quarta-feira, 29 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Adesão do Brasil a iniciativa chinesa em IA exige cautela

Por O Globo

Em questão ainda em ebulição e tão decisiva, país deve pesar prós e contras antes de tomar qualquer decisão

Deve ser vista com reservas a adesão do Brasil à Organização Internacional de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), entidade liderada pela China que reuniu até agora um punhado de outras nações sem relevância no mapa da IA, sob a difusa bandeira do Sul Global. Não há dúvida de que o Brasil precisa estabelecer cooperação científica e tecnológica com outros países, além de manter diálogo com organizações internacionais. Mas o pano de fundo da iniciativa recomenda cautela. Está em curso uma disputa pelo protagonismo da IA opondo chineses e americanos — e nem entre estes últimos há consenso sobre o caminho a adotar. Em contexto tão relevante quanto incerto, a adesão brasileira pode ser vista como alinhamento à esfera de influência de Pequim, algo que não interessa ao Brasil.

A lista de países arregimentados na Waico é sintomática. O Brasil aparece ao lado de países como Camboja, Camarões, Congo, Cuba, Mianmar, Nicarágua, Rússia, Tadjiquistão, Uzbequistão, Venezuela ou Zâmbia. Com exceção da própria China, nenhum tem expressão no universo da IA. Chama a atenção a ausência de nações desenvolvidas e grandes economias emergentes como Índia, México ou Coreia do Sul. O governo americano atraiu para aliança similar países como Austrália, Japão e Reino Unido. A Waico reflete a tentativa chinesa de assegurar predominância a seus modelos de IA.

Em desempenho, os modelos chineses ficam atrás dos americanos de ponta. Mas têm encurtado a distância. Empresas chinesas adotaram um paradigma de desenvolvimento aberto. Em contraste com as líderes americanas, tornam público o ajuste das “manivelas e alavancas” que fazem seus modelos funcionar, conhecidas como “pesos”. Isso incentiva o uso, o treinamento e o aperfeiçoamento desses modelos.

Preocupado com a segurança nacional, o governo Donald Trump tem apoiado modelos de “pesos fechados” e vetado acesso às versões mais avançadas. Mas uma coalizão de gigantes digitais americanas, incluindo Microsoft, Meta e Nvidia, publicou um manifesto defendendo o paradigma de “pesos abertos” dos chineses. O documento afirma que ele favorece a inovação e é, na realidade, mais seguro que as caixas-pretas de OpenAI ou Anthropic.

A questão está no fulcro da disputa com a China, e a Waico tenta fortalecer o paradigma chinês. “O domínio da IA definirá o equilíbrio econômico e geopolítico das próximas décadas”, afirma a pesquisadora de IA Dora Kaufman, da PUC-SP. O Itamaraty diz que a nova organização estimulará a cooperação tecnológica. O propósito é legítimo. O Brasil precisa avançar em IA. Mas, numa questão ainda em ebulição e tão decisiva, deve pensar nos prós e contras antes de tomar qualquer decisão.

Por ter vantagens comparativas para instalação de infraestrutura, o país precisa elaborar um plano estratégico sobre como se colocar na disputa entre Estados Unidos e China. Depois da assinatura do acordo, a adesão à Waico terá de ser aprovada pelo Legislativo. Será uma oportunidade para discuti-la a fundo — de forma técnica. A pergunta que deve nortear o debate é se o país precisa aderir a uma iniciativa que parece guiada mais pelo interesse chinês que pelo brasileiro. Como serão governança, proteção de dados e liberdade de expressão numa organização com sede em Pequim que reúne várias ditaduras? O Congresso Nacional é o local para um debate frutífero sobre o tema.

Congresso continua a contribuir para transformar setor elétrico num caos

Por O Globo

Última iniciativa é um ‘jabuti’ — mais um — para construir térmicas longe do consumo e da distribuição

O setor de energia sabe como poucos conquistar vantagens com a ajuda do Congresso. O roteiro é conhecido. Projetos de lei (PLs) são criados sem objetivo controverso. No meio do caminho, acabam desfigurados com “novidades” sem relação com a proposta inicial — os famigerados “jabutis”. Quando são aprovados, o resultado é invariavelmente uma conta de luz mais cara para o consumidor. Quando são barrados, muitas vezes voltam mais tarde em nova versão, os “jabutis zumbis”. O PL 5.017 é o último exemplo dessa categoria insepulta. Os senadores deveriam reconhecer a contribuição que o Congresso tem dado para transformar o setor elétrico num caos — e repudiá-lo.

