Folha de S. Paulo
Livro mostra impacto eleitoral de mudanças
sociodemográficas registradas entre 2002 e 2022
Os menos escolarizados apoiam mais o PT; população com ensino médio pende mais para a direita
Vinte anos não é pouco na vida de uma pessoa, mas é um intervalo de tempo
relativamente curto na história de um país. É por isso que impressiona quanto o
Brasil mudou nas duas décadas que separam a primeira eleição de Lula,
em 2002, da mais recente, em 2022. Essas mudanças são o cerne de "O País
Dividido", do cientista político Jairo Nicolau.
O perfil sociodemográfico do país passou por transformações importantes. O Brasil ficou mais velho, mais instruído e menos pobre. O eleitorado feminino se tornou preponderante. A proporção de evangélicos cresceu significativamente, à custa da fatia de católicos. Nicolau mostra, com base empírica e não em achismos, o impacto que essas transformações tiveram no voto.
Há alguns paradoxos. Ao menos duas dessas
mudanças, a da educação e
a da renda, são indiscutivelmente positivas. O resultado político, porém, não
pode ser classificado como indiscutivelmente positivo. Saímos da transferência
de poder civilizada de FHC para
Lula para um ambiente de polarização que incluiu até a de tentativa de golpe
de Jair
Bolsonaro. Não dá obviamente para afirmar que isso ocorreu porque o
país ficou mais instruído e menos pobre, mas essas duas transformações, ao lado
de outras, tiveram lá seu impacto.
Os menos escolarizados são o grupo mais fiel
ao PT.
Foi só em 2018 que esse estrato abandonou o partido. Já o recorte das pessoas
com ensino médio é o que mais pende para a direita. A fatia menor da população
com diploma superior, que desde 2014 vinha votando na direita, voltou a apoiar
Lula em 2022.
O livro tem vários achados interessantíssimos. O recorte religioso é
particularmente rico em insights e por isso não falo nada sobre ele, para não
dar spoiler.
Só lamento que Nicolau, na melhor tradição da
sobriedade acadêmica, quase não se permita especulações. Nas poucas palinhas
que ele dá, como a hipótese de que a polarização brasileira seja episódica e
transitória, muito centrada nas figuras de Lula e Bolsonaro, deixa o leitor com
um gostinho de quero mais.
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