domingo, 19 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Copa do Mundo sai vitoriosa com diversidade

Por O Globo

Ponto negativo do torneio ocorreu fora de campo, com Fifa cedendo à pressão de Trump por anulação de cartão

Quando a Fifa anunciou a realização da Copa do Mundo de 2026 com 48 seleções — a maior da História — nos Estados Unidos, Canadá e México, havia dúvidas se o aumento do número de participantes, que levaria a campo equipes de pouca ou nenhuma tradição, funcionaria. Depois de 39 dias e mais de cem partidas em que jogadas antológicas de craques como Lionel Messi, Kylian Mbappé, Lamine Yamal, Harry Kane, entre outros, se misturaram a pisadas de bola do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do comandante da Fifa, Gianni Infantino, parece certo que, ao menos dentro de campo, a maratona do futebol passou no teste.

Antes mesmo do fim de junho, a Copa já havia quebrado o recorde de público, superando os 3,6 milhões de torcedores da edição de 1994, também nos Estados Unidos. Nas semifinais, com cem jogos disputados, o torneio já somava 6,5 milhões de espectadores. Apesar dos preços estratosféricos dos ingressos, a ocupação das arenas também se mostrou bem-sucedida (99%, ante 96% em 1994). Sem falar nos bilhões de telespectadores que acompanharam a competição no mundo inteiro. Essa plateia planetária foi brindada com a maior média de gols em 56 anos (2,92).

Nem o torcedor mais ranzinza há de negar que a Copa de 2026 proporcionou partidas emocionantes. Mesmo seleções sem tradição fizeram bonito. Cabo Verde, representando um país de 560 mil habitantes, arrebatou uma legião de fãs. A Espanha derrotou a favorita França e passou à final com um futebol coletivo sedutor. A tricampeã Argentina, a outra finalista, protagonizou partidas épicas, como as viradas sobre o Egito e a Inglaterra.

Se dentro do gramado a bola rolou suave, fora dele o roteiro desandou. Trump, inconformado com o cartão vermelho aplicado pelo árbitro brasileiro Raphael Claus ao americano Folarin Balogun na partida entre Estados Unidos e Bósnia e Herzegovina, telefonou para Infantino e pediu que a punição fosse revista. A suspensão foi prontamente anulada, mas de pouco adiantou. Mesmo com Balogun, os Estados Unidos foram goleados pela Bélgica. Infantino alegou que a decisão foi do comitê arbitral. Não explicou por que só o americano foi beneficiado. Sob apatia da Fifa, o governo dos EUA já tinha vetado a entrada do somali Omar Abdulkadir Artan, considerado um dos melhores árbitros da África, e restringido estadias da seleção iraniana no país.

Para a seleção brasileira, a Copa de 2026 não trará boas recordações. A frustrante derrota por 2 x 1 para a Noruega de Erling Haaland adiou uma vez mais o sonho do hexa e inaugurou o período de maior jejum de títulos. Mas é possível tirar lições do fracasso. Está claro que o improviso, a falta de planejamento, as reviravoltas no comando da CBF projetaram a derrota muito antes de o Brasil entrar em campo. Os trabalhos visando 2030 precisam começar desde já, de modo mais profissional. As cenas de torcedores vibrando com o escrete canarinho em Bangladesh encheram os brasileiros de orgulho. Mas elas espelham mais o passado que o presente. Tão importante quanto trazer a sexta estrela é devolver à seleção essa glória que atravessa fronteiras.

Ensino para jovens e adultos exige mais empenho das autoridades

Por O Globo

Perto de 64 milhões de brasileiros não concluíram ensino básico na idade adequada, conclui pesquisa

Quase 64 milhões de brasileiros não concluíram o ensino básico na idade adequada, ou 37,3% da população com mais de 15 anos, segundo relatório das Fundações Roberto Marinho (FRM), Bradesco, Itaú Educação e Trabalho e Arymax, com a cooperação da Unesco. É o equivalente à população da França ou do Reino Unido. Pior: a Educação de Jovens e Adultos (EJA) só alcança 1,5% do potencial, de acordo com a pesquisa. O resultado mostra que não basta o país ter alcançado a universalização no acesso às escolas. É preciso manter os alunos na sala de aula e assegurar que concluam os estudos.

