quinta-feira, 30 de julho de 2026

A campanha eleitoral dentro de um carro chinês, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Campanha arrisca passar ao largo de temas como a transformação do país no maior mercado de carros chineses do mundo

Na tarde deste domingo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve na posse da nova diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC onde disse que a abertura do mercado brasileiro ao carro chinês levou a indústria automobilística a investir em modelos híbridos e vender mais. Dali, Lula embarcou para Brasília onde falaria às 22h com o dirigente chinês, Xi Jiping.

No relato da agência Xinhua, Xi apoiou o Brasil na ‘defesa de sua soberania e independência em oposição a interferências externas’, o que vai de encontro à tradição do país de não se escudar em proteção alheia. Dois dias depois, a manchete do Valor desenhou a curva da estrada: “Brasil já é o maior importador de carro chinês do mundo”.

Lula não faltou com a verdade lá onde foi parido para a política, mas só contou uma parte da história. E a metade que ficou faltando coloca a pressão do PT da Bahia antes das ameaças de Donald Trump como origem de um país escancarado à indústria automobilística chinesa. Não trará impacto sobre o emprego em São Paulo, Estado que ainda concentra 40% da indústria automobilística do país, durante a campanha. A bomba tem efeito retardado.

A novela começou em 2015 quando o governo Dilma Rousseff zerou o imposto de importação sobre carros elétricos para pressionar a indústria automobilística a modernizar sua produção. Atravessou os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Em 2024, o metalúrgico do ABC, de volta ao poder, resolveu tomar uma atitude. E, em novembro de 2023, decidiu-se que o imposto seria paulatinamente retomado até chegar à alíquota cheia de 35% em 2026. Ao longo desse período, porém, a transição conviveria com cotas de importação livre de impostos.

Foi apenas nos últimos anos, porém, que a redução no custo de produção na China permitiu a invasão de seus modelos num preço competitivo. Em 2025, o Brasil era o sexto mercado dos carros chineses. Em 12 meses, disparou para a liderança. No início deste ano, 13 sindicatos de trabalhadores, oito sindicatos patronais e a Anfavea entupiram a mesa de Lula de cartas pedindo para que as cotas de importação não fossem renovadas.

Não adiantou. Em 1º de julho, a alíquota chegou a 35%, como planejado, mas as cotas foram renovadas até janeiro de 2027 para os kits de montagem rápida com um quinto da mão de obra. Como há estoques elevados, o mercado estará entupido de carro chinês até meados do próximo ano.

A empresa que mais se beneficiou dessas cotas foi a BYD, que, a despeito de ter inaugurado sua fábrica em Camaçari (BA) em outubro do ano passado, se limita a montar kits importados que chegam em navios-cegonha à Bahia. A chinesa ultrapassou indústrias que já investiram bilhões no Brasil, como a Toyota e a Stellantis e está hoje entre as cinco marcas mais vendidas no país. E desperta dissabores até em outras compatriotas, como a GWM, que investe numa linha de produção no país.

As concessões à BYD dividiram o governo com os ex-ministros Fernando Haddad, de um lado, e Rui Costa, de outro. A construção da alegada ponte entre Salvador e Itaparica, que serviria de contrapartida ao acúmulo de benesses, nunca saiu. E tampouco tem garantido uma reeleição fácil para o governador Jerônimo Rodrigues (PT) dar seguimento aos 20 anos do poder de seu partido no Estado.

O que tradicionalmente se viu como choradeira da Anfavea hoje é um pranto mundial. Os 100% de tarifa dos EUA sobre carros elétricos chineses podem ser debitados ao desatino de Trump, mas na Índia, terceiro maior mercado mundial, o imposto de importação chega a 110%. Nesta segunda, o CEO da Volkswagen, maior automobilística europeia, disse que é preciso elevar tarifas que já chegam a quase 50%.

Com o mercado se fechando no resto do mundo, a China vale-se do Brasil para desovar estoques. Até o imposto cheio de 35% para o carro que chega pronto ao Brasil não inibe o mercado. A GAC, sexta automobilística chinesa, anunciou investimento bilionário no Brasil na presença de Lula no ano passado. Deveria começar a produzir em 2027, mas, até agora, só montou show-room para os veículos que traz da China, onde as unidades saem da linha de produção em 72 segundos.

Nesta quarta, Lula recebeu Igor Calvet, presidente da Anfavea. Celebrou-se o aumento de vendas no Brasil, que chegaram aos patamares de 2014, mas registrou-se o descolamento inédito entre emplacamentos superiores à produção, reflexo da maior fatia de importados. Para evitar que a redução de margens - sempre alardeadas nunca conhecidas - da indústria automobilística venha a comprometer os empregos do setor com uma profusão de fusões, o presidente apelou a que as indústrias instaladas no Brasil exportem mais.

Com a China tomando conta de um mercado cada vez mais fechado, não vai ser fácil. Será igualmente difícil tirar o Brasil do topo dos importadores. Empresas como a BYD fizeram acordos com a Uber e 99 para facilitar a aquisição de carros que encantam passageiros. O motorista de aplicativo que já não quer contribuir com a Previdência também não vai querer abrir mão de comprar, com desconto, um carro mais moderno e mais econômico. Como a campanha se iniciou com um avatar de Jair Bolsonaro, uma apologia de estupro de jornalistas por bolsonaristas e um vídeo do presidente metalúrgico num ABC que não existe mais, no fim dessa corrida, o passageiro vai custar a se deparar com o Brasil real.

 

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