segunda-feira, 22 de junho de 2026

No Pantanal, iniciativa alia preservação e desenvolvimento econômico, por Demétrio Magnoli*

O Globo

O Revis da Bodoquena ao Delta do Salobra reduz antagonismos históricos entre conservação e produção rural. Não é 'de esquerda', nem 'de direita'

Num Pantanal que experimenta déficit hídrico desde 2019, o fogo vem aí, na esteira de uma nova seca excepcional impulsionada pelo El Niño. Lá, oeste de Mato Grosso do Sul, no corredor ecológico que conecta a Serra da Bodoquena ao Pantanal do Delta do Salobra, semeia-se uma resposta: um Refúgio de Vida Silvestre (Revis). A iniciativa alia preservação e desenvolvimento econômico.

Desde 2024, o ICMBio aponta a faixa territorial como área prioritária para criação de uma Unidade de Conservação. Parque Nacional, com desapropriações e remoções? Não. De acordo com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, o Revis permite a continuidade das atividades econômicas existentes, preservando áreas essenciais à conectividade ecológica. O conceito é uma dupla negação: sem devastação do meio ambiente, mas sem romantismo ambiental militante.

O mapa do futuro Revis configura um polígono que, excluindo áreas produtivas consolidadas, abrange Reservas Legais contínuas, Áreas de Proteção Permanente (APPs), morrarias, depressões inundáveis e áreas de baixa aptidão agrícola. O modelo propicia uma aliança incomum entre ambientalistas e produtores rurais.

O Revis proposto inscreve-se como ponte entre quatro biomas: Pantanal, Cerrado, Mata Atlântica e Chaco Paraguaio. No seu polígono, encontram-se propriedades privadas que se conectam ao Parque Nacional da Serra da Bodoquena (destinado a proteger vasto fragmento de Mata Atlântica), à Terra Indígena Kadiwéu (já em transição com o Chaco), ao Pantanal do Delta do Salobra e ao Parque Estadual do Rio Negro, por meio de reservas legais contíguas. Abrange fazendas privadas articuladas na Aliança 5P, cuja lógica associa a conservação ambiental e a pesquisa científica à produção pecuarista e ao ecoturismo.

As transições ecológicas entre planalto, morrarias, cerrados, planícies inundáveis e florestas estacionais formam um conjunto de heterogeneidade singular que sustenta grandes mamíferos, aves migratórias, peixes reofílicos e inúmeras espécies sensíveis à fragmentação ambiental: onça-pintada, anta, ariranha, tamanduá-bandeira, além de uma espetacular variedade de pássaros. A expansão do turismo ecológico oferece ganhos de escala para toda a economia regional.

O Pantanal não é, como alguns imaginam, um espaço natural intocado. Sua fisionomia foi esculpida desde o século XVIII pela ação humana, especialmente a pecuária extensiva em pastagens naturais. A proposta do Revis afasta a noção de proibição das atividades produtivas tradicionais. No lugar disso, oferece a oportunidade de valorização econômica por meio da combinação delas com pesquisa científica e turismo ambiental. O modelo almeja modernização e ampliação da geração de renda, sem devastação extrativista.

As estatísticas econômicas do ICMBio desmentem as lendas. Em 2025, 175 unidades de conservação federais receberam 28,5 milhões de visitantes (recorde histórico), geraram R$ 20,3 bilhões ao PIB e sustentaram mais de 332 mil empregos diretos e indiretos. Para cada real investido no ICMBio, R$ 16 retornaram ao PIB nacional.

O turismo de natureza saltou da condição de pauta ambiental a elemento estratégico na economia mundial. O MS descobre as oportunidades. Bonito tornou-se referência internacional — e conecta-se naturalmente à Serra da Bodoquena, com suas matas preservadas, cachoeiras, mirantes naturais e comunidades tradicionais. O Revis ampliaria o itinerário ecoturístico, proporcionando um trajeto estruturado da Bodoquena à Terra Kadiwéu e à planície pantaneira, nas proximidades da cidade de Miranda.

Segundo o mito encravado na polarização política nacional, paisagem preservada é “área improdutiva”. Na realidade, modelos inteligentes de proteção ambiental geram recursos econômicos de longo prazo. O Revis da Bodoquena ao Delta do Salobra reduz antagonismos históricos entre conservação e produção rural. Não é “de esquerda”. Nem “de direita”.

O espectro do fogo solicita dupla abordagem. De imediato, treinamento de brigadas para combater os incêndios. No horizonte maior, a estruturação de uma paisagem resistente, baseada na modernização das economias locais. Com ou sem El Niño.

*Em coautoria com Mauricio Copetti (Instituto Delta do Salobra)

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