Aprovado na Câmara para ampliar o desconto na tarifa de energia para iniciativas de irrigação e perfuração de poços semiartesianos, o PL 5.017 foi desfigurado no Senado. Na versão atual, torna obrigatória a contratação de usinas térmicas e pequenas hidrelétricas, a expansão da infraestrutura de gás natural e aumenta os subsídios. O custo? Despesa anual extra de, no mínimo, R$ 44,2 bilhões na conta de luz a partir de 2032, de acordo com cálculos da Abrace Energia, entidade que representa grandes consumidores de eletricidade. Para comparar, os subsídios pagos em 2025 pelos consumidores de energia somaram R$ 57,1 bilhões, de acordo com dados da Aneel.

Uma das facetas do PL 5.017 é a exigência de construção de térmicas onde não há rede de gasodutos ou linha de distribuição. O texto também determina a contratação de 2,5GW de termelétricas a gás com a obrigação de o consumidor pagar 70%, quer use a eletricidade, quer não. Estipula até o tamanho das usinas (500MW cada) e sua localização: Goiás, Distrito Federal e região, Rondônia, Triângulo Mineiro e Região Metropolitana de São Luís. Tais propostas não foram fruto de análises técnicas tendo em vista o benefício de todos. Reproduzem apenas demandas de segmentos do setor privado com trânsito no Congresso. Ora, é do Executivo a prerrogativa de analisar a infraestrutura, elaborar projeções de demanda e planejar a expansão do setor elétrico. Há instituição pública capacitada para desempenhar precisamente essa tarefa. Ainda assim, não faltam intromissões do Congresso no planejamento. O PL 5.017 é apenas a mais nova tentativa de perpetuar esse arranjo descabido.

Não há como tal arranjo dar certo para o consumidor. O setor elétrico brasileiro, antes exemplar, se tornou sinônimo de desorganização e pressão por vantagens. Querem vantagem para quem produz a energia, para quem transporta o gás, para quem constrói o gasoduto, para a linha de transmissão. Quem perde é o consumidor. Quando se pensa em desvio de função do Congresso, logo se fala nos abusos associados às emendas parlamentares. Eles são de fato um despropósito. Mas a sequência recorrente de PLs para favorecer grupos de pressão do setor elétrico está na mesma categoria.

Ataque ao consumidor de energia

Por Folha de S. Paulo

Projeto aprovado às pressas cria gastos bilionários para o setor elétrico e compromete modicidade tarifária

Entre 2001 e 2020, a tarifa subiu 351%, muito acima da inflação de 230%; a das residências está entre as mais altas do mundo

A conta de luz do brasileiro já está entre as mais caras do mundo para um país de renda média. Ainda assim, o Congresso Nacional parece disposto a encarecê-la ainda mais. Um substitutivo apresentado de última hora ao projeto de lei 5.017 de 2019 reúne uma coleção de "jabutis" que pode elevar as tarifas em até R$ 1,5 trilhão nas próximas décadas.

Trata-se de um dos mais graves ataques ao consumidor e à racionalidade da política energética.
O problema não está apenas no conteúdo, mas também no método. Um projeto originalmente voltado à ampliação de descontos para irrigação transformou-se em um texto que altera sete leis e cria novas obrigações para o setor elétrico.

O substitutivo surgiu fora da pauta, foi apresentado no fim do período legislativo, lido somente em resumo e aprovado simbolicamente por uma comissão esvaziada. Um rito dessa importância não pode impor custos que recairão sobre consumidores por décadas.

O pacote ressuscita pressões de grupos de interesse. Inclui contratações compulsórias de termelétricas e pequenas hidrelétricas, amplia subsídios e altera a Lei da Eletrobras sem respaldo de estudos do Executivo, da Empresa de Pesquisa Energética ou do Operador Nacional do Sistema.

A medida mais onerosa obriga a contratação de termelétricas a gás na amazônia, vinculadas a projetos estruturantes da região Norte, exige infraestrutura de produção e transporte do combustível e pode custar R$ 902,5 bilhões em 30 anos. Beneficiam-se investidores dessa cadeia produtiva, mas transfere-se integralmente a conta aos consumidores.

Somadas às demais medidas, as despesas adicionais podem chegar a R$ 1,2 trilhão —ou R$ 1,5 trilhão, considerando outras alterações na Lei da Eletrobras. O impacto estimado é um aumento médio de cerca de 11% nas tarifas entre 2032 e 2035, incorporando R$ 50 bilhões aos custos anuais para as famílias e empresas.

