O Estado de S. Paulo
Com decisões erráticas e imprevisíveis, Trump representa hoje a maior fonte de risco para a economia global
Pela primeira vez desde março, os índices de ações S&P 500 e Nasdaq registraram duas semanas consecutivas de perdas, enquanto os juros pagos pelos títulos do Tesouro americano de 30 anos de prazo atingiram o maior nível desde 2007 e a taxa do papel do governo alemão de 10 anos chegou perto do pico observado em 2011. Uma análise apressada poderia dizer que isso foi resultado direto da alta nos preços do petróleo – em razão da nova escalada no conflito no Oriente Médio – ou das novas tarifas de importação dos Estados Unidos.
Na realidade, o que está por trás da forte
correção nos preços das ações, dos juros e das principais moedas internacionais
é a complacência reiterada dos investidores com a maior fonte de risco para os
mercados globais: Donald Trump. Não é nenhuma novidade o comportamento errático
e imprevisível do presidente americano, guiado aparentemente mais por motivos
financeiros imediatistas do que estratégicos, sobretudo de médio e longo prazo,
em termos de política externa ou comercial. Os constantes e inesperados
anúncios feitos nas suas postagens na rede social Truth Social, da qual é dono,
mais parecem vir de um operador do mercado financeiro do que de um líder da
maior democracia mundial – como ainda é classificada.
Então, por que os investidores embarcaram num
otimismo exagerado em junho, quando foi anunciado o memorando de entendimento
para um cessar-fogo entre EUA e Irã? Por que a estupefação agora quando o
presidente americano ameaçou “ataque massivo” contra o Irã? O preço do petróleo
Brent chegou a cair para perto de US$ 70 por barril, mas, na semana passada,
voltou a superar US$ 100 no auge do estresse. E por que os investidores não
ficaram à espera de Trump contornar as restrições impostas pela Suprema Corte americana
às tarifas adotadas no início de 2025? Por que o anúncio das novas sobretaxas
de 10% a 12,5% sobre os produtos de 60 países pegou os mercados no contrapé?
A postura dos investidores globais tem sido a
de que as ameaças de Trump não passariam de uma tática de negociação para
extrair concessões de aliados ou de inimigos, sem distinção. E de que o
presidente americano sempre recua. De fato, ele já voltou atrás nas suas
palavras várias vezes. Mas a situação geopolítica e econômica do mundo vem
piorando progressivamente. É um passo para frente e dois para trás. O saldo é
negativo. O problema é que as decisões cruciais para o equilíbrio do planeta
estão concentradas numa única pessoa: Trump. E esse é um risco que não pode
mais ser negligenciado.

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