Adesão do Brasil a iniciativa chinesa em IA exige cautela
Por O Globo
Em questão ainda em ebulição e tão decisiva,
país deve pesar prós e contras antes de tomar qualquer decisão
Deve ser vista com reservas a adesão do Brasil à Organização Internacional de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), entidade liderada pela China que reuniu até agora um punhado de outras nações sem relevância no mapa da IA, sob a difusa bandeira do Sul Global. Não há dúvida de que o Brasil precisa estabelecer cooperação científica e tecnológica com outros países, além de manter diálogo com organizações internacionais. Mas o pano de fundo da iniciativa recomenda cautela. Está em curso uma disputa pelo protagonismo da IA opondo chineses e americanos — e nem entre estes últimos há consenso sobre o caminho a adotar. Em contexto tão relevante quanto incerto, a adesão brasileira pode ser vista como alinhamento à esfera de influência de Pequim, algo que não interessa ao Brasil.
A lista de países arregimentados na Waico é
sintomática. O Brasil aparece ao lado de países como Camboja, Camarões, Congo,
Cuba, Mianmar, Nicarágua, Rússia, Tadjiquistão, Uzbequistão, Venezuela ou
Zâmbia. Com exceção da própria China, nenhum tem expressão no universo da IA.
Chama a atenção a ausência de nações desenvolvidas e grandes economias
emergentes como Índia, México ou Coreia do Sul. O governo americano atraiu para
aliança similar países como Austrália, Japão e Reino Unido. A Waico reflete a
tentativa chinesa de assegurar predominância a seus modelos de IA.
Em desempenho, os modelos chineses ficam
atrás dos americanos de ponta. Mas têm encurtado a distância. Empresas chinesas
adotaram um paradigma de desenvolvimento aberto. Em contraste com as líderes
americanas, tornam público o ajuste das “manivelas e alavancas” que fazem seus
modelos funcionar, conhecidas como “pesos”. Isso incentiva o uso, o treinamento
e o aperfeiçoamento desses modelos.
Preocupado com a segurança nacional, o
governo Donald Trump tem apoiado modelos de “pesos fechados” e vetado acesso às
versões mais avançadas. Mas uma coalizão de gigantes digitais americanas,
incluindo Microsoft, Meta e Nvidia, publicou um manifesto defendendo o
paradigma de “pesos abertos” dos chineses. O documento afirma que ele favorece
a inovação e é, na realidade, mais seguro que as caixas-pretas de OpenAI ou
Anthropic.
A questão está no fulcro da disputa com a
China, e a Waico tenta fortalecer o paradigma chinês. “O domínio da IA definirá
o equilíbrio econômico e geopolítico das próximas décadas”, afirma a
pesquisadora de IA Dora Kaufman, da PUC-SP. O Itamaraty diz que a nova
organização estimulará a cooperação tecnológica. O propósito é legítimo. O
Brasil precisa avançar em IA. Mas, numa questão ainda em ebulição e tão decisiva,
deve pensar nos prós e contras antes de tomar qualquer decisão.
Por ter vantagens comparativas para
instalação de infraestrutura, o país precisa elaborar um plano estratégico
sobre como se colocar na disputa entre Estados Unidos e China. Depois da assinatura
do acordo, a adesão à Waico terá de ser aprovada pelo Legislativo. Será uma
oportunidade para discuti-la a fundo — de forma técnica. A pergunta que deve
nortear o debate é se o país precisa aderir a uma iniciativa que parece guiada
mais pelo interesse chinês que pelo brasileiro. Como serão governança, proteção
de dados e liberdade de expressão numa organização com sede em Pequim que reúne
várias ditaduras? O Congresso Nacional é o local para um debate frutífero sobre
o tema.
Congresso continua a contribuir para
transformar setor elétrico num caos
Por O Globo
Última iniciativa é um ‘jabuti’ — mais um —
para construir térmicas longe do consumo e da distribuição
O setor de energia sabe
como poucos conquistar vantagens com a ajuda do Congresso. O roteiro é
conhecido. Projetos de lei (PLs) são criados sem objetivo controverso. No meio
do caminho, acabam desfigurados com “novidades” sem relação com a proposta
inicial — os famigerados “jabutis”. Quando são aprovados, o resultado é
invariavelmente uma conta de luz mais cara para o consumidor. Quando são
barrados, muitas vezes voltam mais tarde em nova versão, os “jabutis zumbis”. O
PL 5.017 é o último exemplo dessa categoria insepulta. Os senadores deveriam
reconhecer a contribuição que o Congresso tem dado para transformar o setor
elétrico num caos — e repudiá-lo.