O despropósito contrasta com o diagnóstico do Tribunal de Contas da União. Entre 2001 e 2020, a tarifa dos consumidores regulados subiu 351%, muito acima da inflação de 230%. O TCU também apontou que a tarifa residencial está entre as mais altas do mundo para um país com renda per capita muito inferior à das economias desenvolvidas.

Em vez de aproveitar a abundância de hidrelétricas, eólicas, solares e do gás do pré-sal para reduzir custos, o país insiste em subsídios cruzados e obrigações artificiais que encarecem o sistema e beneficiam lobistas.

Ainda há tempo de barrar esse desatino. O projeto precisa passar pelo escrutínio das comissões técnicas e do plenário, com transparência e debate público.

Não é aceitável que "jabutis" aprovados às pressas imponham aos cidadãos uma conta trilionária por décadas. A política energética deve atender ao interesse coletivo, e não transformar privilégios privados em custos permanentes para toda a sociedade.

Escola sem violência

Por Folha de S. Paulo

Casos de agressões e pesquisas mostram que o país precisa enfrentar a fragilidade disciplinar no ensino

Segundo levantamento do Centro do Professorado Paulista de 2025, 65% dos docentes já haviam sofrido alguma agressão no ambiente escolar

A partir da segunda metade do século 20, consolidou-se globalmente uma mudança no paradigma disciplinar da educação, com a passagem de um modelo hierárquico rígido e punitivo para outro centrado nos direitos da criança, na participação do estudante e em formas não violentas de disciplina.

Tal avanço civilizatório não implica falta de regras claras de conduta e de respeito a figuras de autoridade. O Brasil, porém, enfrenta dificuldades nessa seara.

Relatos de agressões contra professores compõem um cenário de problema disciplinar revelado por pesquisas. O caso recente da professora Michele Ramos, que registrou boletim de ocorrência após alunos colocarem uma lâmina de vidro em seu copo de água durante a aula numa escola municipal de São José dos Campos (SP), é um deles.

Segundo levantamento do Centro do Professorado Paulista de 2025, 65% dos docentes já haviam sofrido alguma agressão no ambiente escolar e 74% não se sentiam seguros em sala de aula. A violência verbal representa 71% das agressões, seguida pela psicológica e moral (58%), institucional (27%) e física (19%).

Pesquisa da OCDE de 2024 mostra que 47% dos professores brasileiros disseram que sofrer intimidação ou abuso verbal por alunos era uma fonte relevante de estresse, ante a média de 18% dos cerca de 50 países analisados.

O Brasil tem as maiores proporções de docentes que dizem perder muito tempo esperando os alunos se aquietarem (43%) ou por causa de interrupções (44%), enquanto as médias da OCDE são, respectivamente, de 15% e 18%.

Casos graves de violência devem ser tratados por meio de investigação policial. Mas a situação mostra que são necessárias ações de prevenção e responsabilização e para que o ambiente em sala de aula se torne mais tranquilo; os pais também precisam atuar no campo disciplinar.

Em relatório sobre o tema, a Unicef faz uma série de recomendações, como a criação de protocolos específicos para agressões, de mecanismos nacionais e estaduais acessíveis de notificação, encaminhamento e monitoramento dos casos e de programas com atividades de cooperação, gestão de conflitos, autocuidado e reconhecimento das emoções.

Especialistas também apontam a necessidade de maior integração entre a escola e as famílias, além da valorização dos professores e do ensino, já que a política disciplinar perde eficácia com salas superlotadas, grande rotatividade docente, infraestrutura precária e ausência de atendimento especializado.

A degradação da relação Brasil-Argentina

Por O Estado de S. Paulo

Os insultos de Milei em solo brasileiro e as reações descabidas de membros do governo Lula aprofundam uma crise que não serve aos interesses das duas maiores economias da América do Sul

Nem Luiz Inácio Lula da Silva nem Javier Milei estão à altura da relação que Brasil e Argentina construíram desde os anos 80 do século passado, a partir da visão de um futuro em comum compartilhada primeiramente pelos presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín. Entreveros sempre houve, como mostra a imorredoura rivalidade no futebol, mas nada se compara ao que Lula e Milei estão protagonizando há anos, degradando uma relação que é boa para ambas as partes. Chefes de Estado não precisam nutrir afeto uns pelos outros, mas devem ter a decência e o espírito público de conter o ego, os cálculos eleitorais e os vieses ideológicos em nome do interesse maior de seus países.

