O Globo
É um comportamento persistente que não nasce
de evidências
Flávio Bolsonaro questionou a confiabilidade
das urnas brasileiras em evento com diplomatas estrangeiros na última
terça-feira. O episódio lembra o encontro com embaixadores convocado pelo então
presidente Jair Bolsonaro em julho de 2022 no qual também atacou as urnas.
O caso levou à inelegibilidade do
ex-presidente. Embora Jair Bolsonaro fosse à época presidente da República e
tivesse convocado os embaixadores usando a estrutura de governo e Flávio seja
apenas pré-candidato, convidado a um evento privado com diplomatas, o paralelo
se impõe.
Do ponto de vista da estratégia eleitoral, há duas explicações para o movimento arriscado de Flávio.
A primeira é que a retomada do discurso de
descrença nas urnas buscaria reenergizar a base depois do surgimento de novas
denúncias apontando vínculos com Daniel Vorcaro — entre elas, a foto com
Sicário em um hotel e as notas fiscais de consultoria advocatícia com empresas
ligadas ao Banco Master. Nessa explicação — de uma radicalização estratégica —,
Flávio estaria tomando emprestado do pai tanto os posicionamentos radicais em temas
como urnas e segurança pública quanto as lives inflamadas filmadas em ambiente
improvisado, com o propósito de agitar a militância.
A segunda explicação, mais especulativa, é
que Flávio poderia estar cavando a sua própria cassação. Se ele souber que a
Polícia Federal dispõe de evidências fortes de seus vínculos com Vorcaro,
poderia ser mais vantajoso para ele ser cassado e aparecer como mártir da
Justiça Eleitoral do que sangrar com as denúncias e perder para Lula com grande
margem. Porém, além de excessivamente especulativa, essa explicação não parece
consistente com a linguagem cuidadosa que Flávio adotou, enfatizando que não
põe em questão a confiabilidade das urnas brasileiras.
Seja como for, é preciso lembrar que, embora
seja certo que Flávio se posiciona sobre as urnas de maneira estratégica, não
há motivos para supor que ele — ou seu pai — o façam de maneira cínica. Tudo
leva a crer que os dois realmente têm dúvidas sobre a segurança das urnas — no
que são seguidos por milhões de brasileiros, como mostram as pesquisas. Supor
que eles sabem que as urnas são seguras, mas mentem e manipulam os seus
seguidores, é um grande equívoco de interpretação política.
As evidências reunidas nos inquéritos dos
atos antidemocráticos mostraram que Jair Bolsonaro usou dos recursos
institucionais do Estado brasileiro para investigar a questão da segurança das
urnas. Ele não forjou uma história e a difundiu, mas ficou tentando provar que
sua desconfiança tinha fundamento. Por isso, recebeu o hacker de Araraquara, incentivou
a formação da comissão de militares e encomendou o parecer do PL apresentado à
Justiça Eleitoral.
A fala de Flávio foi motivada pela
publicização, na semana passada, de um relatório da CIA relatando que o governo
venezuelano teria tentado fraudar as eleições de 2012 com urnas fornecidas pela
empresa Smartmatic. A empresa prestou serviços logísticos e de conexão de dados
ao TSE na década passada, mas nunca teve acesso à programação das urnas. A
ligação foi suficiente para Flávio alegar que as urnas brasileiras “têm a mesma
origem” das venezuelanas, o que é completamente falso. Em seguida, ressalvou
que não estava questionando o sistema de votação, mas apenas pedindo o
acompanhamento de observadores internacionais.
As suspeitas envolvendo a Smartmatic são
antigas. Em 2017, a empresa acusou o governo venezuelano de fraudar as eleições
e encerrou operações no país no ano seguinte. Naquele ano, Rodrigo Constantino,
então aliado dos Bolsonaros, escreveu que, se as urnas eletrônicas puderam ser
fraudadas na Venezuela, também poderiam ser fraudadas no Brasil. O argumento
foi usado nos anos de 2017 e 2018 e resgatado agora.
A desconfiança das urnas é um comportamento
persistente que não nasce de evidências. É como se os desconfiados buscassem
argumentos para sustentá-la, invertendo o ônus da prova. O comportamento é o
mesmo de outras desconfianças populistas contra instituições como a mídia ou a
Justiça. Flávio questiona as urnas pela razão mais banal e mais difícil de
combater: porque acredita que não são seguras — e porque sabe que não está
sozinho.

Nenhum comentário:
Postar um comentário