Aprovado na Câmara para ampliar o desconto na
tarifa de energia para iniciativas de irrigação e perfuração de poços
semiartesianos, o PL 5.017 foi desfigurado no Senado. Na versão atual, torna
obrigatória a contratação de usinas térmicas e pequenas hidrelétricas, a
expansão da infraestrutura de gás natural e aumenta os subsídios. O custo?
Despesa anual extra de, no mínimo, R$ 44,2 bilhões na conta de luz a partir de
2032, de acordo com cálculos da Abrace Energia, entidade que representa grandes
consumidores de eletricidade. Para comparar, os subsídios pagos em 2025 pelos
consumidores de energia somaram R$ 57,1 bilhões, de acordo com dados da Aneel.
Uma das facetas do PL 5.017 é a exigência de
construção de térmicas onde não há rede de gasodutos ou linha de distribuição.
O texto também determina a contratação de 2,5GW de termelétricas a gás com a
obrigação de o consumidor pagar 70%, quer use a eletricidade, quer não.
Estipula até o tamanho das usinas (500MW cada) e sua localização: Goiás,
Distrito Federal e região, Rondônia, Triângulo Mineiro e Região Metropolitana
de São Luís. Tais propostas não foram fruto de análises técnicas tendo em vista
o benefício de todos. Reproduzem apenas demandas de segmentos do setor privado
com trânsito no Congresso. Ora, é do Executivo a prerrogativa de analisar a
infraestrutura, elaborar projeções de demanda e planejar a expansão do setor
elétrico. Há instituição pública capacitada para desempenhar precisamente essa
tarefa. Ainda assim, não faltam intromissões do Congresso no planejamento. O PL
5.017 é apenas a mais nova tentativa de perpetuar esse arranjo descabido.
Não há como tal arranjo dar certo para o consumidor. O setor elétrico brasileiro, antes exemplar, se tornou sinônimo de desorganização e pressão por vantagens. Querem vantagem para quem produz a energia, para quem transporta o gás, para quem constrói o gasoduto, para a linha de transmissão. Quem perde é o consumidor. Quando se pensa em desvio de função do Congresso, logo se fala nos abusos associados às emendas parlamentares. Eles são de fato um despropósito. Mas a sequência recorrente de PLs para favorecer grupos de pressão do setor elétrico está na mesma categoria.
Ataque ao consumidor de energia
Por Folha de S. Paulo
Projeto aprovado às pressas cria gastos
bilionários para o setor elétrico e compromete modicidade tarifária
Entre 2001 e 2020, a tarifa subiu 351%, muito
acima da inflação de 230%; a das residências está entre as mais altas do mundo
A conta de luz do brasileiro já está entre as
mais caras do mundo para um país de renda média. Ainda assim, o Congresso
Nacional parece disposto a encarecê-la ainda mais. Um substitutivo
apresentado de última hora ao projeto de lei 5.017 de 2019 reúne uma coleção de
"jabutis" que pode elevar as
tarifas em até R$ 1,5 trilhão nas próximas décadas.
Trata-se de um dos mais graves ataques ao
consumidor e à racionalidade da política energética.
O problema não está apenas no conteúdo, mas também no método. Um projeto originalmente
voltado à ampliação de descontos para irrigação transformou-se em um texto que
altera sete leis e cria novas obrigações para o setor elétrico.
O substitutivo surgiu fora da pauta, foi
apresentado no fim do período legislativo, lido somente em resumo e aprovado
simbolicamente por uma comissão esvaziada. Um rito dessa importância não pode
impor custos que recairão sobre consumidores por décadas.
O pacote ressuscita pressões de grupos de
interesse. Inclui contratações compulsórias de termelétricas e pequenas
hidrelétricas, amplia subsídios e altera a Lei da Eletrobras sem
respaldo de estudos do Executivo, da Empresa de Pesquisa Energética ou do
Operador Nacional do Sistema.
A medida mais onerosa obriga a contratação de
termelétricas a gás na amazônia,
vinculadas a projetos estruturantes da região Norte, exige infraestrutura de
produção e transporte do combustível e pode custar R$ 902,5 bilhões em 30 anos.
Beneficiam-se investidores dessa cadeia produtiva, mas transfere-se
integralmente a conta aos consumidores.
Somadas às demais medidas, as despesas
adicionais podem chegar a R$ 1,2 trilhão —ou R$ 1,5 trilhão, considerando
outras alterações na Lei da Eletrobras. O impacto estimado é um aumento médio
de cerca de 11% nas tarifas entre 2032 e 2035, incorporando R$ 50 bilhões aos
custos anuais para as famílias e empresas.
