
análogo ao Supremo Tribunal Federal no Brasil, e, se for considerado que a
norma não infringe a Carta do país, seguirá para a sanção do presidente Emmanuel
Macron, que apoia o projeto parlamentar.
Assim, a França está a caminho de se juntar
aos 15 países que permitem ao menos uma das modalidades de morte assistida,
como Suíça, Espanha, Uruguai e Colômbia —incluindo
EUA e Austrália, onde a autorização não é federal.
Mas o reconhecimento formal de um direito nem
sempre significa acesso a ele. A saga da
colombiana Catalina Giraldo, que foi submetida à eutanásia neste
mês, ilustra essa tensão.
Em 1997, a Colômbia foi um dos países
pioneiros no reconhecimento da eutanásia como um direito. A iniciativa não veio
do Legislativo, mas da Corte Constitucional. Em 2015, por ordem dela, o
Ministério da Saúde regulamentou a matéria. Já em 2021, o Judiciário ampliou o
direito: a situação terminal dos pacientes deixou de ser exigida, bastando
lesão ou doença incurável que gere intenso sofrimento.
Em 2022, a Justiça entendeu que o suicídio
assistido também deveria ser descriminalizado. E aí entra Giraldo. Ela sofria
de depressão e transtorno de ansiedade refratários a tratamento e julgava sua
dor psíquica intolerável. Em 2025, solicitou a eutanásia, mas depois alterou o
pedido para suicídio assistido. Foi aí que o labirinto da burocracia atacou.
Como o suicídio assistido não está
regulamentado, houve recusas de prestadores de serviços médicos e de instâncias
judiciais. A Corte Constitucional aceitou revisar o caso, mas Giraldo optou
pela eutanásia. O processo continua em tramitação após sua morte e deverá
resultar na regulamentação do suicídio assistido.
No Brasil, em contraste com o avanço global, o Congresso se recusa a debater o tema. Mas a forte oposição ideológica e religiosa não é justificativa, já que outros países a enfrentaram. Considerando os princípios das liberdades individuais e da dignidade humana, pacientes que buscam pôr fim a um sofrimento crônico insuportável deveriam ter direito de optar pela morte assistida.
Autonomia tecnológica sem ilusões
Por O Estado de S. Paulo
O Brasil tem um desafio de formular uma
estratégia nacional para infraestrutura digital sem cair nem na dependência das
potências tecnológicas nem em fantasias autárquicas
A geopolítica do século 21 passou a incluir
ativos que, até há pouco, pertenciam ao vocabulário dos engenheiros: cabos
submarinos, data centers, semicondutores, inteligência artificial (IA). Como
observou o ex-embaixador Rubens Barbosa em artigo neste jornal (Geopolítica da infraestrutura digital,
14/7, A5), as disputas pelo poder já ocorrem nessas camadas invisíveis da
economia digital. O diagnóstico suscita a pergunta: que estratégia faz sentido
para um país de nossas características?
Durante décadas, a política econômica
brasileira oscilou entre dois impulsos. Em raros momentos, despontou a
convicção de que bastava abrir mercados e importar tecnologia. Em geral,
prevaleceu a crença de que a autonomia exigiria produzir tudo internamente.
Nenhuma dessas opções responde aos desafios da economia digital. Considere-se a
cadeia de semicondutores. O projeto de um chip, os insumos e equipamentos e sua
fabricação distribuem-se por países diferentes. Nem mesmo Estados Unidos,
China, Japão ou União Europeia dominam integralmente esse processo. Imaginar
que o Brasil possa fazê-lo seria desperdiçar recursos escassos perseguindo um
objetivo inalcançável.
É preciso compreender a interdependência sem
se resignar à dependência. O problema não está em recorrer a fornecedores
estrangeiros, mas em permitir que uma única empresa, uma única tecnologia ou
uma única jurisdição possam interromper serviços essenciais ou limitar decisões
do Estado brasileiro. A autonomia tecnológica começa onde termina essa
vulnerabilidade.
A computação em nuvem ilustra a distinção.
Hospedar dados em território nacional pode ser conveniente, mas pouco adianta
se o funcionamento do sistema continuar condicionado ao software, às regras
contratuais ou às decisões de um fornecedor que não pode ser substituído. A
questão decisiva é se o País preserva condições de migrar sistemas,
diversificar parceiros e manter operações críticas em circunstâncias adversas.
