quarta-feira, 29 de julho de 2026

O risco da complacência com Donald Trump, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Com decisões erráticas e imprevisíveis, Trump representa hoje a maior fonte de risco para a economia global

Pela primeira vez desde março, os índices de ações S&P 500 e Nasdaq registraram duas semanas consecutivas de perdas, enquanto os juros pagos pelos títulos do Tesouro americano de 30 anos de prazo atingiram o maior nível desde 2007 e a taxa do papel do governo alemão de 10 anos chegou perto do pico observado em 2011. Uma análise apressada poderia dizer que isso foi resultado direto da alta nos preços do petróleo – em razão da nova escalada no conflito no Oriente Médio – ou das novas tarifas de importação dos Estados Unidos.

Na realidade, o que está por trás da forte correção nos preços das ações, dos juros e das principais moedas internacionais é a complacência reiterada dos investidores com a maior fonte de risco para os mercados globais: Donald Trump. Não é nenhuma novidade o comportamento errático e imprevisível do presidente americano, guiado aparentemente mais por motivos financeiros imediatistas do que estratégicos, sobretudo de médio e longo prazo, em termos de política externa ou comercial. Os constantes e inesperados anúncios feitos nas suas postagens na rede social Truth Social, da qual é dono, mais parecem vir de um operador do mercado financeiro do que de um líder da maior democracia mundial – como ainda é classificada.

Então, por que os investidores embarcaram num otimismo exagerado em junho, quando foi anunciado o memorando de entendimento para um cessar-fogo entre EUA e Irã? Por que a estupefação agora quando o presidente americano ameaçou “ataque massivo” contra o Irã? O preço do petróleo Brent chegou a cair para perto de US$ 70 por barril, mas, na semana passada, voltou a superar US$ 100 no auge do estresse. E por que os investidores não ficaram à espera de Trump contornar as restrições impostas pela Suprema Corte americana às tarifas adotadas no início de 2025? Por que o anúncio das novas sobretaxas de 10% a 12,5% sobre os produtos de 60 países pegou os mercados no contrapé?

A postura dos investidores globais tem sido a de que as ameaças de Trump não passariam de uma tática de negociação para extrair concessões de aliados ou de inimigos, sem distinção. E de que o presidente americano sempre recua. De fato, ele já voltou atrás nas suas palavras várias vezes. Mas a situação geopolítica e econômica do mundo vem piorando progressivamente. É um passo para frente e dois para trás. O saldo é negativo. O problema é que as decisões cruciais para o equilíbrio do planeta estão concentradas numa única pessoa: Trump. E esse é um risco que não pode mais ser negligenciado.

 

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