É verdade que a parcela da população sem ensino fundamental tem caído. Mas isso se deve menos a qualquer política pública do que a fatores demográficos. Desde 2012, 51% da queda na procura por EJA se deve à morte de idosos, e apenas 8% à conclusão do programa de ensino. Para cada aluno que concluiu o ensino básico por meio de EJA, seis morreram sem terminar o ciclo, concluiu a pesquisa.

Entre 2008 e 2024, os municípios sem turmas de EJA mais que dobraram, de 493 para 1.092. Das 122.469 escolas que oferecem ensino básico no Brasil, em apenas 24,6% há turmas para jovens e adultos. “Os próximos 10 a 15 anos representam a última janela de oportunidade para alcançar as gerações nascidas entre 1960 e 1980”, afirma o relatório.

É urgente definir um plano de ação que atraia de volta à escola o máximo possível de jovens e adultos que abandonaram a sala de aula. Para isso, será necessário aumentar a relevância do EJA na distribuição dos recursos públicos destinados à educação. Em 2023, o governo interrompeu um longo período de 16 anos em que o EJA esteve relegado a plano inferior pelo Fundeb, o fundo dedicado ao ensino básico.

Os três níveis de governo encaram a questão como resposta às dificuldades de crescimento econômico. É consenso entre os economistas a associação entre educação e geração de riqueza. Nos países desenvolvidos, a renda é maior porque existe uma população mais instruída capaz de gerá-la. O estudo estima que, em razão do abandono precoce do estudo, houve perda de R$ 66 bilhões em renda anual. Caso metade dos 64 milhões que não concluíram o ensino básico tivesse se formado, haveria um aumento potencial do PIB de 0,6%, segundo a pesquisa.

São grandes as dificuldades para que jovens e adultos retornem à escola, e os próprios pesquisadores reconhecem isso. O principal motivo é a necessidade de trabalhar. Mas isso não redime governos da negligência com o ensino para essa parcela da população. O último material didático voltado ao EJA foi distribuído em 2014, sinal de que, apesar da necessidade eloquente, a questão não ocupa lugar de destaque nos planos de gestores educacionais. É preciso fazer mais.

Guerra no Irã se agrava e ameaça economia global

Por Folha de S. Paulo

Conflito mal conduzido por Trump deixa fase de latência e se aproxima de embate mais aberto

Com o bloqueio naval dos Estados Unidos, mercado de energia reage negativamente; as reservas globais de óleo estão acabando

No espaço de pouco mais de uma semana, a guerra de Donald Trump no Irã agravou-se de forma dramática, ameaçando escalar novamente a um conflito aberto e destrutivo.

No dia 8 deste mês, o presidente americano teve de dar por encerrado o acordo que havia assinado em 17 de junho com o regime teocrático, que previa trégua de dois meses para a definição de uma paz duradoura.

O arranjo era uma lista de concessões aos iranianos, que ainda assim não acreditaram na palavra de Trump. Em vez de deixar aberto o estreito de Hormuz, como previa a minuta, o Irã trabalhou para reforçar seu controle sobre o tráfego marítimo na região.

Atingiu petroleiros de aliados dos EUA, levando Trump a retomar bombardeios. Ele o fez inicialmente de forma contida, focando alvos militares, mas Teerã passou a atacar instalações americanas no golfo Pérsico.

Como não mirou Israel, parecia estabelecido um padrão de conflito moderado e contínuo. A situação, entretanto, começou a sair de controle.

Sem conseguir dobrar a teocracia, Trump decidiu, na segunda (13), bloquear portos iranianos no estreito, que antes da guerra dava passagem a 20% do petróleo e do gás natural do planeta.