Essa degradação atingiu o ponto mais baixo há alguns dias, no infame discurso de Milei no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, em que o argentino atacou, com palavrões e vitupérios, o presidente Lula e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Jamais um presidente de país estrangeiro havia feito isso no Brasil, e por razões óbvias: isso não se faz. Mas Javier Milei é da nova cepa de políticos que fazem do desrespeito aos padrões mínimos de decência e decoro seu principal ativo eleitoral. Milei, como seu ídolo Donald Trump, desconhece limites éticos e morais.

Mas isso é problema lá dos argentinos. O nosso é Lula, que há muito tempo, a título de ajudar os companheiros esquerdistas da América do Sul, vem se intrometendo em eleições e na política de países vizinhos, a começar pela Argentina. Ao fazê-lo, o petista também desrespeita os argentinos e a histórica parceria entre os dois países. A degradação das relações entre Brasil e Argentina, portanto, é uma obra conjunta.

A relação bicentenária entre Brasil e Argentina atravessou fases de maior ou menor afinidade pessoal entre os presidentes, sem que isso jamais comprometesse o fluxo de negócios e de cidadãos, os intercâmbios culturais ou a parceria estratégica que fez dos dois países fundadores do Mercosul. Mesmo nos piores momentos, sempre prevaleceu a compreensão de que os interesses comuns aos dois países são muito maiores do que as veleidades de seus presidentes.

É o que se espera agora, a despeito da profunda deselegância de Milei e da reação infantil de parte do governo Lula – como a do ministro da Fazenda, Dario Durigan, que chamou o presidente argentino de “palhaço”, ou a do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, que descreveu Milei como uma “caricatura patética”, um “puxa-saco” de Trump. São comportamentos indignos de ministros de Estado, razão pela qual o próprio Itamaraty os reprovou.

Não estamos num estádio de futebol, lugar ideal para extravasar velhos rancores nacionais entre brasileiros e argentinos. Estamos no terreno da representação do Estado brasileiro, que por definição deve estar acima das paixões e ideologias. Assim, fez bem o presidente Lula ao instruir seus diplomatas a não escalar a crise e tratá-la estritamente no âmbito da etiqueta das relações internacionais – e, nesse sentido, a decisão do chanceler Mauro Vieira de convocar o embaixador argentino em Brasília para explicações, além de chamar para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires, foi suficiente para expressar a gravidade da situação. Desse modo, o tempo haverá de arrefecer os ânimos e preservar uma relação que muito nos interessa.

Se há um aspecto positivo nessa crise fabricada por interesses mesquinhos é que, a despeito do desgaste na cúpula dos governos de Brasil e Argentina, nenhum contrato foi rompido, nenhum acordo comercial foi abandonado. Nos escalões abaixo da presidência, a engrenagem segue funcionando com normalidade, prova de que a tensão não é estrutural, mas circunstancial, dominada pelo calendário eleitoral de cada país.

As declarações de Milei, Durigan e Boulos são deploráveis e merecem profundo repúdio. Mas, no que realmente importa, Lula fará bem ao Brasil se essa crise com o país vizinho sair de seu gabinete menor do que entrou, preservando os laços históricos e a sinergia entre as duas maiores economias da América do Sul.

O recado dos leilões vazios

Por O Estado de S. Paulo

Os leilões frustrados de 2026 expõem a fase mais difícil do Marco do Saneamento, na qual juros altos, projetos complexos e fragilidade estatal testam as metas de universalização

Como mostrou uma recente reportagem do Estadão, quatro lotes de uma parceria público-privada de saneamento do Ceará foram a leilão sem receber uma única proposta. Em Goiás, licitações ligadas à Saneago também frustraram expectativas. Os sinais causam estranheza num país que ainda precisa levar água tratada e coleta de esgoto a milhões de habitantes. Se a demanda é tão grande, por que faltaram investidores?

A resposta apressada seria decretar o fim do entusiasmo despertado pelo Marco Legal do Saneamento. Os fatos não autorizam essa conclusão. Desde 2020, concessões e privatizações mobilizaram dezenas de bilhões de reais, ampliaram a presença privada e estimularam um ambiente mais competitivo. Grandes operadores continuam comprometidos com investimentos vultosos. O arrefecimento de 2026 merece atenção, mas está longe de representar uma fuga do capital.