Essa capacidade de escolha vale mais, do ponto de vista estratégico, do que
qualquer discurso genérico sobre “soberania digital”.
O Pix mostrou que o Estado brasileiro pode
construir uma infraestrutura pública capaz de estimular competição, inovação e
investimento privado em vez de sufocá-los. O avanço do governo digital, uma
matriz elétrica limpa, um grande mercado consumidor, instituições respeitadas
na governança da internet e recursos minerais estratégicos oferecem bases para
uma política consistente. Poucos países reúnem esse conjunto de ativos.
O País acumula planos para cibersegurança,
data centers, cabos submarinos, semicondutores e IA. Falta, porém, uma doutrina
comum que responda às perguntas fundamentais: quais capacidades precisam
permanecer sob controle nacional? Em quais segmentos vale a pena investir? O
que continuará sendo adquirido no exterior? Como reduzir vulnerabilidades sem
sacrificar eficiência?
Sem essas escolhas, a palavra “soberania”
corre o risco de servir como justificativa para velhos vícios nacionais:
subsídios permanentes, reservas de mercado, proteção de empresas pouco
competitivas e projetos concebidos mais para manchetes do que resultados.
Políticas industriais podem ampliar capacidades, mas, quando não submetem
incentivos a metas, avaliação e concorrência, só perpetuam ineficiências.
Uma estratégia madura concentraria recursos
num conjunto restrito de infraestruturas realmente críticas, desenvolveria
competências nas áreas em que o Brasil possui vantagens plausíveis,
diversificaria fornecedores, exigiria interoperabilidade dos sistemas,
preservaria abertura comercial e avaliaria cada política por resultados
concretos, não por intenções declaradas. A autonomia tecnológica nasce desse
equilíbrio entre capacidade doméstica e integração internacional.
A governança da economia digital será
exercida por países que disponham de alternativas, conhecimento e capacidade de
negociação. O Brasil não conquistará influência tentando reproduzir, dentro de
suas fronteiras, toda a complexidade das cadeias globais. Tampouco a obterá
permanecendo dependente de decisões tomadas em outras capitais. O desafio
consiste em ampliar sua liberdade de escolha. É uma ambição menos grandiosa do
que a autossuficiência, mas infinitamente mais útil – e muito mais compatível
com os interesses do País.
Trump anuncia que vai bagunçar as eleições
Por O Estado de S. Paulo
A poucos meses das eleições de meio de
mandato, quando pode perder maioria no Congresso, Trump volta a falar em fraude
sem apresentar provas, repetindo cantilena golpista de 2020
O presidente dos EUA, Donald Trump, está com
medo de perder a maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato, em
novembro, e, assim, ver-se alvo de mais um processo de impeachment – desta vez
com chances reais de prosperar no Senado. Isso explica o seu infame
pronunciamento na quinta-feira passada, quando foi à TV em horário nobre para
reafirmar, sem provas, que sua derrota para Joe Biden em 2020 foi “fraudada ou
roubada”. Eis a base da confusão que Trump arma para as chamadas midterms.
O inimigo imaginário da vez é a China. Trump
acusou Pequim de ter “roubado” dados de 220 milhões de eleitores. Como a
realidade factual não tem relevância para golpistas, de nada valem as
conclusões de dezenas de ações judiciais que Trump e seus aliados moveram para
reverter a vitória de Biden sob a alegação de fraude. Tampouco as recontagens,
as auditorias e a investigação do próprio Departamento de Justiça, que jamais
chegaram a uma prova sequer de que houve fraude na eleição de 2020.
Não é a primeira vez que Trump tenta corroer
a legitimidade de um processo eleitoral que, antes dele, nunca foi questionado
a sério nos EUA. Novidade, se há, é o momento: falta pouco para as eleições que
renovarão o Congresso. E, exclusivamente por seus deméritos, Trump corre sério
risco de perder o apoio que sustenta seus desatinos no Capitólio. Nesse
sentido, seu discurso não foi um alerta, foi um ardil para semear dúvidas
antecipadas sobre o resultado das midterms,
caso seja desfavorável ao Partido Republicano.
Grave por si só, o discurso golpista de Trump
vem acompanhado de um esforço concreto de seu governo para alterar as regras do
jogo antes mesmo de a eleição ocorrer. Recorde-se que dez Estados já mudaram ou
estão mudando as fronteiras de seus distritos eleitorais, prática conhecida
como redistricting.