O despropósito contrasta com o diagnóstico do
Tribunal de Contas da União. Entre 2001 e 2020, a tarifa dos consumidores
regulados subiu 351%, muito acima da inflação de 230%. O TCU também
apontou que a tarifa residencial está entre as mais altas do mundo para um país
com renda per capita muito inferior à das economias desenvolvidas.
Em vez de aproveitar a abundância de
hidrelétricas, eólicas, solares e do gás do pré-sal para reduzir
custos, o país insiste em subsídios cruzados e obrigações
artificiais que encarecem o sistema e beneficiam lobistas.
Ainda há tempo de barrar esse desatino. O
projeto precisa passar pelo escrutínio das comissões técnicas e do plenário,
com transparência e debate público.
Não é aceitável que "jabutis"
aprovados às pressas imponham aos cidadãos uma conta trilionária por décadas. A
política energética deve atender ao interesse coletivo, e não transformar
privilégios privados em custos permanentes para toda a sociedade.
Escola sem violência
Por Folha de S. Paulo
Casos de agressões e pesquisas mostram que o
país precisa enfrentar a fragilidade disciplinar no ensino
Segundo levantamento do Centro do
Professorado Paulista de 2025, 65% dos docentes já haviam sofrido alguma
agressão no ambiente escolar
A partir da segunda metade do século 20,
consolidou-se globalmente uma mudança no paradigma disciplinar da educação,
com a passagem de um modelo hierárquico rígido e punitivo para outro centrado
nos direitos da criança, na participação do estudante e em formas não violentas
de disciplina.
Tal avanço civilizatório não implica falta de
regras claras de conduta e de respeito a figuras de autoridade. O Brasil,
porém, enfrenta dificuldades nessa seara.
Relatos de
agressões contra professores compõem um cenário de problema
disciplinar revelado por pesquisas. O caso recente da professora Michele Ramos,
que registrou boletim de ocorrência após alunos colocarem uma lâmina de vidro
em seu copo de água durante a aula numa escola municipal de São José dos Campos
(SP), é um deles.
Segundo levantamento do Centro do
Professorado Paulista de 2025, 65% dos docentes já haviam sofrido alguma
agressão no ambiente escolar e 74% não se sentiam seguros em sala de aula.
A violência verbal
representa 71% das agressões, seguida pela psicológica e moral (58%),
institucional (27%) e física (19%).
Pesquisa da OCDE de
2024 mostra que 47% dos professores brasileiros disseram que sofrer intimidação
ou abuso verbal por alunos era uma fonte relevante de estresse, ante a média de
18% dos cerca de 50 países analisados.
O Brasil tem as maiores proporções de
docentes que dizem perder muito tempo esperando os alunos se aquietarem (43%)
ou por causa de interrupções (44%), enquanto as médias da OCDE são,
respectivamente, de 15% e 18%.
Casos graves de violência devem ser tratados
por meio de investigação policial. Mas a situação mostra que são necessárias
ações de prevenção e responsabilização e para que o ambiente em sala de aula se
torne mais tranquilo; os pais também precisam atuar no campo disciplinar.
Em relatório sobre o tema, a Unicef faz
uma série de recomendações, como a criação de protocolos específicos para
agressões, de mecanismos nacionais e estaduais acessíveis de notificação,
encaminhamento e monitoramento dos casos e de programas com atividades de
cooperação, gestão de conflitos, autocuidado e reconhecimento das emoções.
Especialistas também apontam a necessidade de maior integração entre a escola e as famílias, além da valorização dos professores e do ensino, já que a política disciplinar perde eficácia com salas superlotadas, grande rotatividade docente, infraestrutura precária e ausência de atendimento especializado.
A degradação da relação Brasil-Argentina
Por O Estado de S. Paulo
Os insultos de Milei em solo brasileiro e as
reações descabidas de membros do governo Lula aprofundam uma crise que não
serve aos interesses das duas maiores economias da América do Sul
Nem Luiz Inácio Lula da Silva nem Javier
Milei estão à altura da relação que Brasil e Argentina construíram desde os
anos 80 do século passado, a partir da visão de um futuro em comum
compartilhada primeiramente pelos presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín.
Entreveros sempre houve, como mostra a imorredoura rivalidade no futebol, mas
nada se compara ao que Lula e Milei estão protagonizando há anos, degradando
uma relação que é boa para ambas as partes. Chefes de Estado não precisam
nutrir afeto uns pelos outros, mas devem ter a decência e o espírito público de
conter o ego, os cálculos eleitorais e os vieses ideológicos em nome do
interesse maior de seus países.