Além disso, o republicano anunciou que iria cobrar 20% de pedágio sobre cargas de navios transitando por Hormuz, em troca de garantir sua navegação. Era uma balela, porque os EUA não têm esse poder hoje e criticavam a ideia do Irã de fazer o mesmo.

Fiel ao caráter invertebrado de suas decisões, Trump disse depois que trocaria a taxa por acordos comerciais tão incríveis quanto inexistentes com países do golfo. O bloqueio, porém, foi efetivado, a violência recrudesceu e as hostilidades entre as forças apoiadas pela Arábia Saudita e os rebeldes houthis pró-Irã foram retomadas no Iêmen.

A carta dos aiatolás é fechar o estreito que conecta o mar Vermelho ao oceano Índico, afetando a rota alternativa de exportação do petróleo saudita.

Com isso, empresas e analistas temem uma disparada do preço do petróleo, que passou dos US$ 100 por barril em contratos futuros durante a fase aberta da guerra. Após a trégua, havia caído para cerca de US$ 70 e fechou a semana ao redor de US$ 85.

Diferentemente daquele momento, as reservas globais de óleo estão acabando. A Agência Internacional de Energia diz que só há 100 milhões de barris disponíveis ao mercado, um quarto do total no começo do conflito.

A isso soma-se a situação da Rússia, que interrompeu a exportação de óleo diesel devido a ataques ucranianos a suas refinarias, o que afeta economias como as do Brasil e da Turquia.

Dada a inflexibilidade dos iranianos, mesmo com o instrumento do embargo, Trump terá de fazer concessões se quiser reverter o curso desastroso de sua guerra —e talvez salvar cadeiras que poderá perder nas eleições legislativas de novembro.

Mundo avança na garantia à morte digna

Por Folha de S. Paulo

Parlamento francês autoriza eutanásia;15 países permitem o procedimento ou o suicídio assistido

Congresso brasileiro se recusa a debater o tema, que é inerente à liberdade individual; outros países enfrentaram forte oposição religiosa

Na última quarta-feira (15), a Assembleia Nacional da França aprovou um projeto que autoriza tanto o suicídio assistido (o paciente recebe orientações médicas para pôr fim à própria vida) quanto a eutanásia (a morte é conduzida por médico ou outro profissional de saúde) —nesse caso, apenas quando o paciente não tiver capacidade física de realizar o ato.

O texto ainda será avaliado pelo Conselho Constitucional, órgão independente análogo ao Supremo Tribunal Federal no Brasil, e, se for considerado que a norma não infringe a Carta do país, seguirá para a sanção do presidente Emmanuel Macron, que apoia o projeto parlamentar.

Assim, a França está a caminho de se juntar aos 15 países que permitem ao menos uma das modalidades de morte assistida, como Suíça, Espanha, Uruguai e Colômbia —incluindo EUA e Austrália, onde a autorização não é federal.

Mas o reconhecimento formal de um direito nem sempre significa acesso a ele. A saga da colombiana Catalina Giraldo, que foi submetida à eutanásia neste mês, ilustra essa tensão.

Em 1997, a Colômbia foi um dos países pioneiros no reconhecimento da eutanásia como um direito. A iniciativa não veio do Legislativo, mas da Corte Constitucional. Em 2015, por ordem dela, o Ministério da Saúde regulamentou a matéria. Já em 2021, o Judiciário ampliou o direito: a situação terminal dos pacientes deixou de ser exigida, bastando lesão ou doença incurável que gere intenso sofrimento.

Em 2022, a Justiça entendeu que o suicídio assistido também deveria ser descriminalizado. E aí entra Giraldo. Ela sofria de depressão e transtorno de ansiedade refratários a tratamento e julgava sua dor psíquica intolerável. Em 2025, solicitou a eutanásia, mas depois alterou o pedido para suicídio assistido. Foi aí que o labirinto da burocracia atacou.