Trump pressionou aliados em Estados republicanos a redesenhar os mapas para
ampliar as chances do partido em distritos disputados. Com a manobra, a Casa
Branca estima ter de oito a dez cadeiras adicionais para os republicanos, o que
seria suficiente para blindar a estreita maioria pró-Trump na Câmara, hoje com
218 assentos.
O governo também pressiona o Congresso a
aprovar o Save America Act, que exige prova documental de cidadania para o registro
eleitoral e dificulta o voto por correspondência. Ademais, comissários da
Comissão de Assistência Eleitoral (EAC, na sigla em inglês) foram destituídos,
deixando o órgão bipartidário sem quórum para certificar novos sistemas de
votação. Como se nada disso bastasse, Trump, em pessoa, segue atuando como uma
espécie de bedel ideológico do Partido Republicano nas primárias, infernizando
a vida de qualquer candidato que não lhe preste vassalagem.
Outra medida que diz muito sobre as más
intenções de Trump foi a confirmação de que os republicanos realizarão uma
convenção nacional especial de meio de mandato, no Texas. A praxe de convenções
nacionais apenas em ano de eleição presidencial foi rompida para que Trump
possa influenciar diretamente as escolhas de seu partido em distritos nos quais
a disputa está mais acirrada.
Esse rol de medidas, somado ao discurso
presidencial que reedita teorias da conspiração envolvendo a eleição de 2020,
obedece ao padrão do neopopulismo inaugurado por Trump. O presidente dos EUA,
sendo quem é, não precisa provar fraude alguma, basta semear a dúvida para
deslegitimar as eleições caso, de fato, perca o controle do Congresso em
novembro. É sintomático que emissoras como ABC, NBC e CNN tenham hesitado em
transmitir o pronunciamento, o que levou Trump a ameaçar com a cassação de suas
licenças, um ataque frontal à liberdade de imprensa que só atesta seu vezo
autoritário.
Não sem sobressaltos, a democracia americana
tem sobrevivido a Trump, mas será testada novamente. Em novembro, o mundo verá
se as instituições e o eleitorado dos EUA resistirão a um presidente que faz o
que pode e o que não pode para reescrever as regras do jogo quando se dá conta
de que pode perder a partida.
Choque de realidade
Por O Estado de S. Paulo
Experiências municipais comprovam que tarifa
gratuita, além de custosa, sucateia o transporte
Em agosto de 2025, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, fiel a seu cacoete populista, encomendou ao Ministério da
Fazenda um estudo para viabilizar a adoção da tarifa gratuita de transporte em
todo o Brasil. Tal estudo é desnecessário. Como demonstram as experiências de
municípios que adotaram a gratuidade no transporte, a tarifa zero universal, em
vez de ser solução, é causa de problemas.
Por isso mesmo, o ritmo de adoção da tarifa
gratuita vem perdendo força País afora. Dados da Associação Nacional das
Empresas de Transportes Urbanos (NTU) mostram que, no último ano, apenas 16
municípios adotaram a política, enquanto no auge desse movimento, entre 2021 e
2023, foram 70.
Ao todo, 143 municípios brasileiros oferecem
a tarifa zero, mas, segundo a NTU, a política de gratuidade já foi revogada em
oito deles, entre os quais três apenas em 2025: Monte Mor (SP), Picos (PI) e
Ubiratã (PR).
São Caetano do Sul (SP), um dos 14 municípios
do país com mais de 100 mil habitantes que oferecem tarifa zero atualmente, acaba
de restringir o alcance da política que adotou no final de 2023. Agora a
gratuidade é limitada aos moradores da cidade e a grupos específicos, como
pacientes em tratamento de câncer. A tarifa zero fez explodir a demanda por
transporte público na cidade, que passou a transportar 80 mil passageiros
diários – eram 20 mil antes de gratuidade.
Ainda que concebida para melhorar a vida da
população, a medida acabou produzindo o efeito contrário em um município até
então conhecido por ter um dos maiores IDHs do Brasil. Ônibus cada vez mais
lotados enfureceram os usuários.
O sucateamento é apenas um dos problemas da
adoção da tarifa zero. O custo, obviamente, é o maior deles. Com exceção de
municípios como Maricá (RJ), que pode financiar a gratuidade universal com os
royalties da produção de petróleo, “não é fácil colocar essa política em
prática na maioria dos municípios brasileiros”, afirma o diretor da FGV
Transportes, Marcus Quintella.
