O Globo
Quando a moça do caixa quer saber se você vai
pagar no débito ou no crédito, ela provavelmente não está praticando racismo
creditício
Nietzsche decretou, em 1882, que Deus estava
morto. Não tivesse morrido também, diria que quem morreu agora foi Copérnico:
de uns tempos pra cá, parece que o Universo inteiro deu de girar em torno de
nós, do nosso umbigo.
Não, leitor, nem tudo é sobre você, a cor da sua pele, seu índice de gordura, sua orientação sexual. Essa falta de noção e de proporção tem nome: efeito holofote. É o que faz com que você se sinta o centro das atenções, o vórtice dos acontecimentos. Menos, leitor. Menos.
Quando a moça do caixa quer saber se você vai
pagar no débito ou no crédito, ela provavelmente não está praticando racismo
creditício — como crê a professora baiana que aproveitou a pergunta sobre a
forma de pagamento para refletir sobre estereótipos ligados à condição financeira
(ou “dimensão de escassez”) da população negra.
— Acontece sobretudo com pessoas negras, e
especialmente comigo — asseverou a docente.
Algo me diz que acontece sobretudo com
pessoas que pagam com cartão, especialmente com as que não dizem de cara se
preferem descontar a despesa do saldo em conta ou deixar para depois. Quem paga
com Pix, dinheiro ou cheque (isso ainda existe?) não ouve essa pergunta. Ela só
embute racismo, sexismo ou outro ismo qualquer se o interlocutor subestimar a
quantidade de transações diárias e as demais preocupações de quem tem de fechar
o caixa no fim do dia.
Isso não significa que pessoas negras e
brancas sejam tratadas da mesma forma ao solicitar cartão de crédito,
empréstimo bancário, aumento do limite da conta corrente. A discriminação racial
está entranhada na sociedade, mas é mais eficiente combatê-la onde efetivamente
existe, em vez de projetá-la em interações banais.
Num voo entre Lisboa e Londres nesta semana,
um homem que ocupava o assento entre a janela e o corredor pediu para trocar de
lugar. Na poltrona ao lado, estava uma mulher trans — que gravou um vídeo
denunciando a atitude como transfóbica:
— Um passageiro chamou a aeromoça dizendo que
não queria mais ficar sentado aqui, no meio. Não me deu nenhuma explicação, e
também não aconteceu nada que justificasse aquela mudança.
Como se fosse necessário dar explicações a
desconhecidos, a bordo, sobre preferirmos uma poltrona mais longe do lavatório,
mais perto da saída de emergência, ou simplesmente qualquer uma que não a do
meio.
Penso em embarcar na onda das microagressões
identitárias e me sentir vítima de capacitismo sempre que o barbeiro me
perguntar “cabelo ou barba?”. Será que ele não me julga apto a manusear um
aparador, escolher entre o pente 0,5 e o 0,3 e fazer eu mesmo o serviço em
casa? Até quando homens de meia-idade serão tratados como incapazes de cuidar
dos próprios pelos faciais? Antevejo processos por gordofobia quando o garçom
quiser saber se o café é com açúcar ou adoçante, se a Coca é normal ou zero.
Antônio Cícero já havia escrito que “o Hotel
Marina quando acende/não é por nós dois/nem lembra o nosso amor”. Alberto Caeiro,
que “a realidade não precisa de mim”. É que nenhum dos dois trabalhava com a
hipertrofia do eu, nem dependia de likes, validação e holofotes.
Ao ligar para renovar a assinatura do jornal
e lhe perguntarem se você quer a edição digital ou a impressa, recarregue a
bateria narcísica e prepare o discurso sobre etarismo. Seria um desperdício não
transformar isso em ofensa pessoal, não acha?

Um comentário:
Gostei,principalmente do penúltimo parágrafo.
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