Como o suicídio assistido não está regulamentado, houve recusas de prestadores de serviços médicos e de instâncias judiciais. A Corte Constitucional aceitou revisar o caso, mas Giraldo optou pela eutanásia. O processo continua em tramitação após sua morte e deverá resultar na regulamentação do suicídio assistido.

No Brasil, em contraste com o avanço global, o Congresso se recusa a debater o tema. Mas a forte oposição ideológica e religiosa não é justificativa, já que outros países a enfrentaram. Considerando os princípios das liberdades individuais e da dignidade humana, pacientes que buscam pôr fim a um sofrimento crônico insuportável deveriam ter direito de optar pela morte assistida.

Autonomia tecnológica sem ilusões

Por O Estado de S. Paulo

O Brasil tem um desafio de formular uma estratégia nacional para infraestrutura digital sem cair nem na dependência das potências tecnológicas nem em fantasias autárquicas

A geopolítica do século 21 passou a incluir ativos que, até há pouco, pertenciam ao vocabulário dos engenheiros: cabos submarinos, data centers, semicondutores, inteligência artificial (IA). Como observou o ex-embaixador Rubens Barbosa em artigo neste jornal (Geopolítica da infraestrutura digital, 14/7, A5), as disputas pelo poder já ocorrem nessas camadas invisíveis da economia digital. O diagnóstico suscita a pergunta: que estratégia faz sentido para um país de nossas características?

Durante décadas, a política econômica brasileira oscilou entre dois impulsos. Em raros momentos, despontou a convicção de que bastava abrir mercados e importar tecnologia. Em geral, prevaleceu a crença de que a autonomia exigiria produzir tudo internamente. Nenhuma dessas opções responde aos desafios da economia digital. Considere-se a cadeia de semicondutores. O projeto de um chip, os insumos e equipamentos e sua fabricação distribuem-se por países diferentes. Nem mesmo Estados Unidos, China, Japão ou União Europeia dominam integralmente esse processo. Imaginar que o Brasil possa fazê-lo seria desperdiçar recursos escassos perseguindo um objetivo inalcançável.

É preciso compreender a interdependência sem se resignar à dependência. O problema não está em recorrer a fornecedores estrangeiros, mas em permitir que uma única empresa, uma única tecnologia ou uma única jurisdição possam interromper serviços essenciais ou limitar decisões do Estado brasileiro. A autonomia tecnológica começa onde termina essa vulnerabilidade.

A computação em nuvem ilustra a distinção. Hospedar dados em território nacional pode ser conveniente, mas pouco adianta se o funcionamento do sistema continuar condicionado ao software, às regras contratuais ou às decisões de um fornecedor que não pode ser substituído. A questão decisiva é se o País preserva condições de migrar sistemas, diversificar parceiros e manter operações críticas em circunstâncias adversas. Essa capacidade de escolha vale mais, do ponto de vista estratégico, do que qualquer discurso genérico sobre “soberania digital”.

O Pix mostrou que o Estado brasileiro pode construir uma infraestrutura pública capaz de estimular competição, inovação e investimento privado em vez de sufocá-los. O avanço do governo digital, uma matriz elétrica limpa, um grande mercado consumidor, instituições respeitadas na governança da internet e recursos minerais estratégicos oferecem bases para uma política consistente. Poucos países reúnem esse conjunto de ativos.

O País acumula planos para cibersegurança, data centers, cabos submarinos, semicondutores e IA. Falta, porém, uma doutrina comum que responda às perguntas fundamentais: quais capacidades precisam permanecer sob controle nacional? Em quais segmentos vale a pena investir? O que continuará sendo adquirido no exterior? Como reduzir vulnerabilidades sem sacrificar eficiência?

Sem essas escolhas, a palavra “soberania” corre o risco de servir como justificativa para velhos vícios nacionais: subsídios permanentes, reservas de mercado, proteção de empresas pouco competitivas e projetos concebidos mais para manchetes do que resultados. Políticas industriais podem ampliar capacidades, mas, quando não submetem incentivos a metas, avaliação e concorrência, só perpetuam ineficiências.