Essa degradação atingiu o ponto mais baixo há
alguns dias, no infame discurso de Milei no lançamento da candidatura de Flávio
Bolsonaro (PL) à Presidência, em que o argentino atacou, com palavrões e
vitupérios, o presidente Lula e o ministro do Supremo Tribunal Federal
Alexandre de Moraes. Jamais um presidente de país estrangeiro havia feito isso
no Brasil, e por razões óbvias: isso não se faz. Mas Javier Milei é da nova
cepa de políticos que fazem do desrespeito aos padrões mínimos de decência e
decoro seu principal ativo eleitoral. Milei, como seu ídolo Donald Trump,
desconhece limites éticos e morais.
Mas isso é problema lá dos argentinos. O
nosso é Lula, que há muito tempo, a título de ajudar os companheiros
esquerdistas da América do Sul, vem se intrometendo em eleições e na política
de países vizinhos, a começar pela Argentina. Ao fazê-lo, o petista também
desrespeita os argentinos e a histórica parceria entre os dois países. A
degradação das relações entre Brasil e Argentina, portanto, é uma obra
conjunta.
A relação bicentenária entre Brasil e
Argentina atravessou fases de maior ou menor afinidade pessoal entre os
presidentes, sem que isso jamais comprometesse o fluxo de negócios e de
cidadãos, os intercâmbios culturais ou a parceria estratégica que fez dos dois
países fundadores do Mercosul. Mesmo nos piores momentos, sempre prevaleceu a
compreensão de que os interesses comuns aos dois países são muito maiores do
que as veleidades de seus presidentes.
É o que se espera agora, a despeito da
profunda deselegância de Milei e da reação infantil de parte do governo Lula –
como a do ministro da Fazenda, Dario Durigan, que chamou o presidente argentino
de “palhaço”, ou a do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme
Boulos, que descreveu Milei como uma “caricatura patética”, um “puxa-saco” de
Trump. São comportamentos indignos de ministros de Estado, razão pela qual o
próprio Itamaraty os reprovou.
Não estamos num estádio de futebol, lugar
ideal para extravasar velhos rancores nacionais entre brasileiros e argentinos.
Estamos no terreno da representação do Estado brasileiro, que por definição
deve estar acima das paixões e ideologias. Assim, fez bem o presidente Lula ao
instruir seus diplomatas a não escalar a crise e tratá-la estritamente no
âmbito da etiqueta das relações internacionais – e, nesse sentido, a decisão do
chanceler Mauro Vieira de convocar o embaixador argentino em Brasília para explicações,
além de chamar para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires, foi
suficiente para expressar a gravidade da situação. Desse modo, o tempo haverá
de arrefecer os ânimos e preservar uma relação que muito nos interessa.
Se há um aspecto positivo nessa crise
fabricada por interesses mesquinhos é que, a despeito do desgaste na cúpula dos
governos de Brasil e Argentina, nenhum contrato foi rompido, nenhum acordo
comercial foi abandonado. Nos escalões abaixo da presidência, a engrenagem
segue funcionando com normalidade, prova de que a tensão não é estrutural, mas
circunstancial, dominada pelo calendário eleitoral de cada país.
As declarações de Milei, Durigan e Boulos são
deploráveis e merecem profundo repúdio. Mas, no que realmente importa, Lula fará
bem ao Brasil se essa crise com o país vizinho sair de seu gabinete menor do
que entrou, preservando os laços históricos e a sinergia entre as duas maiores
economias da América do Sul.
O recado dos leilões vazios
Por O Estado de S. Paulo
Os leilões frustrados de 2026 expõem a fase
mais difícil do Marco do Saneamento, na qual juros altos, projetos complexos e
fragilidade estatal testam as metas de universalização
Como mostrou uma recente reportagem do Estadão, quatro lotes de uma
parceria público-privada de saneamento do Ceará foram a leilão sem receber uma
única proposta. Em Goiás, licitações ligadas à Saneago também frustraram
expectativas. Os sinais causam estranheza num país que ainda precisa levar água
tratada e coleta de esgoto a milhões de habitantes. Se a demanda é tão grande,
por que faltaram investidores?
A resposta apressada seria decretar o fim do
entusiasmo despertado pelo Marco Legal do Saneamento. Os fatos não autorizam
essa conclusão. Desde 2020, concessões e privatizações mobilizaram dezenas de
bilhões de reais, ampliaram a presença privada e estimularam um ambiente mais
competitivo. Grandes operadores continuam comprometidos com investimentos
vultosos. O arrefecimento de 2026 merece atenção, mas está longe de representar
uma fuga do capital.
O saneamento entrou numa etapa mais difícil.