Mesmo em municípios como São Paulo, que
oferecem a gratuidade apenas aos domingos, o custo da tarifa zero é
substancial. Com uma renúncia fiscal estimada em R$ 280 milhões por ano, a
tarifa zero elevou a demanda por ônibus na capital paulista em algo entre 20% e
30%.
Tanto nos domingos quanto nos dias em que a
gratuidade não vale, porém, os paulistanos queixam-se da falta de linhas e de
periodicidade adequada dos ônibus. É assim em todo o País, prova de que os
recursos que financiam a tarifa zero poderiam ser empregados em outras
prioridades.
Além de não resolver os problemas que mais
afligem a população, como a inexistência de itinerários, a tarifa zero também
tende a beneficiar quem já conta com linhas regulares, enquanto nada faz pelos
milhões de brasileiros, pobres em sua grande maioria, que nem sequer têm acesso
a um ponto de ônibus perto de suas casas.
Em vez de insistir na aventura eleitoreira da tarifa universal gratuita, o governo federal faria melhor se não se metesse em uma questão dos municípios e com a qual eles próprios estão aprendendo a lidar de modo mais pragmático.
As pendências do Congresso
Por Correio Braziliense
Deputados e senadores encerraram o semestre
legislativo sem avançar na aprovação de propostas relevantes
O Congresso Nacional entrou em recesso com
diversos assuntos pendentes de interesse da sociedade brasileira. Deputados e
senadores encerraram o semestre legislativo sem avançar na aprovação de
propostas relevantes, como o fim da escala 6x1, o projeto de lei sobre
misoginia, a PEC da Segurança e a regulamentação do uso de inteligência artificial
no país. Com a proximidade das eleições, é pouco provável que esses temas
voltem à baila, ampliando o distanciamento entre os representantes do
Parlamento e os eleitores.
A fim de compensar a baixa produtividade no
Legislativo, o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, anunciou um esforço
concentrado em agosto. Segundo a vontade do senador, as duas Casas votariam
matérias importantes em dias específicos. A primeira etapa do regime de
deliberação expressa ocorreria de 10 a 14 de agosto. E a segunda, de 31 de
agosto a 3 de setembro. Na ponta do lápis, estamos a falar de nove dias de
trabalho presencial.
Uma análise rápida da situação de algumas das
proposições indica que o tal esforço concentrado corre o risco de reproduzir
uma prática frequente no Legislativo: a ausência de debates aprofundados na
elaboração das leis. O próprio Davi Alcolumbre manifestou essa preocupação em
relação ao fim da escala 6x1, ainda em junho. De lá para cá, passaram-se mais
de 50 dias da aprovação da matéria pelos deputados, e o texto sequer foi
encaminhado à Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
Se voltar ao debate em agosto, a proposta
virá acompanhada de muita pressão. Enquanto os governistas ameaçam alcunhar
Alcolumbre de "inimigo do trabalhador" se dificultar a tramitação do
texto, o setor produtivo insiste em um debate mais aprofundado para evitar
danos econômicos, inclusive com prejuízos ao trabalhador.
Há uma concentração de outros assuntos no
Senado. A PEC da Segurança, por exemplo, foi aprovada em março na Câmara, mas
segue parada na Casa revisora. O texto propõe mudanças nas atribuições da
União, dos estados e dos municípios, a fim de estruturar um Sistema Único de
Segurança Pública (Susp) nos moldes do SUS. Em plena campanha eleitoral e com
ao menos dois pré-candidatos à Presidência da República com discursos
fortemente voltados para a segurança pública — Flávio Bolsonaro e Ronaldo
Caiado —, são remotas as possibilidades de deputados e senadores entrarem nessa
seara durante o esforço concentrado.
Na Câmara, o projeto de lei sobre misoginia
tinha uma expectativa de ser votado no fim de junho. Mas a falta de consenso
impediu a proposta de avançar. Um dos obstáculos é a resistência de partidos da
direita em tipificar o crime de misoginia. Esse debate tende a se tornar mais
difícil no período eleitoral, especialmente quando duas mulheres de evidência
no mundo político — Michelle Bolsonaro e a primeira-dama Janja da Silva —
alegam serem alvo de ataques misóginos. Em um Congresso predominantemente
masculino e conservador, pergunta-se como essa proposta poderá ficar a contento
das vítimas.