Uma estratégia madura concentraria recursos num conjunto restrito de infraestruturas realmente críticas, desenvolveria competências nas áreas em que o Brasil possui vantagens plausíveis, diversificaria fornecedores, exigiria interoperabilidade dos sistemas, preservaria abertura comercial e avaliaria cada política por resultados concretos, não por intenções declaradas. A autonomia tecnológica nasce desse equilíbrio entre capacidade doméstica e integração internacional.

A governança da economia digital será exercida por países que disponham de alternativas, conhecimento e capacidade de negociação. O Brasil não conquistará influência tentando reproduzir, dentro de suas fronteiras, toda a complexidade das cadeias globais. Tampouco a obterá permanecendo dependente de decisões tomadas em outras capitais. O desafio consiste em ampliar sua liberdade de escolha. É uma ambição menos grandiosa do que a autossuficiência, mas infinitamente mais útil – e muito mais compatível com os interesses do País.

Trump anuncia que vai bagunçar as eleições

Por O Estado de S. Paulo

A poucos meses das eleições de meio de mandato, quando pode perder maioria no Congresso, Trump volta a falar em fraude sem apresentar provas, repetindo cantilena golpista de 2020

O presidente dos EUA, Donald Trump, está com medo de perder a maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato, em novembro, e, assim, ver-se alvo de mais um processo de impeachment – desta vez com chances reais de prosperar no Senado. Isso explica o seu infame pronunciamento na quinta-feira passada, quando foi à TV em horário nobre para reafirmar, sem provas, que sua derrota para Joe Biden em 2020 foi “fraudada ou roubada”. Eis a base da confusão que Trump arma para as chamadas midterms.

O inimigo imaginário da vez é a China. Trump acusou Pequim de ter “roubado” dados de 220 milhões de eleitores. Como a realidade factual não tem relevância para golpistas, de nada valem as conclusões de dezenas de ações judiciais que Trump e seus aliados moveram para reverter a vitória de Biden sob a alegação de fraude. Tampouco as recontagens, as auditorias e a investigação do próprio Departamento de Justiça, que jamais chegaram a uma prova sequer de que houve fraude na eleição de 2020.

Não é a primeira vez que Trump tenta corroer a legitimidade de um processo eleitoral que, antes dele, nunca foi questionado a sério nos EUA. Novidade, se há, é o momento: falta pouco para as eleições que renovarão o Congresso. E, exclusivamente por seus deméritos, Trump corre sério risco de perder o apoio que sustenta seus desatinos no Capitólio. Nesse sentido, seu discurso não foi um alerta, foi um ardil para semear dúvidas antecipadas sobre o resultado das midterms, caso seja desfavorável ao Partido Republicano.

Grave por si só, o discurso golpista de Trump vem acompanhado de um esforço concreto de seu governo para alterar as regras do jogo antes mesmo de a eleição ocorrer. Recorde-se que dez Estados já mudaram ou estão mudando as fronteiras de seus distritos eleitorais, prática conhecida como redistricting. Trump pressionou aliados em Estados republicanos a redesenhar os mapas para ampliar as chances do partido em distritos disputados. Com a manobra, a Casa Branca estima ter de oito a dez cadeiras adicionais para os republicanos, o que seria suficiente para blindar a estreita maioria pró-Trump na Câmara, hoje com 218 assentos.

O governo também pressiona o Congresso a aprovar o Save America Act, que exige prova documental de cidadania para o registro eleitoral e dificulta o voto por correspondência. Ademais, comissários da Comissão de Assistência Eleitoral (EAC, na sigla em inglês) foram destituídos, deixando o órgão bipartidário sem quórum para certificar novos sistemas de votação. Como se nada disso bastasse, Trump, em pessoa, segue atuando como uma espécie de bedel ideológico do Partido Republicano nas primárias, infernizando a vida de qualquer candidato que não lhe preste vassalagem.

