domingo, 26 de julho de 2026

Disputa eleitoral: sobram desafios e faltam ideias, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Planos e projetos provavelmente logo aparecerão, mas o atraso já é assustador, como seria até mesmo num tranquilo país escandinavo

Num quadro global de brutalidade, incerteza econômica, protecionismo e insegurança inflada pelas pretensões imperiais de Donald Trump, o Brasil tem conseguido evitar conflitos, manter a estabilidade política e sustentar a atividade econômica, o emprego e uma inflação tolerável, embora distante da meta de 3%.

Os números mostram um mercado de trabalho em condições favoráveis no trimestre encerrado em maio, com desocupação abaixo de 6% e nos mais baixos níveis da série iniciada em 2012. O quadro é manchado pela informalidade, pelo subemprego e pelas condições da camada inferior da classe média e dos grupos pobres. Mas a pobreza extrema foi quase erradicada há alguns anos e pouquíssimos brasileiros ainda enfrentam a fome.

Se nem tudo anda bem e falta muito trabalho, muito investimento e muita reforma para garantir condições decentes a milhões de brasileiros, é preciso reconhecer, no entanto, a modernização econômica, as melhores condições educacionais e a maior oferta de trabalho a profissionais com alguma qualificação.

Não se trata apenas de favorecimento a uma parcela da mão de obra. A atualização de vários segmentos de negócios torna indispensável um melhor preparo de mais trabalhadores. Isso é bem visível na agropecuária e perceptível também nas atividades urbanas. Os drones tornaram-se frequentes na paisagem rural, favorecendo o uso eficiente de recursos e, portanto, o aumento da produtividade. Os efeitos da modernização do campo aparecem na indústria, nas contas externas e nas condições de consumo no dia a dia. Em Brasília, no entanto, a ação dos líderes políticos do campo ainda contrasta, frequentemente, com a evolução tecnológica do setor.

Contas externas saudáveis, apesar das tensões internacionais, têm favorecido, pelo menos até agora, alguma tranquilidade econômica num ano de eleições importantes. O Brasil exportou no primeiro semestre produtos no valor de US$ 184,8 bilhões e acumulou superávit comercial de US$ 42,4 bilhões, 40,3% maior que o de igual período do ano anterior.

A China continua sendo o maior mercado para produtos brasileiros, principalmente matérias-primas e bens semielaborados. Nos Estados Unidos, principal destino dos produtos industrializados, surgiram barreiras criadas num dos arroubos políticos de Donald Trump. Negociações apoiadas por importadores americanos poderão, talvez, atenuar as perdas, mas exportadores já estão procurando alternativas.

O acesso a novos compradores poderá depender, no entanto, de alterações nos produtos e de mais investimentos, mas pouco se divulgou, até agora, sobre esses detalhes. Na Argentina, importante mercado mesmo após a ascensão de Javier Milei, a atuação crescente da China tem sido avaliada, no Brasil, como novidade preocupante. O governo paulista, no entanto, declarou a intenção de condecorar o presidente argentino com a Ordem do Ipiranga. A decisão parece compatível com o uso, pelo governador de São Paulo, num evento público, do boné trumpista com a inscrição “Make America Great Again”. O boné pode ter sido abandonado, pelo menos de forma ostensiva, mas o trumpismo é revalorizado na homenagem ao companheiro argentino. A homenagem a um governante vizinho, de toda forma, é um ato diplomático, de civilidade e compatível, normalmente, com o interesse público.

Todo esse quadro parece normal, saudável, muito mais tranquilo do que em grande parte do mundo e até admirável num ano de eleições disputadas com algum radicalismo. Mas há algo um tanto estranho nessa aparente tranquilidade. A campanha é marcada por diferenças ideológicas importantes e por desavenças políticas significativas, mas, por enquanto, sem debates e sem grandes choques de propostas.

De fato, quase nada se tem falado, até agora, a respeito de propostas, programas e projetos. Do presidente em busca de reeleição pode-se esperar, quase certamente, alguma intenção de continuidade, mas ele mesmo já insinuou a intenção de acrescentar alguma novidade, se continuar no posto. Não apresentou detalhes, no entanto, nem foi além de vagas promessas de maior ousadia transformadora. Do lado oposicionista, a figura mais visível praticamente se limitou, por enquanto, a prometer a libertação do pai, em prisão domiciliar depois de condenado por crimes associados a uma tentativa de golpe. Outros possíveis candidatos têm sido mais propositivos, com base em suas experiências administrativas, mas falta uma definição clara, no entanto, de como vão participar do jogo eleitoral.

Parte do eleitorado está comprometida partidária ou ideologicamente. Grande número de eleitores, no entanto, parece continuar à espera de propostas mais organizadas e mais claras. Na maior economia do Hemisfério Sul, com enorme potencial de crescimento, mais de 200 milhões de habitantes, muita desigualdade e pobreza decrescente, mas com aspectos tão evitáveis quanto inaceitáveis, uma disputa eleitoral se desenvolve com notável miséria de ideias e propostas. Planos e projetos provavelmente logo aparecerão, mas o atraso já é assustador, como seria até mesmo num tranquilo país escandinavo.

 

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