O saneamento entrou numa etapa mais difícil. O primeiro ciclo ofereceu ativos atraentes, com áreas densas, receitas previsíveis e oportunidades de ganho de escala. A marcha rumo à universalização alcança agora municípios menores, populações mais pobres, redes precárias e obras de retorno incerto. Ao mesmo tempo, os principais grupos já assumiram concessões extensas. Continuam procurando oportunidades, mas examinam cada contrato com o rigor de quem precisa entregar o que já comprou.

Os juros altos acentuaram essa seletividade. Mas a Selic conta apenas parte da história. Sob a mesma conjuntura, alguns leilões atraíram concorrentes e outros ficaram vazios. Os juros funcionaram como teste de estresse: ampliaram o peso de dúvidas sobre receitas, garantias, estabilidade regulatória e divisão de riscos.

Ceará e Goiás entenderam o recado, e decidiram reavaliar seus modelos, ouvindo potenciais interessados a fim de identificar quais exigências afastam concorrentes, quais riscos foram precificados de maneira irrealista e quais garantias precisam ser reforçadas. O poder público deve preservar os padrões técnicos e resistir a pleitos oportunistas. Também precisa reconhecer que publicar um edital não converte automaticamente carência social em projeto financiável.

Leilões esvaziados podem refletir o ambiente macroeconômico, a cautela de operadores com carteiras carregadas ou características do ativo. Em qualquer hipótese, recomendam o reexame de projeções, custos, metas e obrigações. Uma modelagem concebida para acomodar promessas políticas – tarifa baixa, investimento acelerado, aporte público mínimo e risco concentrado no concessionário – talvez renda uma boa cerimônia de lançamento, mas dificilmente produzirá propostas competitivas ou serviços duradouros.

Há uma conta que governos preferem deixar implícita. Em regiões pobres ou pouco densas, a tarifa pode ser insuficiente para bancar as obras exigidas até 2033. A regionalização e os subsídios cruzados ajudam a combinar municípios superavitários e deficitários, mas têm limites. Alguns projetos precisarão de garantias ou aportes públicos. São instrumentos legítimos, desde que tenham foco social, custo fiscal conhecido e regras transparentes. Esconder a despesa em projeções otimistas ou empurrá-la para tarifas impraticáveis apenas prepara a frustração seguinte.

Longe de reduzir as responsabilidades do Estado, o marco as ampliou. Concessões privadas exigem governos capazes de produzir dados confiáveis, organizar lotes, contratar estudos, distribuir riscos com sensatez e fiscalizar por décadas. Exigem também agências técnicas, protegidas da conveniência eleitoral e da captura empresarial. Muitos Estados e municípios carecem de equipes para tarefas dessa complexidade. O BNDES e organismos multilaterais podem oferecer conhecimento e financiamento, mas não substituem a responsabilidade do concedente.

A boa lei de 2020 abriu o mercado e produziu resultados. Os certames frustrados corrigem a ilusão de confundir leilões com universalização, sem dar razão aos adversários da reforma. A nova fase cobrará melhor administração, contratos realistas, regulação estável e honestidade sobre quem pagará pelos projetos difíceis. O Brasil já reformou as regras do saneamento. O destino das promessas do marco será decidido na capacidade cotidiana de executá-las.

Gol contra do Corinthians

Por O Estado de S. Paulo

Ao aceitar patrocínio de site de conteúdo adulto, o clube desrespeita mulheres e crianças

Encerrada a Copa do Mundo, o Campeonato Brasileiro de futebol retornou com uma novidade inquietante. O uniforme do Corinthians, time que tem a segunda maior torcida do País, agora serve de veículo para a divulgação de um site de conteúdo adulto.

Em português claro, trata-se de propaganda de conteúdo erótico, que evidentemente não deveria ser veiculada num ambiente frequentado por mulheres e crianças – e é espantoso que o Corinthians tenha aceitado fazê-lo.

Não é o primeiro caso desse tipo. No início de julho, a Justiça de Alagoas determinou que o CSA, um dos principais times do Estado, retirasse de todas as suas camisas e materiais promocionais a marca de um site de “acompanhantes” que pertence ao mesmo grupo que agora patrocina o Corinthians. A Justiça alagoana considerou que a dita propaganda expunha de maneira indiscriminada crianças e adolescentes a um “estímulo inadequado ao seu regular desenvolvimento”, uma clara afronta ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Mas a empresa questionada na Justiça segue inabalável com a estratégia de naturalizar a divulgação de suas atividades para um público amplo e irrestrito, como escancara o acordo de patrocínio ao Corinthians.