Outra medida que diz muito sobre as más intenções de Trump foi a confirmação de que os republicanos realizarão uma convenção nacional especial de meio de mandato, no Texas. A praxe de convenções nacionais apenas em ano de eleição presidencial foi rompida para que Trump possa influenciar diretamente as escolhas de seu partido em distritos nos quais a disputa está mais acirrada.

Esse rol de medidas, somado ao discurso presidencial que reedita teorias da conspiração envolvendo a eleição de 2020, obedece ao padrão do neopopulismo inaugurado por Trump. O presidente dos EUA, sendo quem é, não precisa provar fraude alguma, basta semear a dúvida para deslegitimar as eleições caso, de fato, perca o controle do Congresso em novembro. É sintomático que emissoras como ABC, NBC e CNN tenham hesitado em transmitir o pronunciamento, o que levou Trump a ameaçar com a cassação de suas licenças, um ataque frontal à liberdade de imprensa que só atesta seu vezo autoritário.

Não sem sobressaltos, a democracia americana tem sobrevivido a Trump, mas será testada novamente. Em novembro, o mundo verá se as instituições e o eleitorado dos EUA resistirão a um presidente que faz o que pode e o que não pode para reescrever as regras do jogo quando se dá conta de que pode perder a partida.

Choque de realidade

Por O Estado de S. Paulo

Experiências municipais comprovam que tarifa gratuita, além de custosa, sucateia o transporte

Em agosto de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, fiel a seu cacoete populista, encomendou ao Ministério da Fazenda um estudo para viabilizar a adoção da tarifa gratuita de transporte em todo o Brasil. Tal estudo é desnecessário. Como demonstram as experiências de municípios que adotaram a gratuidade no transporte, a tarifa zero universal, em vez de ser solução, é causa de problemas.

Por isso mesmo, o ritmo de adoção da tarifa gratuita vem perdendo força País afora. Dados da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) mostram que, no último ano, apenas 16 municípios adotaram a política, enquanto no auge desse movimento, entre 2021 e 2023, foram 70.

Ao todo, 143 municípios brasileiros oferecem a tarifa zero, mas, segundo a NTU, a política de gratuidade já foi revogada em oito deles, entre os quais três apenas em 2025: Monte Mor (SP), Picos (PI) e Ubiratã (PR).

São Caetano do Sul (SP), um dos 14 municípios do país com mais de 100 mil habitantes que oferecem tarifa zero atualmente, acaba de restringir o alcance da política que adotou no final de 2023. Agora a gratuidade é limitada aos moradores da cidade e a grupos específicos, como pacientes em tratamento de câncer. A tarifa zero fez explodir a demanda por transporte público na cidade, que passou a transportar 80 mil passageiros diários – eram 20 mil antes de gratuidade.

Ainda que concebida para melhorar a vida da população, a medida acabou produzindo o efeito contrário em um município até então conhecido por ter um dos maiores IDHs do Brasil. Ônibus cada vez mais lotados enfureceram os usuários.

O sucateamento é apenas um dos problemas da adoção da tarifa zero. O custo, obviamente, é o maior deles. Com exceção de municípios como Maricá (RJ), que pode financiar a gratuidade universal com os royalties da produção de petróleo, “não é fácil colocar essa política em prática na maioria dos municípios brasileiros”, afirma o diretor da FGV Transportes, Marcus Quintella.

Mesmo em municípios como São Paulo, que oferecem a gratuidade apenas aos domingos, o custo da tarifa zero é substancial. Com uma renúncia fiscal estimada em R$ 280 milhões por ano, a tarifa zero elevou a demanda por ônibus na capital paulista em algo entre 20% e 30%.

Tanto nos domingos quanto nos dias em que a gratuidade não vale, porém, os paulistanos queixam-se da falta de linhas e de periodicidade adequada dos ônibus. É assim em todo o País, prova de que os recursos que financiam a tarifa zero poderiam ser empregados em outras prioridades.