O primeiro ciclo ofereceu ativos atraentes, com áreas densas, receitas
previsíveis e oportunidades de ganho de escala. A marcha rumo à universalização
alcança agora municípios menores, populações mais pobres, redes precárias e
obras de retorno incerto. Ao mesmo tempo, os principais grupos já assumiram
concessões extensas. Continuam procurando oportunidades, mas examinam cada
contrato com o rigor de quem precisa entregar o que já comprou.
Os juros altos acentuaram essa seletividade.
Mas a Selic conta apenas parte da história. Sob a mesma conjuntura, alguns
leilões atraíram concorrentes e outros ficaram vazios. Os juros funcionaram
como teste de estresse: ampliaram o peso de dúvidas sobre receitas, garantias,
estabilidade regulatória e divisão de riscos.
Ceará e Goiás entenderam o recado, e
decidiram reavaliar seus modelos, ouvindo potenciais interessados a fim de
identificar quais exigências afastam concorrentes, quais riscos foram
precificados de maneira irrealista e quais garantias precisam ser reforçadas. O
poder público deve preservar os padrões técnicos e resistir a pleitos
oportunistas. Também precisa reconhecer que publicar um edital não converte
automaticamente carência social em projeto financiável.
Leilões esvaziados podem refletir o ambiente
macroeconômico, a cautela de operadores com carteiras carregadas ou
características do ativo. Em qualquer hipótese, recomendam o reexame de
projeções, custos, metas e obrigações. Uma modelagem concebida para acomodar
promessas políticas – tarifa baixa, investimento acelerado, aporte público
mínimo e risco concentrado no concessionário – talvez renda uma boa cerimônia
de lançamento, mas dificilmente produzirá propostas competitivas ou serviços
duradouros.
Há uma conta que governos preferem deixar
implícita. Em regiões pobres ou pouco densas, a tarifa pode ser insuficiente
para bancar as obras exigidas até 2033. A regionalização e os subsídios
cruzados ajudam a combinar municípios superavitários e deficitários, mas têm
limites. Alguns projetos precisarão de garantias ou aportes públicos. São
instrumentos legítimos, desde que tenham foco social, custo fiscal conhecido e
regras transparentes. Esconder a despesa em projeções otimistas ou empurrá-la
para tarifas impraticáveis apenas prepara a frustração seguinte.
Longe de reduzir as responsabilidades do
Estado, o marco as ampliou. Concessões privadas exigem governos capazes de
produzir dados confiáveis, organizar lotes, contratar estudos, distribuir
riscos com sensatez e fiscalizar por décadas. Exigem também agências técnicas,
protegidas da conveniência eleitoral e da captura empresarial. Muitos Estados e
municípios carecem de equipes para tarefas dessa complexidade. O BNDES e
organismos multilaterais podem oferecer conhecimento e financiamento, mas não
substituem a responsabilidade do concedente.
A boa lei de 2020 abriu o mercado e produziu
resultados. Os certames frustrados corrigem a ilusão de confundir leilões com
universalização, sem dar razão aos adversários da reforma. A nova fase cobrará
melhor administração, contratos realistas, regulação estável e honestidade
sobre quem pagará pelos projetos difíceis. O Brasil já reformou as regras do
saneamento. O destino das promessas do marco será decidido na capacidade
cotidiana de executá-las.
Gol contra do Corinthians
Por O Estado de S. Paulo
Ao aceitar patrocínio de site de conteúdo
adulto, o clube desrespeita mulheres e crianças
Encerrada a Copa do Mundo, o Campeonato
Brasileiro de futebol retornou com uma novidade inquietante. O uniforme do
Corinthians, time que tem a segunda maior torcida do País, agora serve de
veículo para a divulgação de um site de conteúdo adulto.
Em português claro, trata-se de propaganda de
conteúdo erótico, que evidentemente não deveria ser veiculada num ambiente
frequentado por mulheres e crianças – e é espantoso que o Corinthians tenha
aceitado fazê-lo.
Não é o primeiro caso desse tipo. No início
de julho, a Justiça de Alagoas determinou que o CSA, um dos principais times do
Estado, retirasse de todas as suas camisas e materiais promocionais a marca de
um site de “acompanhantes” que pertence ao mesmo grupo que agora patrocina o
Corinthians. A Justiça alagoana considerou que a dita propaganda expunha de
maneira indiscriminada crianças e adolescentes a um “estímulo inadequado ao seu
regular desenvolvimento”, uma clara afronta ao Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA).
Mas a empresa questionada na Justiça segue
inabalável com a estratégia de naturalizar a divulgação de suas atividades para
um público amplo e irrestrito, como escancara o acordo de patrocínio ao
Corinthians.
