Correio Braziliense
Decisões atribuídas ao
gabinete de Moura Ribeiro supostamente favoreceram interesses ligados ao
lobista Andreson Gonçalves e à advogada Miriam Ribeiro
A advertência de James Madison de que “se os
homens fossem anjos, não seria necessário haver governos” não se destinava
apenas a justificar a existência de um poder central para as antigas 13
colônias inglesas, mas estabelecer um princípio que viria ser essencial para a
democracia ocidental: todo poder exercido por seres humanos precisa ser
submetido a controles. No ensaio nº 51 de “O federalista”, Madison mostrou a
dificuldade de habilitar o governo a controlar os governados; depois, obrigá-lo
a controlar a si mesmo.
É mais ou menos esse o sentido da insistência com que o presidente do Supremo Tribunal federal, ministro Édson Fachin, adverte sobre a necessidade de autocontenção do Judiciário. O poder dos ministros dos tribunais superiores é imenso e a responsabilidade deles maior ainda. Magistrados não dependem diretamente do voto popular, contam com garantias funcionais e têm a prerrogativa de decidir sobre a liberdade, o patrimônio e os direitos dos cidadãos. Mas para isso precisam conquistar a liderança moral da sociedade.
No Brasil, o Supremo Tribunal Federal ocupa o
vértice do sistema judiciário, com enorme concentração de poder. É guardião da
Constituição, tribunal de recursos, árbitro dos conflitos entre os Poderes e
instância penal para autoridades com prerrogativa de foro. A Corte também tem
obrigação de prestar contas, fundamentar suas decisões com clareza e submeter
seus próprios integrantes e os magistrados dos tribunais superiores aos mesmos
padrões impostos aos demais cidadãos.
É aí que a autorização concedida pelo
ministro Cristiano Zanin para que a Polícia Federal investigue formalmente o
ministro Paulo Dias de Moura Ribeiro, do Superior Tribunal de Justiça,
representa um divisor de águas. Relator da Operação Sisamnes no STF, Zanin
acolheu pedido da PF e parecer favorável da Procuradoria-Geral da República
para que sejam investigadas decisões atribuídas ao gabinete de Moura Ribeiro,
que supostamente favoreceram interesses ligados ao lobista Andreson de Oliveira
Gonçalves e à advogada Miriam Ribeiro.
Entre as diligências autorizadas estão a
quebra dos sigilos bancário e fiscal de servidores, familiares e pessoas
relacionadas aos processos examinados. A investigação não significa condenação.
A própria Polícia Federal reconheceu que ainda não há prova da participação
direta do ministro Moura Ribeiro, que declarou desconhecer a existência de
investigação sobre decisões por ele proferidas. O devido processo legal exige
rigor na apuração, porém, respeito à presunção de inocência.
Rosário de casos
Desde a deflagração da Operação Sisamnes, em
novembro de 2024, o gabinete do ministro do STJ se tornou alvo direto da
investigação. A apuração nasceu de informações encontradas após o assassinato
do advogado Roberto Zampieri, em Cuiabá, e revelou uma possível rede de
lobistas, advogados e servidores que teria negociado minutas de votos,
informações sigilosas e decisões judiciais entre 2019 e 2023.
A Procuradoria-Geral da República já
denunciou nove pessoas por crimes como organização criminosa, corrupção, lavagem
de dinheiro, exploração de prestígio e violação de sigilo. Segundo a acusação,
ao menos R$ 4 milhões teriam sido transferidos por empresa ligada a Andreson
Gonçalves para uma firma pertencente à mulher de um servidor do STJ. As
responsabilidades deverão ser definidas judicialmente.
A venda de sentenças no Judiciário não é uma
novidade. Levantamento divulgado em 2025 já apontou invesVale a tigações e
processos relacionados à venda de decisões em 14 tribunais. A Operação Última
Ratio atingiu magistrados do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul; a
Operação 18 Minutos apurou suspeitas de manipulação de processos e desvios no
Tribunal de Justiça do Maranhão; e a Operação Inauditus aprofundou essas
investigações, com afastamentos e bloqueio de bens.
Em Mato Grosso, a própria Sisamnes alcançou
desembargadores, advogados e agentes políticos. Em São Paulo, a PGR denunciou o
desembargador Ivo de Almeida sob suspeita de corrupção e manipulação da
distribuição de processos. No Piauí, a Polícia Federal investigou o desembargador
José James Gomes Pereira por um possível esquema relacionado a disputas
agrárias.
Há casos mais antigos. A Operação Faroeste,
deflagrada em 2019, apurou a negociação de decisões relacionadas à grilagem e
às disputas por terras no oeste da Bahia e atingiu desembargadores, juízes,
advogados e empresários. Em 2015, a Operação Expresso 150 investigou a suposta
comercialização de habeas corpus e alvarás de soltura no Ceará. A Operação
Asafe, de 2010, examinou fraudes em julgamentos no Tribunal de Justiça e no
Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso.
A Operação Naufrágio investigou uma rede no Judiciário do Espírito Santo. Em 2007, a Operação Hurricane alcançou o então ministro do STJ Paulo Medina, posteriormente aposentado compulsoriamente, por suspeitas relacionadas à negociação de uma liminar. No mesmo período, a Operação Têmis investigou magistrados federais em São Paulo, embora a denúncia tenha sido rejeitada pelo STJ por falta de provas. Antes disso, a Operação Anaconda, de 2003, revelou um balcão de negócios na Justiça Federal paulista e resultou na condenação do ex-juiz João Carlos da Rocha Mattos. Na maioria dos casos, a punição dos magistrados envolvidos foi a aposentadoria compulsória.

Um comentário:
Os nomes das operações ao menos são criativos.
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