Valor Econômico
Campanha arrisca passar ao largo de temas como a transformação do país no maior mercado de carros chineses do mundo
Na tarde deste domingo, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva esteve na posse da nova diretoria do Sindicato dos
Metalúrgicos do ABC onde disse que a abertura do mercado brasileiro ao carro
chinês levou a indústria automobilística a investir em modelos híbridos e
vender mais. Dali, Lula embarcou para Brasília onde falaria às 22h com o
dirigente chinês, Xi Jiping.
No relato da agência Xinhua, Xi apoiou o Brasil na ‘defesa de sua soberania e independência em oposição a interferências externas’, o que vai de encontro à tradição do país de não se escudar em proteção alheia. Dois dias depois, a manchete do Valor desenhou a curva da estrada: “Brasil já é o maior importador de carro chinês do mundo”.
Lula não faltou com a verdade lá onde foi
parido para a política, mas só contou uma parte da história. E a metade que
ficou faltando coloca a pressão do PT da Bahia antes das ameaças de Donald
Trump como origem de um país escancarado à indústria automobilística chinesa.
Não trará impacto sobre o emprego em São Paulo, Estado que ainda concentra 40%
da indústria automobilística do país, durante a campanha. A bomba tem efeito
retardado.
A novela começou em 2015 quando o governo
Dilma Rousseff zerou o imposto de importação sobre carros elétricos para
pressionar a indústria automobilística a modernizar sua produção. Atravessou os
governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Em 2024, o metalúrgico do ABC, de volta
ao poder, resolveu tomar uma atitude. E, em novembro de 2023, decidiu-se que o
imposto seria paulatinamente retomado até chegar à alíquota cheia de 35% em
2026. Ao longo desse período, porém, a transição conviveria com cotas de
importação livre de impostos.
Foi apenas nos últimos anos, porém, que a
redução no custo de produção na China permitiu a invasão de seus modelos num
preço competitivo. Em 2025, o Brasil era o sexto mercado dos carros chineses.
Em 12 meses, disparou para a liderança. No início deste ano, 13 sindicatos de
trabalhadores, oito sindicatos patronais e a Anfavea entupiram a mesa de Lula
de cartas pedindo para que as cotas de importação não fossem renovadas.
Não adiantou. Em 1º de julho, a alíquota
chegou a 35%, como planejado, mas as cotas foram renovadas até janeiro de 2027
para os kits de montagem rápida com um quinto da mão de obra. Como há estoques
elevados, o mercado estará entupido de carro chinês até meados do próximo ano.
A empresa que mais se beneficiou dessas cotas
foi a BYD, que, a despeito de ter inaugurado sua fábrica em Camaçari (BA) em
outubro do ano passado, se limita a montar kits importados que chegam em
navios-cegonha à Bahia. A chinesa ultrapassou indústrias que já investiram bilhões
no Brasil, como a Toyota e a Stellantis e está hoje entre as cinco marcas mais
vendidas no país. E desperta dissabores até em outras compatriotas, como a GWM,
que investe numa linha de produção no país.
As concessões à BYD dividiram o governo com
os ex-ministros Fernando Haddad, de um lado, e Rui Costa, de outro. A
construção da alegada ponte entre Salvador e Itaparica, que serviria de
contrapartida ao acúmulo de benesses, nunca saiu. E tampouco tem garantido uma
reeleição fácil para o governador Jerônimo Rodrigues (PT) dar seguimento aos 20
anos do poder de seu partido no Estado.
O que tradicionalmente se viu como choradeira
da Anfavea hoje é um pranto mundial. Os 100% de tarifa dos EUA sobre carros
elétricos chineses podem ser debitados ao desatino de Trump, mas na Índia,
terceiro maior mercado mundial, o imposto de importação chega a 110%. Nesta
segunda, o CEO da Volkswagen, maior automobilística europeia, disse que é
preciso elevar tarifas que já chegam a quase 50%.
Com o mercado se fechando no resto do mundo,
a China vale-se do Brasil para desovar estoques. Até o imposto cheio de 35%
para o carro que chega pronto ao Brasil não inibe o mercado. A GAC, sexta
automobilística chinesa, anunciou investimento bilionário no Brasil na presença
de Lula no ano passado. Deveria começar a produzir em 2027, mas, até agora, só
montou show-room para os veículos que traz da China, onde as unidades saem da
linha de produção em 72 segundos.
Nesta quarta, Lula recebeu Igor Calvet,
presidente da Anfavea. Celebrou-se o aumento de vendas no Brasil, que chegaram
aos patamares de 2014, mas registrou-se o descolamento inédito entre
emplacamentos superiores à produção, reflexo da maior fatia de importados. Para
evitar que a redução de margens - sempre alardeadas nunca conhecidas - da
indústria automobilística venha a comprometer os empregos do setor com uma
profusão de fusões, o presidente apelou a que as indústrias instaladas no
Brasil exportem mais.
Com a China tomando conta de um mercado cada
vez mais fechado, não vai ser fácil. Será igualmente difícil tirar o Brasil do
topo dos importadores. Empresas como a BYD fizeram acordos com a Uber e 99 para
facilitar a aquisição de carros que encantam passageiros. O motorista de
aplicativo que já não quer contribuir com a Previdência também não vai querer
abrir mão de comprar, com desconto, um carro mais moderno e mais econômico.
Como a campanha se iniciou com um avatar de Jair Bolsonaro, uma apologia de
estupro de jornalistas por bolsonaristas e um vídeo do presidente metalúrgico
num ABC que não existe mais, no fim dessa corrida, o passageiro vai custar a se
deparar com o Brasil real.

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