Além de não resolver os problemas que mais afligem a população, como a inexistência de itinerários, a tarifa zero também tende a beneficiar quem já conta com linhas regulares, enquanto nada faz pelos milhões de brasileiros, pobres em sua grande maioria, que nem sequer têm acesso a um ponto de ônibus perto de suas casas.

Em vez de insistir na aventura eleitoreira da tarifa universal gratuita, o governo federal faria melhor se não se metesse em uma questão dos municípios e com a qual eles próprios estão aprendendo a lidar de modo mais pragmático.

As pendências do Congresso

Por Correio Braziliense

Deputados e senadores encerraram o semestre legislativo sem avançar na aprovação de propostas relevantes

O Congresso Nacional entrou em recesso com diversos assuntos pendentes de interesse da sociedade brasileira. Deputados e senadores encerraram o semestre legislativo sem avançar na aprovação de propostas relevantes, como o fim da escala 6x1, o projeto de lei sobre misoginia, a PEC da Segurança e a regulamentação do uso de inteligência artificial no país. Com a proximidade das eleições, é pouco provável que esses temas voltem à baila, ampliando o distanciamento entre os representantes do Parlamento e os eleitores. 

A fim de compensar a baixa produtividade no Legislativo, o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, anunciou um esforço concentrado em agosto. Segundo a vontade do senador, as duas Casas votariam matérias importantes em dias específicos. A primeira etapa do regime de deliberação expressa ocorreria de 10 a 14 de agosto. E a segunda, de 31 de agosto a 3 de setembro. Na ponta do lápis, estamos a falar de nove dias de trabalho presencial. 

Uma análise rápida da situação de algumas das proposições indica que o tal esforço concentrado corre o risco de reproduzir uma prática frequente no Legislativo: a ausência de debates aprofundados na elaboração das leis. O próprio Davi Alcolumbre manifestou essa preocupação em relação ao fim da escala 6x1, ainda em junho. De lá para cá, passaram-se mais de 50 dias da aprovação da matéria pelos deputados, e o texto sequer foi encaminhado à Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

Se voltar ao debate em agosto, a proposta virá acompanhada de muita pressão. Enquanto os governistas ameaçam alcunhar Alcolumbre de "inimigo do trabalhador" se dificultar a tramitação do texto, o setor produtivo insiste em um debate mais aprofundado para evitar danos econômicos, inclusive com prejuízos ao trabalhador.

Há uma concentração de outros assuntos no Senado. A PEC da Segurança, por exemplo, foi aprovada em março na Câmara, mas segue parada na Casa revisora. O texto propõe mudanças nas atribuições da União, dos estados e dos municípios, a fim de estruturar um Sistema Único de Segurança Pública (Susp) nos moldes do SUS. Em plena campanha eleitoral e com ao menos dois pré-candidatos à Presidência da República com discursos fortemente voltados para a segurança pública — Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado —, são remotas as possibilidades de deputados e senadores entrarem nessa seara durante o esforço concentrado.

Na Câmara, o projeto de lei sobre misoginia tinha uma expectativa de ser votado no fim de junho. Mas a falta de consenso impediu a proposta de avançar. Um dos obstáculos é a resistência de partidos da direita em tipificar o crime de misoginia. Esse debate tende a se tornar mais difícil no período eleitoral, especialmente quando duas mulheres de evidência no mundo político — Michelle Bolsonaro e a primeira-dama Janja da Silva — alegam serem alvo de ataques misóginos. Em um Congresso predominantemente masculino e conservador, pergunta-se como essa proposta poderá ficar a contento das vítimas. 