Sob o cínico argumento de que cumpre a legislação
porque se limita a exibir a marca do site de conteúdo adulto, sem qualquer
imagem ou conteúdo impróprio a crianças e adolescentes, a empresa pagará R$ 22
milhões até o final de 2027 para aparecer no uniforme do clube paulista. O
valor do contrato pode chegar a R$ 31 milhões caso seja estendido até o final
de 2028.
Ora, não é preciso divulgar imagens de cunho
erótico nos uniformes dos jogadores para gerar tráfego para o site da empresa.
Qualquer um que veja a marca estampada pode rapidamente pesquisá-la e acessá-la
na internet.
Não é por outra razão que, por lei, empresas
de bebidas alcoólicas não podem aparecer nas camisas dos clubes de futebol. Já
há uma condenável leniência com esse tipo de propaganda nas transmissões
esportivas, mas pelo menos existe um limite.
Logo, cabe às autoridades competentes agir e
eliminar quaisquer potenciais brechas jurídicas exploradas pelas empresas de
acompanhantes e conteúdo adulto para fazerem do esporte mais popular do País
sua plataforma de vendas.
Ao se associar a esse tipo de empreendimento,
o Corinthians entra em flagrante contradição com sua defesa de causas sociais,
sobretudo em relação às mulheres. Chega a ser irônico que o clube cujo slogan
de seu time feminino é “respeite as minas” as desrespeite de modo tão insensível.
O Corinthians informa que a propaganda do site de conteúdo adulto não vai
aparecer no uniforme do time feminino. Era só o que faltava.
A crise financeira do Corinthians é crônica e imensa, mas não pode servir de desculpa para que se aceite dinheiro de anunciantes cujos propósitos são prejudiciais aos meninos e meninas que resolveram torcer pelo time. Ao fazê-lo, o Corinthians não só desrespeita as crianças e as mulheres, como degrada sua própria marca. Em outras palavras, é um baita gol contra.
Crise climática pode tirar até 15% do PIB per
capita global
Por Valor Econômico
Se as expectativas de um super El Niño se confirmarem, somente esse evento pode gerar perdas econômicas no primeiro ano da ordem dos US$ 686 bilhões
As mudanças climáticas são frequentemente
apresentadas como um desafio ambiental, mas novos estudos sugerem que também
representam uma grande ameaça ao crescimento econômico - e que os custos da
inação dos governos são elevados. Pesquisadores estimam que, até 2050, as
mudanças climáticas poderão reduzir o PIB per capita global entre 3% e 15% em
cenários de aquecimento plausíveis. Esse impacto será ainda maior nos países de
baixa renda e renda média baixa, que hoje já são entre 4% e 12% mais pobres em
termos de PIB per capita devido a mudanças nas temperaturas locais e à elevação
do nível do mar. A mensagem dos pesquisadores é clara: os governos precisam
incorporar o risco climático ao planejamento econômico convencional.
Pesquisadores do Grantham Research Institute
on Climate Change and the Environment na London School of Economics and
Political Science, em parceria com a Coalizão de Ministros das Finanças para a
Ação Climática, combinaram os resultados de quase 300 estudos e mais de 6.000
estimativas distintas sobre as consequências das mudanças climáticas e dos
investimentos em adaptação no relatório “The macroeconomic case for investing
in climate adaptation”.
O relatório ressalta que a adaptação não deve
ser vista como um custo, mas sim como um investimento estratégico que apoia a
estabilidade econômica, reduz riscos e promove o desenvolvimento de longo
prazo. Na ausência de mais investimentos em adaptação e resiliência, os impactos
das mudanças climáticas vão do aumento da inflação, do desemprego e da
desigualdade à queda na produtividade do trabalho, e não apenas nos países de
baixa renda e de renda média baixa. Em junho, por exemplo, a onda de calor no
Reino Unido teve um impacto econômico de 1,15 bilhão de libras, com 24 milhões
de trabalhadores perdendo horas de trabalho.
As mudanças climáticas também influenciam as
economias e sistemas financeiros como um todo, uma vez que o enfrentamento dos
impactos físicos das mudanças climáticas exerce pressão sobre as finanças
públicas, por meio do aumento de despesas e da redução da receita como
resultado das perdas econômicas. Isso pode afetar as classificações de risco de
crédito soberano e elevar os custos de captação de recursos dos países,
tornando-se uma preocupação central para a política econômica.
Os efeitos das mudanças climáticas -
inundações, secas, tempestades e ondas de calor extremas - não são mais um
risco distante. Seus custos crescentes já afetam as economias em todo o mundo e
sua frequência tende a acelerar na ausência de esforços mais robustos de
adaptação. Estima-se que a conta econômica dos incêndios florestais que
devastam a Espanha pode atingir € 3,3 bilhões.
