sexta-feira, 24 de julho de 2026

Pesquisa ou adivinhação? Por José de Souza Martins*

Valor Econômico

A proposta do presidente do TSE é apenas um gesto de policiamento indireto, que nem aponta os problemas estatísticos nem os resolve

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral convocou dirigentes de institutos de pesquisa de opinião para discutir procedimentos de investigação que neutralizem a interferência das pesquisas nos resultados da eleição. Criou um prêmio para as pesquisas que sejam confirmadas no resultado eleitoral.

Provavelmente o correto e seguro teria sido convocar um seminário de especialistas em matemática e estatística das boas universidades. E ouvi-los. Conhecedores que são das várias e diferentes mediações da pesquisa científica baseada em quantificação e das interferências que podem intencional ou acidentalmente sofrer.

Esses pesquisadores poderiam explicar que o conhecimento quantitativo nessa área não é adivinhação, nem é loteria ou aposta. Não expressa o acaso e o fortuito, mas o provável.

Diversamente do que supõe o ministro, a função de pesquisas desse tipo não é buscar informações objetivas sobre a certeza de resultados prováveis. Mas, principalmente, resultados improváveis, que revelem o nível de risco decorrente de fatores intervenientes na formação da opinião eleitoral. Os que permitam aos partidos e candidatos dirigirem-se aos eleitores para informá-los do que, nos seus respectivos programas, corresponde a suas expectativas sociais e políticas e a suas concepções do que deve ser a composição doutrinária de orientação de um novo governo.

A função das pesquisas eleitorais é a de dotar o eleitorado de condições de agir racionalmente, durante a campanha, nas escolhas que fizer. Não entre diferentes pessoas, que é o que equivocadamente se faz aqui, mas entre diferentes doutrinas e diferentes programas de concretização dos valores e concepções dessas doutrinas. Que os candidatos, no regime democrático, devem personificar. De modo a não serem eles mesmos na disputa eleitoral a sua vontade pessoal, mas personificação e expressão da necessidade social e da vontade política coletiva.

Na função política do político, na sociedade democrática, deve haver necessariamente uma certa renúncia a ser ele mesmo para ser a personificação do ser coletivo que a política é.

O próprio eleitor há de ser conscientizado de que deve impessoalizar-se para ser o outro na política, e não ele mesmo enquanto ser vulgar e cotidiano, no momento solene do registro do voto na urna eletrônica. Para que o faça em nome do todo de que é parte e protagonista, o sujeito coletivo do processo político.

Desse modo, avaliando e racionalmente decidindo seu voto para que tenha a maior probabilidade possível de contribuir para a formação de um governo democrático e representativo. Esse momento do processo político só pode existir como instrumento e expressão de uma vontade sociologicamente crítica.

A maioria dos nossos políticos e a dos agentes de nossas instituições políticas não sabe o que é isso. Não sabe qual é a enorme diferença entre a eleição de um governo e a eleição de miss. No Brasil, a vontade política é nivelada por baixo.

A proposta do ministro passa muito longe dessas premissas e dos problemas e dificuldades científicos da pesquisa de opinião eleitoral. É apenas um gesto de policiamento indireto da pesquisa. São tantos os fatores que enviesam a pesquisa eleitoral que esse policiamento nem aponta os problemas nem os resolve.

As pesquisas eleitorais são geralmente feitas de viva voz, no mínimo com a mediação de um intermediário que fala, cujo tom de voz, cujo timbre, cuja entonação pode involuntariamente induzir a resposta. O que discrepa da realidade da urna na hora de votar, que não tem um intermediário de voz. Essa discrepância invalida a possibilidade de que a resposta na pesquisa seja equivalente à resposta no voto. Mas não anula a interferência da pesquisa no voto.

Nas ciências sociais, mesmo com todas as cautelas do pesquisador competente, a pesquisa é indutora de resposta e sobretudo de mudança de comportamento e de consciência em relação ao tema investigado.

É claro que a escolha da região, da localidade, da categoria social, etária, racial, religiosa, de gênero de referência pode resultar em pesquisas discrepantes quanto ao mesmo objeto. Em resultados não generalizáveis. É óbvio, para qualquer conhecedor dessas técnicas, que instituições de pesquisa podem receber encomendas de informações de opinião eleitoral tendo em conta determinado setor da sociedade e, ao divulgá-los, não divulgam, exatamente, quais as características da população estudada.

Divulga-se obrigatoriamente o tamanho da amostra e o erro amostral, mas nunca é divulgado o viés investigativo intencional, o que já sugere antecipadamente a interpretação, que é o que afeta o resultado da pesquisa e até mesmo afeta a decisão eleitoral.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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