O Estado de S. Paulo
O grande país demite-se em cena aberta da sua história e declina da sua parte de responsabilidade pelo destino do mundo
A comemoração dos 250 anos da Declaração de
Independência dos Estados Unidos da América, evento revolucionário com
repercussões globais em sua época, transcorre numa atmosfera pesada por conta
de Trump e do trumpismo. Fácil constatar que há luzes e sombras por toda parte,
no passado e no presente. Por isso, mesmo que aos tropeços, damo-nos conta da
complexidade daquela sociedade e do seu percurso, bem como da sua relevância
para a sorte geral das liberdades. Esta percepção, naturalmente, vai muito além
das palavras de ordem que herdamos, calcificadas, do conflito particular que
findou em 1989.
Para os que se colocam à esquerda, a hora é boa para revisitar os próprios clássicos e reavaliar o experimento norte-americano. Nada melhor do que partir de Karl Marx, quando menos por ser o autor da primeira visão histórico-sistemática da modernidade capitalista.
Há quem afirme que as relações entre Europa e
América, o velho e o novo mundo, não foram aspecto secundário das cogitações do
founding father do comunismo. No século 18, a independência das 13 colônias
rebeldes seria o sinal para o movimento revolucionário da classe média
europeia. No século seguinte, a guerra civil americana, com a vitória dos
yankees, significaria não só a derrota do Sul escravista, mas também um impulso
para o amadurecimento do movimento operário europeu em busca de uma nova ordem.
Os incrédulos talvez duvidem, mas esta associação de ideias, forte e inesperada,
está num lugar de honra, o prefácio da primeira edição de O Capital.
Também pode surpreender, pouco tempo antes, a
ilustrada troca de mensagens entre Marx e o presidente Lincoln, reconduzido ao
cargo nos meses finais da guerra civil. O primeiro saúda a reeleição em nome da
Associação Internacional dos Trabalhadores – a temida Internacional, que fazia
tremer tronos e potestades –, o segundo responde por meio do seu embaixador em
Londres. Firula diplomática, dirão alguns. Signo expressivo, acreditamos, de
que a política moderna é o resultado da convergência de forças e tradições das
mais diferentes orientações, que convém tentar compreender na relação de umas
com as outras, sem estigmatizar nenhuma.
Décadas depois, já inteiramente constituída a
arena política do século 20, um pensador como Antonio Gramsci recusa-se a
encerrar a questão americana na categoria do “imperialismo”. Para ele, há nesta
parte do mundo uma possibilidade de mudança que não podia nascer na velha
Europa. A demografia racionalizada, a ausência de classes parasitárias e as
inovações na produção – referência explícita ao fordismo – marcam uma nova
forma de produção e de vida social. O capitalismo uma vez mais se reinventa e
faz sua específica “revolução passiva”, cujos resultados o “antagonista” – a
classe operária – tem a obrigação de levar seriamente em conta, em vez de
propor um mítico combate definitivo entre classes concebidas como blocos de
granito.
Estes pontos de vista alternativos ajudam a
entender o que se seguiria – tanto o dinamismo interno de uma sociedade
inovadora quanto sua capacidade expansiva global. Quando o segundo pós-guerra
trouxe a Organização das Nações Unidas (ONU) e todo um inédito sistema de
organizações multilaterais, a presença norte-americana seria mais marcante do
que a do desafiante soviético. A Declaração Universal dos Direitos Humanos,
longe de ser um documento americano ou ocidental, se tornaria um marco
civilizatório, uma espécie de “dever ser” acima das partes e apesar de
desrespeitos flagrantes – frequentemente, aliás, por parte dos Estados Unidos.
O fato fundamental é que regimes autoritários, como os do socialismo real,
tiveram dificuldades insuperáveis para cumprir a agenda plural de direitos e
liberdades gravada naquela declaração. Também por isso, e não só pelo relativo
atraso econômico, trilharam o caminho da subalternidade e da autodissolução.
Este quadro sumário explica a razão pela qual
os fenômenos de degradação em curso na sociedade e na política norte-americana
são especialmente graves. A face interna do problema é o fim que se pretende
dar ao sonho americano, tal como representado pelo compromisso rooseveltiano há
quase cem anos. Uma combinação perversa de darwinismo social e poder central
autoritário, com forças contrapostas progressivamente debilitadas, tem o condão
de lesar liberdades, acirrar desigualdades e, se não for impedida, pôr em
marcha forçada a autocratização da América.
A face externa do problema tem dimensão
assombrosa. A presidência imperial de Trump é o principal núcleo disseminador
da ilusão dos strongmen por todo o Ocidente político – com traços de cesarismo
regressivo, no léxico gramsciano. Na América Latina, oficialmente reduzida a
província, aquela presidência é farol e apoio de toda uma sequência de
trumpitos, para recorrer ao termo mordaz da The Economist – o que em nada
lembra o sentido libertador da Declaração de 1776. Há mais: de um modo geral,
nesta turbulenta passagem de época, o grande país demite-se em cena aberta da
sua história e declina da sua parte de responsabilidade pelo destino do mundo.
*Tradutor e ensaísta, coeditor das ‘Obras’ de Gramsci no Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário