quarta-feira, 29 de julho de 2026

Os três caminhões de Argirita e o novo ofício do deputado federal, por Jairo Nicolau

Política & Dados

Uma cena numa cidade mineira e o que ela revela sobre a nova realidade das emendas parlamentares

Há poucas semanas fui a uma festa da família em Argirita, simpática cidade da Zona da Mata de Minas Gerais. Argirita tem uma população de cerca de 2.700 habitantes (2025) e tem a estrutura de centenas de pequenas cidades brasileiras: um núcleo urbano, que se organiza em torno da igreja matriz e de uma praça, e uma área rural, onde reside uma pequena fração da população do município.

Passeando pela cidade fiquei surpreso ao encontrar na praça principal, três caminhões estacionados, com uma faixa estendida entre eles, com os seguintes dizeres:

Consultando a excelente Plataforma Sólon, que disponibiliza dados sobre o valor das emendas transferidas para cada município, descobri que somente em 2026, Argirita recebeu 3 milhões de reais de emendas de deputados federais e senadores. O deputado Luiz Fernando (PSD) alocou valores expressivos na cidade nos últimos dois anos.

Não tenho como avaliar qual é a utilidade dos três caminhões novos para Argirita (minha intuição é que eles devem ser úteis), nem consegui saber como foram gastos os recursos das outras emendas parlamentares. Mas a partir desse episódio e de outros relatos, tenho pensado em dois efeitos da maciça utilização das emendas parlamentares no país.

O primeiro é o eventual conflito entre as políticas públicas tradicionais e as emendas parlamentares;

O segundo é como a nova modalidade de emendas (que associa altos valores à obrigatoriedade de execução das emendas) tem transformado a relação dos deputados com o Executivo e as suas bases eleitorais.

Nos últimos meses, as emendas parlamentares têm sido alvo de investigação do STF e dos órgãos de controle. Há muitas denúncias de casos de corrupção. Não é um exercício muito sofisticado imaginar que deve haver desvio de recursos em muitas fases do processo (da seleção dos beneficiários até o gasto dos recursos e prestação de contas) de implementação das emendas. Apesar de fundamental, não tratarei dessa dimensão neste texto.

As emendas parlamentares rivalizam com as políticas públicas?

Desde os anos 1990, a aprovação e liberação de emendas do orçamento passou a ser uma atividade central na atividade de deputados federais (Para quem quiser saber mais sobre o tema recomendo o excelente livro do antropólogo Marcos Bezerra, cuja cópia está disponível aqui). Nesse período, a aprovação de uma emenda não garantia a sua execução, e o valor total que cabia a cada parlamentar era muito inferior ao atual. Mesmo no caso da não execução pelo Executivo, o fato de tê-la aprovado já possibilitava que um deputado sinalizasse para as suas bases sua intenção de favorecê-las.

Assim que as emendas parlamentares começaram a ganhar mais relevância no Governo de Fernando Henrique comecei a ouvir críticas de pessoas da área de saúde e infraestrutura a respeito da possível rivalidade e sobreposição entre as políticas tradicionais e a discricionariedade dos gastos via emendas parlamentares.

Imagine que o município de Argirita necessite de três caminhões. Provavelmente, outros municípios também precisem de caminhões, mas não foram contemplados com nenhuma emenda para esse fim. Outras cidades, embora não precisem tão urgentemente de caminhões, mesmo assim conseguem renovar a frota, e receber mais alguns caminhões novinhos.

Quem acompanha política sabe que a alocação das emendas passa por critérios de necessidade dos municípios e das organizações contempladas, mas também decorre da capacidade política das lideranças municipais e das dirigentes das organizações. Municípios com menos capacidade de articulação política e pequeno eleitorado tendem a ser menos favorecidos. O mesmo acontece com organizações cujas lideranças têm menor capacidade de mobilização e contatos políticos.

Alguns cientistas políticos sustentam que esse não é um grande problema, e que haveria uma espécie de “mão invisível da política” que equilibraria as demandas. Em busca de votos, os políticos iriam atrás de cidades não contempladas com emendas, de modo que, ao final, apesar de eventuais ineficiências, haveria uma tendência em que todas as cidades receberiam recursos e teriam suas demandas atendidas.

Tenho uma visão mais convencional. Sei que ela soa ingênua, mas vamos lá: acho que as políticas públicas devem ser definidas a partir de critérios técnicos, definidos prioritariamente por agentes e especialistas do Poder Executivo. Desse modo, caberia, por exemplo, à secretaria estadual de obras (ou infraestrutura) definir que cidades necessitam de caminhões e quais já têm caminhões de sobra.

Para ilustrar o desafio, cito um exemplo da minha área: conheço alguns projetos de pesquisa universitária que receberam recursos de emenda de parlamentares para serem desenvolvidos. Todos merecedores. Mas essa iniciativa compete com o balcão de agências como FINEP, CAPES e CNPq, que são orientadas por concurso e avaliação por pares.

Já existem algumas iniciativas de pesquisa para avaliar a nova realidade de emendas parlamentares. Mas, até onde pesquisei, não encontrei nenhum estudo amplo sobre como elas podem estar afetando determinadas políticas públicas ao longo do tempo.

De vereadores federais aos gabinetes-empresa

No início do ano de 2026, a previsão era que cerca de R$ 61,2 bilhões seriam enviados pelos senadores e deputados aos seus redutos eleitorais.

Ouvi de um funcionário da Câmara dos Deputados que o volume de recursos recebido pelos deputados dessa legislatura é tão grande, que muitos deles precisaram contratar contadores para trabalhar no gabinete. Não sei se o deputado Luiz Fernando tem contador, mas ele já empenhou, somente em 2026, 37,3 milhões, distribuídos por mais de 40 municípios de Minas Gerais.

Alguns anos atrás, deputados que priorizavam a intermediação entre seus redutos eleitorais e Brasília eram chamados de vereadores-federais. Eles tinham pouco interesse em aparecer na grande imprensa nacional, priorizavam a liberação de emendas para os municípios onde haviam sido votados (ou que pretendiam ser votados) e intermediavam a relação de prefeitos com o Executivo. Pode parecer prosaico hoje, mas houve um tempo em que um deputado podia promover encontros entre lideranças locais e um ministro.

Minha impressão é que um dos efeitos da nova realidade das emendas milionárias é que o deputado federal passou a ter uma capacidade de “entregar” recursos para suas bases que mudou a sua relação com o Executivo e, arriscaria dizer, com a própria atividade parlamentar.

Um deputado com seu gabinete-empresa e capacidade de liberar recursos e fazer as “coisas acontecerem” nos municípios e organizações é um ser novo na política brasileira. Ele precisa menos do Executivo (e pode ter mais autonomia em relação às votações de interesse do Governo) e tem menos incentivo para atividade parlamentar clássica, tais como participação em comissões, apresentação de projetos de lei e participação em debates em plenário.

Perspectivas eleitorais

A eleição de 2026 será a terceira em que os políticos utilizarão o Fundo Eleitoral para financiar as suas campanhas eleitorais. Vale lembrar que os partidos têm autonomia para gastar os recursos do fundo e podem distribuí-los como quiserem.

Nas duas eleições anteriores, um número expressivo de deputados federais obteve recursos para as suas campanhas próximos ao teto de gastos definido pelo TSE, enquanto candidatos sem mandato receberam valores inferiores. E o mesmo acontece com a distribuição do tempo do horário de propaganda eleitoral, que tradicionalmente é maior para os candidatos com mandato. Isso deve acontecer novamente neste ano. A decisão de alguns partidos de não lançarem candidatos a presidente e a governador terá como consequência a disponibilidade de mais recursos para as campanhas de deputados federais e estaduais.

A combinação de um volume inédito de liberação de recursos para as bases eleitorais e a garantia de volumes de financiamento máximo (ou próximo disso) devem dar para os políticos com mandato uma vantagem maior do que a que vimos em outras campanhas. Por isso, é muito provável que a taxa de reeleição de deputados federais aumente consideravelmente.

Não sei se o deputado Luiz Fernando é candidato à reeleição. Mas se for, assim que os dados forem publicados, vou tentar saber quantos votos ele obteve em Argirita.


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