Sob o cínico argumento de que cumpre a legislação porque se limita a exibir a marca do site de conteúdo adulto, sem qualquer imagem ou conteúdo impróprio a crianças e adolescentes, a empresa pagará R$ 22 milhões até o final de 2027 para aparecer no uniforme do clube paulista. O valor do contrato pode chegar a R$ 31 milhões caso seja estendido até o final de 2028.

Ora, não é preciso divulgar imagens de cunho erótico nos uniformes dos jogadores para gerar tráfego para o site da empresa. Qualquer um que veja a marca estampada pode rapidamente pesquisá-la e acessá-la na internet.

Não é por outra razão que, por lei, empresas de bebidas alcoólicas não podem aparecer nas camisas dos clubes de futebol. Já há uma condenável leniência com esse tipo de propaganda nas transmissões esportivas, mas pelo menos existe um limite.

Logo, cabe às autoridades competentes agir e eliminar quaisquer potenciais brechas jurídicas exploradas pelas empresas de acompanhantes e conteúdo adulto para fazerem do esporte mais popular do País sua plataforma de vendas.

Ao se associar a esse tipo de empreendimento, o Corinthians entra em flagrante contradição com sua defesa de causas sociais, sobretudo em relação às mulheres. Chega a ser irônico que o clube cujo slogan de seu time feminino é “respeite as minas” as desrespeite de modo tão insensível. O Corinthians informa que a propaganda do site de conteúdo adulto não vai aparecer no uniforme do time feminino. Era só o que faltava.

A crise financeira do Corinthians é crônica e imensa, mas não pode servir de desculpa para que se aceite dinheiro de anunciantes cujos propósitos são prejudiciais aos meninos e meninas que resolveram torcer pelo time. Ao fazê-lo, o Corinthians não só desrespeita as crianças e as mulheres, como degrada sua própria marca. Em outras palavras, é um baita gol contra.

Crise climática pode tirar até 15% do PIB per capita global

Por Valor Econômico

Se as expectativas de um super El Niño se confirmarem, somente esse evento pode gerar perdas econômicas no primeiro ano da ordem dos US$ 686 bilhões

As mudanças climáticas são frequentemente apresentadas como um desafio ambiental, mas novos estudos sugerem que também representam uma grande ameaça ao crescimento econômico - e que os custos da inação dos governos são elevados. Pesquisadores estimam que, até 2050, as mudanças climáticas poderão reduzir o PIB per capita global entre 3% e 15% em cenários de aquecimento plausíveis. Esse impacto será ainda maior nos países de baixa renda e renda média baixa, que hoje já são entre 4% e 12% mais pobres em termos de PIB per capita devido a mudanças nas temperaturas locais e à elevação do nível do mar. A mensagem dos pesquisadores é clara: os governos precisam incorporar o risco climático ao planejamento econômico convencional.

Pesquisadores do Grantham Research Institute on Climate Change and the Environment na London School of Economics and Political Science, em parceria com a Coalizão de Ministros das Finanças para a Ação Climática, combinaram os resultados de quase 300 estudos e mais de 6.000 estimativas distintas sobre as consequências das mudanças climáticas e dos investimentos em adaptação no relatório “The macroeconomic case for investing in climate adaptation”.

O relatório ressalta que a adaptação não deve ser vista como um custo, mas sim como um investimento estratégico que apoia a estabilidade econômica, reduz riscos e promove o desenvolvimento de longo prazo. Na ausência de mais investimentos em adaptação e resiliência, os impactos das mudanças climáticas vão do aumento da inflação, do desemprego e da desigualdade à queda na produtividade do trabalho, e não apenas nos países de baixa renda e de renda média baixa. Em junho, por exemplo, a onda de calor no Reino Unido teve um impacto econômico de 1,15 bilhão de libras, com 24 milhões de trabalhadores perdendo horas de trabalho.

As mudanças climáticas também influenciam as economias e sistemas financeiros como um todo, uma vez que o enfrentamento dos impactos físicos das mudanças climáticas exerce pressão sobre as finanças públicas, por meio do aumento de despesas e da redução da receita como resultado das perdas econômicas. Isso pode afetar as classificações de risco de crédito soberano e elevar os custos de captação de recursos dos países, tornando-se uma preocupação central para a política econômica.

Os efeitos das mudanças climáticas - inundações, secas, tempestades e ondas de calor extremas - não são mais um risco distante. Seus custos crescentes já afetam as economias em todo o mundo e sua frequência tende a acelerar na ausência de esforços mais robustos de adaptação. Estima-se que a conta econômica dos incêndios florestais que devastam a Espanha pode atingir € 3,3 bilhões.