Cullen Hendrix, pesquisador sênior do
Peterson Institute for International Economics, estima que se a intensidade do
El Niño deste ano for semelhante à do super evento de 1997-98, as perdas
econômicas no primeiro ano seriam da ordem dos US$ 686 bilhões, ou quase 0,6%
do PIB global. Se não houver mobilização dos governos em acelerar ações de
mitigação e adaptação, essas perdas poderão aumentar para US$ 3,1 trilhões nos
próximos cinco anos.
Os dois estudos apontam os benefícios
econômicos de agir preventivamente para evitar billhões de dólares em perdas e
destruição provocadas pelas mudanças climáticas. Os pesquisadores do Grantham
Research Institute ressaltam que investimentos em adaptação trazem retornos
substanciais e que os benefícios acumulados podem superar os custos em poucos
anos. Eles estimam a relação benefício-custo em torno de 4:1, em média, e taxas
internas de retorno econômico próximas de 25%. Em países de renda mais baixa,
onde os impactos climáticos costumam ser mais severos, os retornos podem ser
ainda maiores, de 5:1, em média. Sistemas de alerta precoce apresentam relações
benefício-custo em torno de 6:1, enquanto investimentos em infraestrutura
resiliente alcançam índices próximos de 5:1.
Hendrix observa que os US$ 686 bilhões em
perdas no atual ciclo do El Niño já estão, em grande medida, consolidados - o
que não é o caso dos US$ 2,4 trilhões adicionais em perdas acumuladas estimadas
nos quatro anos seguintes. Investir agora em mitigação e adaptação terá impacto
em milhares de decisões de investimentos do setor privado, que dependem da
disponibilidade de crédito. As previsões e os impactos no crescimento são
conhecidos. Os governos nacionais e a comunidade internacional precisam começar
a agir com base na antecipação, em vez de esperar passivamente pelas perdas. A
adaptação é mais eficaz quando realizada de forma antecipada, estratégica e
integrada ao planejamento mais amplo de desenvolvimento, em vez de ser reativa
ou fragmentada.
Mas os pesquisadores alertam que acelerar a adaptação e fortalecer a resiliência aos impactos climáticos que já não podem mais ser evitados não significa que os esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa devam ficar em segundo plano. Isso continua sendo inegociável e imperativo.
O risco da fusão dos conflitos
Por Correio Braziliense
A convergência entre as guerras da Ucrânia e
do Irã ameaça colapsar rotas marítimas vitais e asfixiar o fornecimento
energético global
A Primeira Guerra Mundial começou com um
único tiro em Sarajevo. Ninguém, naquele verão de 1914, imaginava que o
assassinato de um arquiduque ativaria um sistema de alianças capaz de matar 20
milhões de pessoas. A lição que a história ensinou é que conflitos armados não
respeitam as fronteiras que seus idealizadores imaginam ter desenhado. O ataque
ucraniano a um navio comercial iraniano no Mar Cáspio, no último sábado, e as
subsequentes ameaças de retaliação de Teerã podem ser o ponto de fusão entre
duas guerras até então geograficamente contidas: o conflito no Leste Europeu e
a crise crônica no Oriente Médio. Ao ameaçar fundir esses dois teatros de
operações em uma única crise global, o episódio coloca, pela primeira vez desde
o auge da Guerra Fria, os Estados Unidos e a Rússia em lados diretamente
opostos de um mesmo tabuleiro em ebulição.
As consequências práticas desse
transbordamento não se limitam aos mapas táticos dos militares ou à retórica
dos gabinetes. Para a sociedade e os mercados, o impacto é imediato. A convergência
entre as guerras da Ucrânia e do Irã ameaça colapsar rotas marítimas vitais e
asfixiar o fornecimento energético global, traduzindo-se em disparada no preço
dos combustíveis, interrupção das cadeias de suprimentos e inflação persistente
nos alimentos.
A história também é implacável em demonstrar
como o acionamento de alianças cruzadas e retaliações desmedidas foge
rapidamente ao controle dos próprios idealizadores. Ao expandir o escopo da
guerra para alvos logísticos iranianos, Kiev joga fogo em um barril de pólvora
que já não suporta pressão. Em contrapartida, a instrumentalização de Teerã por
Moscou e a leniência de Washington com os excessos de seus aliados criam uma
arquitetura de confronto onde um erro de cálculo pode arrastar continentes
inteiros para o front.
