O Globo
Líder da Revolução Sandinista de 1979 imita
métodos de autocrata que ajudou a derrubar
O aviso foi dado por Daniel Ortega,
presidente da Nicarágua: “Não haverá mais eleições aqui”. O líder da Revolução
Sandinista discursava em Manágua, no último domingo. Depois do anúncio,
explicou: vai proibir o voto porque a oposição não pode chegar ao poder.
Ortega participou da guerrilha que derrubou a ditadura de Anastasio Somoza. O levante de 1979 empolgou a esquerda latino-americana, sufocada por regimes militares no Brasil, na Argentina e no Chile.
Os vitoriosos se inspiraram no marxismo e na
Teologia da Libertação. Fizeram a reforma agrária, alfabetizaram o povo,
reduziram a pobreza. Depois da euforia inicial, o país enfrentou um embargo
econômico e mergulhou numa guerra civil financiada pelos Estados Unidos. A
revolução começou a fazer água, e os sandinistas foram derrotados nas urnas em
1990.
Ortega perdeu três eleições até vencer de
novo, em 2006. De volta ao palácio, resolveu reescrever a Constituição para se
eternizar no poder. Em 2018, virou alvo de protestos e ordenou uma repressão
violenta, que deixou mais de 300 mortos. Depois passou a censurar a imprensa,
prender opositores e perseguir religiosos que contestavam seu autoritarismo.
A fala de domingo só escancarou o que já não
era segredo: a Nicarágua voltou a viver sob uma ditadura familiar. No ano
passado, o cargo de “copresidente” foi criado sob medida para a primeira-dama,
Rosario Murillo.
“É inacreditável”, desabafa o escritor Frei
Betto, que vibrou com o levante de 1979 e frequentou o país por uma década,
envolvido em programas de educação popular. “O projeto revolucionário acabou.
Por apego ao poder, Ortega está fazendo o mesmo que o Somoza. É triste, porque
depõe contra as utopias que alimentamos por muito tempo na América Latina”,
lamenta.
Lula ainda era dirigente sindical quando
desembarcou na Nicarágua para o primeiro aniversário da revolução, em 1980.
Vinte e sete anos depois, voltou ao país como presidente.
No mandato atual, prometeu ao Papa Francisco
que tentaria interceder pela libertação do bispo Rolando José Álvarez, preso
sob acusação de “traição à pátria”. Ortega ignorou o pedido e expulsou o
embaixador brasileiro em 2024, selando um distanciamento definitivo. O petista
tem sorte.

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