Cullen Hendrix, pesquisador sênior do Peterson Institute for International Economics, estima que se a intensidade do El Niño deste ano for semelhante à do super evento de 1997-98, as perdas econômicas no primeiro ano seriam da ordem dos US$ 686 bilhões, ou quase 0,6% do PIB global. Se não houver mobilização dos governos em acelerar ações de mitigação e adaptação, essas perdas poderão aumentar para US$ 3,1 trilhões nos próximos cinco anos.

Os dois estudos apontam os benefícios econômicos de agir preventivamente para evitar billhões de dólares em perdas e destruição provocadas pelas mudanças climáticas. Os pesquisadores do Grantham Research Institute ressaltam que investimentos em adaptação trazem retornos substanciais e que os benefícios acumulados podem superar os custos em poucos anos. Eles estimam a relação benefício-custo em torno de 4:1, em média, e taxas internas de retorno econômico próximas de 25%. Em países de renda mais baixa, onde os impactos climáticos costumam ser mais severos, os retornos podem ser ainda maiores, de 5:1, em média. Sistemas de alerta precoce apresentam relações benefício-custo em torno de 6:1, enquanto investimentos em infraestrutura resiliente alcançam índices próximos de 5:1.

Hendrix observa que os US$ 686 bilhões em perdas no atual ciclo do El Niño já estão, em grande medida, consolidados - o que não é o caso dos US$ 2,4 trilhões adicionais em perdas acumuladas estimadas nos quatro anos seguintes. Investir agora em mitigação e adaptação terá impacto em milhares de decisões de investimentos do setor privado, que dependem da disponibilidade de crédito. As previsões e os impactos no crescimento são conhecidos. Os governos nacionais e a comunidade internacional precisam começar a agir com base na antecipação, em vez de esperar passivamente pelas perdas. A adaptação é mais eficaz quando realizada de forma antecipada, estratégica e integrada ao planejamento mais amplo de desenvolvimento, em vez de ser reativa ou fragmentada.

Mas os pesquisadores alertam que acelerar a adaptação e fortalecer a resiliência aos impactos climáticos que já não podem mais ser evitados não significa que os esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa devam ficar em segundo plano. Isso continua sendo inegociável e imperativo.

O risco da fusão dos conflitos

Por Correio Braziliense

A convergência entre as guerras da Ucrânia e do Irã ameaça colapsar rotas marítimas vitais e asfixiar o fornecimento energético global

A Primeira Guerra Mundial começou com um único tiro em Sarajevo. Ninguém, naquele verão de 1914, imaginava que o assassinato de um arquiduque ativaria um sistema de alianças capaz de matar 20 milhões de pessoas. A lição que a história ensinou é que conflitos armados não respeitam as fronteiras que seus idealizadores imaginam ter desenhado. O ataque ucraniano a um navio comercial iraniano no Mar Cáspio, no último sábado, e as subsequentes ameaças de retaliação de Teerã podem ser o ponto de fusão entre duas guerras até então geograficamente contidas: o conflito no Leste Europeu e a crise crônica no Oriente Médio. Ao ameaçar fundir esses dois teatros de operações em uma única crise global, o episódio coloca, pela primeira vez desde o auge da Guerra Fria, os Estados Unidos e a Rússia em lados diretamente opostos de um mesmo tabuleiro em ebulição.

As consequências práticas desse transbordamento não se limitam aos mapas táticos dos militares ou à retórica dos gabinetes. Para a sociedade e os mercados, o impacto é imediato. A convergência entre as guerras da Ucrânia e do Irã ameaça colapsar rotas marítimas vitais e asfixiar o fornecimento energético global, traduzindo-se em disparada no preço dos combustíveis, interrupção das cadeias de suprimentos e inflação persistente nos alimentos. 

A história também é implacável em demonstrar como o acionamento de alianças cruzadas e retaliações desmedidas foge rapidamente ao controle dos próprios idealizadores. Ao expandir o escopo da guerra para alvos logísticos iranianos, Kiev joga fogo em um barril de pólvora que já não suporta pressão. Em contrapartida, a instrumentalização de Teerã por Moscou e a leniência de Washington com os excessos de seus aliados criam uma arquitetura de confronto onde um erro de cálculo pode arrastar continentes inteiros para o front.