O mecanismo pelo qual guerras localizadas se
tornam conflitos globais raramente é uma decisão deliberada. Costuma ser uma
cascata de reações que ninguém planejou e ninguém consegue parar. Foi assim,
por exemplo, na Guerra da Coreia, quando uma ofensiva localizada na península
arrastou americanos, chineses e soviéticos para um confronto que nenhum dos
três buscava diretamente. O cenário atual replica essa lógica com elementos
ainda mais voláteis: atores não estatais com capacidade de ataque sofisticado,
cadeias de fornecimento militar que cruzam múltiplas fronteiras e governos que
usam a ambiguidade estratégica como política deliberada. Quando todos fingem
que o conflito ainda é controlável, o momento em que deixa de ser chega sem
aviso.
O mais alarmante nesse quadro é o retorno do
fantasma atômico ao cálculo geopolítico. Uma escalada envolvendo direta e
indiretamente nações com arsenais nucleares dissolve a linha divisória entre o
uso de força convencional e o abismo atômico. Quando governos se veem acuados
politicamente e sem saída diplomática à vista, o flerte com armas táticas deixa
de ser tabu distante para figurar como instrumento de chantagem
assustadoramente palpável.
Com o mundo à beira desse abismo, a letargia das instituições de governança global é inaceitável. É imperativo que a ONU e os fóruns multilaterais abandonem a paralisia burocrática e a emissão de notas de repúdio inócuas, forçando a abertura de canais reais de diálogo entre as partes. Não há espaço para acreditar que sanções econômicas ou rodadas pontuais de negociação conterão sozinhas o ímpeto bélico. Ou o sistema internacional retoma o pragmatismo e impõe freios à escalada entre Ucrânia, Rússia, EUA e Irã, ou a próxima página da história será escrita em condições que ninguém gostaria de estar.
Como evitar fraudes no Pix?
Por O Povo (CE)
O sistema de pagamento é seguro e tem
credibilidade, mas é preciso cuidar para que a confiança alcançada pelo Pix
entre os brasileiros não seja abalada
A instituição do Pix, criado pelo Banco
Central (BC), provocou uma verdadeira revolução nos sistemas de transferência
bancária. O seu funcionamento com remessas instantâneas chamou a atenção de
todo o mundo, com o prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, afirmando que o Pix
poderia ser "o futuro do dinheiro", como escreveu em informativo
publicado por ele.
A rápida expansão do Pix no Brasil e a
possibilidade de sua extensão para outros países causam incômodo aos Estados
Unidos, temendo supostos prejuízos que acarretaria aos cartões de crédito. Além
disso, a previsão de Krugman parece estar se confirmando, pois o Pix começa a
ser aceito em diversos países, substituindo as transações em papel moeda ou com
cartões de crédito.
No Brasil, o Pix, de uso gratuito para
pessoas físicas, disseminou-se rapidamente entre a população. O sucesso pode
ser medido pelos seus números grandiosos, com 175 milhões de usuários
cadastrados e a média de 200 milhões de transações por dia, segundo o Banco
Central.
No entanto, infelizmente, o sistema também
chamou a atenção de estelionatários, que viram no sistema mais uma oportunidade
para cometer crimes.
Desde a criação da ferramenta, o Pix teve, em
média, 271,5 mil fraudes confirmadas por mês. Esses crimes subtraíram R$ 24,52
bilhões, porém, apenas 8,9% desse valor foi devolvido aos prejudicados, de
acordo com informações do BC. O recorte considera restituições feitas por meio
do Mecanismo Especial de Devolução (MED). A compilação foi realizada pela
Central de Dados do O POVO .
É fato que o número de golpes representa
0,0067% das transações, percentual mínimo comparado à quantidade de transações.
No entanto, o valor desviado está na casa dos bilhões. E, para quem perde o
dinheiro, o prejuízo é total. Assim, é necessário que o Banco Central
aperfeiçoe mecanismos para evitar fraudes e para reaver rapidamente os valores
desviados, quando o golpe acontece.
Em edição nesta semana, a Folha de S.Paulo,
informou que a redução de verbas destinadas ao Banco Central está adiando
projetos de atualização tecnológica e inovações do Pix. De acordo com
especialistas ouvidos pelo jornal, a limitação de recursos estaria dificultando
o fortalecimento da infraestrutura do Pix, com alto risco operacional,
incluindo a ameaça para a segurança contra ataques de hackers.
É preciso ressaltar que as fraudes bancárias não nasceram com o Pix, pois estelionatários estão sempre a postos para explorar possíveis brechas em qualquer dispositivo, e não seria diferente nesse inédito sistema de pagamentos. Sem dúvida o Pix é um sistema seguro e de credibilidade. Mas é preciso cuidar para que a confiança alcançada pelo Pix entre os brasileiros não seja abalada.

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