Se há poucas razões para crer em um trabalho consistente no próximo semestre legislativo, convém ressaltar outros episódios que notabilizaram a atuação dos parlamentares nos últimos meses, sem benefícios para a sociedade. A CPMI do INSS e a CPI do Crime Organizado terminaram sem aprovação do relatório final, em um resultado frustrante para quem aguardava alguma medida relevante contra a ação de grupos criminosos. A CPI do Master ficou apenas na vontade de alguns, em meio ao envolvimento de senadores da direita e da esquerda com as conexões de Daniel Vorcaro. Por fim, a rejeição ao nome de Jorge Messias para o STF ganhou as manchetes, em uma das várias desavenças entre o senador Davi Alcolumbre e o presidente Lula. Na prática, o STF está há mais de 10 meses com um magistrado a menos, com todas as implicações que esse desfalque provoca.

Em meio a tantas questões pendentes, o Congresso quer convencer o país de que vai trabalhar firme durante nove dias em plena temporada eleitoral. Só os inocentes acreditam.

Chega ao fim a maior Copa da história

Por O Povo (CE)

Em uma reunião do Grupo de Estudos Técnicos da Fifa, foram apresentados dados acerca da Copa de 2026, que foi avaliada como um torneio bem-sucedido

A Copa do Mundo 2026, que chega ao fim neste domingo, foi a 23ª edição do torneio da Fifa. Foi a primeira realizada com 48 equipes e a primeira em três países-sedes: Canadá, Estados Unidos e México. É, sem dúvidas, a maior Copa de todos os tempos. Uma série de novas experiências e novas regras foi colocada em prática, e alguns pontos também que precisam ser resolvidos. A final, neste domingo, 19/7, será celebrada com duas seleções consideradas fortes - Espanha e Argentina - no MetLife Stadium, em East Rutherford, nos Estados Unidos.

Em uma reunião do Grupo de Estudos Técnicos da Fifa, foram apresentados dados acerca da Copa de 2026, que foi avaliada como um torneio bem-sucedido. Esse grupo é composto por ex-jogadores e treinadores.

Algumas das novas regras, como reversão de tiro de meta em escanteio ou "suspensão" de um minuto para atendimentos médicos que interrompem a partida, tiveram seus efeitos discutidos na reunião do mencionado grupo. A média de atendimentos médicos aos jogadores teve uma queda um terço. No Mundial de 2022, foi registrado o dado de 2,3 por jogo. Neste Mundial de 2026, o número foi de 1,6 por jogo - sem serem considerados os jogos da decisão pelo terceiro lugar (na noite de sábado) e a final (deste domingo).

Ou seja, algumas das conclusões do Grupo de Estudos Técnicos da Fifa é que a conhecida "cera" no futebol diminuiu pela metade nas cobranças de tiros de meta a partir das novas regras. Entendeu-se que os goleiros estão sendo mais ousados e times que jogam com dois "atacantes" pelo corredor central e linhas baixas estão se tornando uma tendência. Além disso, o tempo médio na cobrança de tiros de meta caiu de 30 segundos para 12 segundos entre os Mundiais de 2022 e de 2026.

O grupo de estudos da Fifa mostrou um mapa de calor que expôs como as equipes mudaram a forma de pressionar sem a bola. A tendência na Copa do Catar era de que um atacante tentasse incomodar a saída da defesa do adversário. Na Copa de 2026, foi mais comum que dois jogadores exercitassem essa pressão.

Uma das principais polêmicas de 2026, as pausas de hidratação, não foi analisada pelo Grupo. Não foram apresentados dados de mudança com a técnica, na partida ou na recepção do torcedor. O que se sabe, pelos comentários gerais, é que a ação parece não ter agradado ao público, pelo tempo de espera para a volta da partida e pela quebra de ritmo dos jogadores.

É preciso ressaltar a frustração com o resultado da Seleção Brasileira, eliminada ainda nas oitavas de final para a Noruega. Faz-se urgente uma reestruturação para o novo ciclo até 2030 com renovação de jogadores, estratégias que deem efeitos positivos em campo e mudanças na comissão técnica. O pentacampeonato do Brasil ocorreu em 2002. Desde então, não houve títulos em Copa a celebrar no País.

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