O mecanismo pelo qual guerras localizadas se tornam conflitos globais raramente é uma decisão deliberada. Costuma ser uma cascata de reações que ninguém planejou e ninguém consegue parar. Foi assim, por exemplo, na Guerra da Coreia, quando uma ofensiva localizada na península arrastou americanos, chineses e soviéticos para um confronto que nenhum dos três buscava diretamente. O cenário atual replica essa lógica com elementos ainda mais voláteis: atores não estatais com capacidade de ataque sofisticado, cadeias de fornecimento militar que cruzam múltiplas fronteiras e governos que usam a ambiguidade estratégica como política deliberada. Quando todos fingem que o conflito ainda é controlável, o momento em que deixa de ser chega sem aviso.

O mais alarmante nesse quadro é o retorno do fantasma atômico ao cálculo geopolítico. Uma escalada envolvendo direta e indiretamente nações com arsenais nucleares dissolve a linha divisória entre o uso de força convencional e o abismo atômico. Quando governos se veem acuados politicamente e sem saída diplomática à vista, o flerte com armas táticas deixa de ser tabu distante para figurar como instrumento de chantagem assustadoramente palpável. 

Com o mundo à beira desse abismo, a letargia das instituições de governança global é inaceitável. É imperativo que a ONU e os fóruns multilaterais abandonem a paralisia burocrática e a emissão de notas de repúdio inócuas, forçando a abertura de canais reais de diálogo entre as partes. Não há espaço para acreditar que sanções econômicas ou rodadas pontuais de negociação conterão sozinhas o ímpeto bélico. Ou o sistema internacional retoma o pragmatismo e impõe freios à escalada entre Ucrânia, Rússia, EUA e Irã, ou a próxima página da história será escrita em condições que ninguém gostaria de estar.

Como evitar fraudes no Pix?

Por O Povo (CE)

O sistema de pagamento é seguro e tem credibilidade, mas é preciso cuidar para que a confiança alcançada pelo Pix entre os brasileiros não seja abalada

A instituição do Pix, criado pelo Banco Central (BC), provocou uma verdadeira revolução nos sistemas de transferência bancária. O seu funcionamento com remessas instantâneas chamou a atenção de todo o mundo, com o prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, afirmando que o Pix poderia ser "o futuro do dinheiro", como escreveu em informativo publicado por ele.

A rápida expansão do Pix no Brasil e a possibilidade de sua extensão para outros países causam incômodo aos Estados Unidos, temendo supostos prejuízos que acarretaria aos cartões de crédito. Além disso, a previsão de Krugman parece estar se confirmando, pois o Pix começa a ser aceito em diversos países, substituindo as transações em papel moeda ou com cartões de crédito.

No Brasil, o Pix, de uso gratuito para pessoas físicas, disseminou-se rapidamente entre a população. O sucesso pode ser medido pelos seus números grandiosos, com 175 milhões de usuários cadastrados e a média de 200 milhões de transações por dia, segundo o Banco Central.

No entanto, infelizmente, o sistema também chamou a atenção de estelionatários, que viram no sistema mais uma oportunidade para cometer crimes.

Desde a criação da ferramenta, o Pix teve, em média, 271,5 mil fraudes confirmadas por mês. Esses crimes subtraíram R$ 24,52 bilhões, porém, apenas 8,9% desse valor foi devolvido aos prejudicados, de acordo com informações do BC. O recorte considera restituições feitas por meio do Mecanismo Especial de Devolução (MED). A compilação foi realizada pela Central de Dados do O POVO .

É fato que o número de golpes representa 0,0067% das transações, percentual mínimo comparado à quantidade de transações. No entanto, o valor desviado está na casa dos bilhões. E, para quem perde o dinheiro, o prejuízo é total. Assim, é necessário que o Banco Central aperfeiçoe mecanismos para evitar fraudes e para reaver rapidamente os valores desviados, quando o golpe acontece.

Em edição nesta semana, a Folha de S.Paulo, informou que a redução de verbas destinadas ao Banco Central está adiando projetos de atualização tecnológica e inovações do Pix. De acordo com especialistas ouvidos pelo jornal, a limitação de recursos estaria dificultando o fortalecimento da infraestrutura do Pix, com alto risco operacional, incluindo a ameaça para a segurança contra ataques de hackers.

É preciso ressaltar que as fraudes bancárias não nasceram com o Pix, pois estelionatários estão sempre a postos para explorar possíveis brechas em qualquer dispositivo, e não seria diferente nesse inédito sistema de pagamentos. Sem dúvida o Pix é um sistema seguro e de credibilidade. Mas é preciso cuidar para que a confiança alcançada pelo Pix entre os brasileiros não seja abalada.

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