domingo, 26 de julho de 2026

A América contra si mesma, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

O grande país demite-se em cena aberta da sua história e declina da sua parte de responsabilidade pelo destino do mundo

A comemoração dos 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, evento revolucionário com repercussões globais em sua época, transcorre numa atmosfera pesada por conta de Trump e do trumpismo. Fácil constatar que há luzes e sombras por toda parte, no passado e no presente. Por isso, mesmo que aos tropeços, damo-nos conta da complexidade daquela sociedade e do seu percurso, bem como da sua relevância para a sorte geral das liberdades. Esta percepção, naturalmente, vai muito além das palavras de ordem que herdamos, calcificadas, do conflito particular que findou em 1989.

Para os que se colocam à esquerda, a hora é boa para revisitar os próprios clássicos e reavaliar o experimento norte-americano. Nada melhor do que partir de Karl Marx, quando menos por ser o autor da primeira visão histórico-sistemática da modernidade capitalista.

Há quem afirme que as relações entre Europa e América, o velho e o novo mundo, não foram aspecto secundário das cogitações do founding father do comunismo. No século 18, a independência das 13 colônias rebeldes seria o sinal para o movimento revolucionário da classe média europeia. No século seguinte, a guerra civil americana, com a vitória dos yankees, significaria não só a derrota do Sul escravista, mas também um impulso para o amadurecimento do movimento operário europeu em busca de uma nova ordem. Os incrédulos talvez duvidem, mas esta associação de ideias, forte e inesperada, está num lugar de honra, o prefácio da primeira edição de O Capital.

Também pode surpreender, pouco tempo antes, a ilustrada troca de mensagens entre Marx e o presidente Lincoln, reconduzido ao cargo nos meses finais da guerra civil. O primeiro saúda a reeleição em nome da Associação Internacional dos Trabalhadores – a temida Internacional, que fazia tremer tronos e potestades –, o segundo responde por meio do seu embaixador em Londres. Firula diplomática, dirão alguns. Signo expressivo, acreditamos, de que a política moderna é o resultado da convergência de forças e tradições das mais diferentes orientações, que convém tentar compreender na relação de umas com as outras, sem estigmatizar nenhuma.

Décadas depois, já inteiramente constituída a arena política do século 20, um pensador como Antonio Gramsci recusa-se a encerrar a questão americana na categoria do “imperialismo”. Para ele, há nesta parte do mundo uma possibilidade de mudança que não podia nascer na velha Europa. A demografia racionalizada, a ausência de classes parasitárias e as inovações na produção – referência explícita ao fordismo – marcam uma nova forma de produção e de vida social. O capitalismo uma vez mais se reinventa e faz sua específica “revolução passiva”, cujos resultados o “antagonista” – a classe operária – tem a obrigação de levar seriamente em conta, em vez de propor um mítico combate definitivo entre classes concebidas como blocos de granito.

Estes pontos de vista alternativos ajudam a entender o que se seguiria – tanto o dinamismo interno de uma sociedade inovadora quanto sua capacidade expansiva global. Quando o segundo pós-guerra trouxe a Organização das Nações Unidas (ONU) e todo um inédito sistema de organizações multilaterais, a presença norte-americana seria mais marcante do que a do desafiante soviético. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, longe de ser um documento americano ou ocidental, se tornaria um marco civilizatório, uma espécie de “dever ser” acima das partes e apesar de desrespeitos flagrantes – frequentemente, aliás, por parte dos Estados Unidos. O fato fundamental é que regimes autoritários, como os do socialismo real, tiveram dificuldades insuperáveis para cumprir a agenda plural de direitos e liberdades gravada naquela declaração. Também por isso, e não só pelo relativo atraso econômico, trilharam o caminho da subalternidade e da autodissolução.

Este quadro sumário explica a razão pela qual os fenômenos de degradação em curso na sociedade e na política norte-americana são especialmente graves. A face interna do problema é o fim que se pretende dar ao sonho americano, tal como representado pelo compromisso rooseveltiano há quase cem anos. Uma combinação perversa de darwinismo social e poder central autoritário, com forças contrapostas progressivamente debilitadas, tem o condão de lesar liberdades, acirrar desigualdades e, se não for impedida, pôr em marcha forçada a autocratização da América.

A face externa do problema tem dimensão assombrosa. A presidência imperial de Trump é o principal núcleo disseminador da ilusão dos strongmen por todo o Ocidente político – com traços de cesarismo regressivo, no léxico gramsciano. Na América Latina, oficialmente reduzida a província, aquela presidência é farol e apoio de toda uma sequência de trumpitos, para recorrer ao termo mordaz da The Economist – o que em nada lembra o sentido libertador da Declaração de 1776. Há mais: de um modo geral, nesta turbulenta passagem de época, o grande país demite-se em cena aberta da sua história e declina da sua parte de responsabilidade pelo destino do mundo.

*Tradutor e ensaísta, coeditor das ‘Obras’ de Gramsci no Brasil

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