Se há poucas razões para crer em um trabalho
consistente no próximo semestre legislativo, convém ressaltar outros episódios
que notabilizaram a atuação dos parlamentares nos últimos meses, sem benefícios
para a sociedade. A CPMI do INSS e a CPI do Crime Organizado terminaram sem
aprovação do relatório final, em um resultado frustrante para quem aguardava
alguma medida relevante contra a ação de grupos criminosos. A CPI do Master
ficou apenas na vontade de alguns, em meio ao envolvimento de senadores da
direita e da esquerda com as conexões de Daniel Vorcaro. Por fim, a rejeição ao
nome de Jorge Messias para o STF ganhou as manchetes, em uma das várias
desavenças entre o senador Davi Alcolumbre e o presidente Lula. Na prática, o STF
está há mais de 10 meses com um magistrado a menos, com todas as implicações
que esse desfalque provoca.
Em meio a tantas questões pendentes, o Congresso quer convencer o país de que vai trabalhar firme durante nove dias em plena temporada eleitoral. Só os inocentes acreditam.
Chega ao fim a maior Copa da história
Por O Povo (CE)
Em uma reunião do
Grupo de Estudos Técnicos da Fifa, foram apresentados dados acerca da Copa de
2026, que foi avaliada como um torneio bem-sucedido
A Copa do Mundo 2026, que chega ao fim neste
domingo, foi a 23ª edição do torneio da Fifa. Foi a primeira realizada com 48
equipes e a primeira em três países-sedes: Canadá, Estados Unidos e México. É,
sem dúvidas, a maior Copa de todos os tempos. Uma série de novas experiências e
novas regras foi colocada em prática, e alguns pontos também que precisam ser
resolvidos. A final, neste domingo, 19/7, será celebrada com duas seleções
consideradas fortes - Espanha e Argentina - no MetLife Stadium, em East
Rutherford, nos Estados Unidos.
Em uma reunião do Grupo de Estudos Técnicos
da Fifa, foram apresentados dados acerca da Copa de 2026, que foi avaliada como
um torneio bem-sucedido. Esse grupo é composto por ex-jogadores e treinadores.
Algumas das novas regras, como reversão de
tiro de meta em escanteio ou "suspensão" de um minuto para
atendimentos médicos que interrompem a partida, tiveram seus efeitos discutidos
na reunião do mencionado grupo. A média de atendimentos médicos aos jogadores
teve uma queda um terço. No Mundial de 2022, foi registrado o dado de 2,3 por
jogo. Neste Mundial de 2026, o número foi de 1,6 por jogo - sem serem
considerados os jogos da decisão pelo terceiro lugar (na noite de sábado) e a
final (deste domingo).
Ou seja, algumas das conclusões do Grupo de Estudos Técnicos da Fifa é que a conhecida "cera" no futebol diminuiu pela metade nas cobranças de tiros de meta a partir das novas regras. Entendeu-se que os goleiros estão sendo mais ousados e times que jogam com dois "atacantes" pelo corredor central e linhas baixas estão se tornando uma tendência. Além disso, o tempo médio na cobrança de tiros de meta caiu de 30 segundos para 12 segundos entre os Mundiais de 2022 e de 2026.
O grupo de estudos da Fifa mostrou um mapa de
calor que expôs como as equipes mudaram a forma de pressionar sem a bola. A
tendência na Copa do Catar era de que um atacante tentasse incomodar a saída da
defesa do adversário. Na Copa de 2026, foi mais comum que dois jogadores
exercitassem essa pressão.
Uma das principais polêmicas de 2026, as
pausas de hidratação, não foi analisada pelo Grupo. Não foram apresentados
dados de mudança com a técnica, na partida ou na recepção do torcedor. O que se
sabe, pelos comentários gerais, é que a ação parece não ter agradado ao
público, pelo tempo de espera para a volta da partida e pela quebra de ritmo
dos jogadores.
É preciso ressaltar a frustração com o resultado da Seleção Brasileira, eliminada ainda nas oitavas de final para a Noruega. Faz-se urgente uma reestruturação para o novo ciclo até 2030 com renovação de jogadores, estratégias que deem efeitos positivos em campo e mudanças na comissão técnica. O pentacampeonato do Brasil ocorreu em 2002. Desde então, não houve títulos em Copa a celebrar no País.

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