Revista Veja
Vivemos um tempo em que ser lembrado pesa
mais do que ter razão
Vivemos um tempo em que a atenção virou o bem mais valioso. No início do século, dizia-se que a informação era o novo petróleo. Hoje a informação é abundante. O que escasseia é a atenção. Capturá-la, em meio à inundação de dados, tornou-se o que de fato importa. Foi Herbert Simon quem antecipou a equação, ainda nos anos 1970: uma riqueza de informação produz uma pobreza de atenção. Meio século depois, erguemos uma economia inteira sobre essa pobreza. As plataformas não vendem vídeos, notícias ou entretenimento. Vendem minutos do nosso olhar ao maior anunciante. O produto somos nós, distraídos. Cada clique, cada curtida, cada segundo de permanência converte-se em dado, e cada dado converte-se em valor econômico.
A atenção tornou-se uma moeda. E, como toda
moeda, concentra poder. Quem consegue capturá-la passa a influenciar
comportamentos, moldar preferências, definir prioridades e estabelecer agendas.
O poder contemporâneo já não depende apenas da força, da riqueza ou da
autoridade institucional. Depende cada vez mais da capacidade de monopolizar o
foco coletivo. Em tempos eleitorais, essa lógica se radicaliza. Vence menos
quem tem razão do que quem ocupa a tela. A pauta não é definida pelo que é mais
importante, mas pelo que é mais capturável — o escândalo, o corte de quinze
segundos, a frase que arde, a indignação instantânea. O candidato disputa,
antes do voto, o tempo de atenção do eleitor.
“Nossos candidatos presidenciais não competem
prioritariamente por programas de governo, mas por visibilidade”
Nossos políticos já não competem
prioritariamente por programas de governo ou visões de país. Competem por
visibilidade. Disputam quem consegue ocupar mais espaço mental do eleitor. No
Brasil, onde o analfabetismo funcional permanece elevado e os índices de
leitura são modestos, a atenção frequentemente favorece o ruído. Como observou
Padre Antônio Vieira, quando o argumento é fraco, fala-se mais alto. As redes
apenas industrializaram esse princípio. Na economia da atenção, ser lembrado
pesa mais do que ter razão, e a origem conta menos do que o alcance.
Guy Debord, em sua análise da sociedade do
espetáculo, já percebia que a representação tendia a substituir a realidade.
Hoje avançamos um passo além. Vivemos em uma sociedade da interrupção
permanente, onde a capacidade de refletir tornou-se menos valiosa do que a
capacidade de reagir. A emoção precede a razão. O impulso derrota a ponderação.
Daí o paradoxo do título. República supõe cidadãos que dividem um mesmo olhar,
referências compartilhadas, um espaço onde se delibera interesses coletivos.
Mas a economia da atenção privatiza e fragmenta esse olhar. Cada indivíduo
passa a habitar seu próprio fluxo informacional, calibrado por algoritmos que
premiam o que provoca indignação, medo ou entusiasmo e punem o que exige tempo,
contexto e reflexão.
O resultado é uma esfera pública cada vez
mais atomizada. Erguemos, assim, uma República da Atenção que, ao capturar a
atenção de todos, dissolve o solo comum de qualquer República. Nunca estivemos
tão conectados. Nunca estivemos tão dispersos. Nunca produzimos tanta
informação. Nunca tivemos tanta dificuldade para distinguir o relevante do
irrelevante. Resta a saída mais difícil e mais antiga: tratar a atenção como
soberania. Talvez a única campanha que realmente importe seja a que travamos
contra a captura do próprio olhar. Quem controla a nossa atenção controla, em
larga medida, a nossa percepção da realidade. E reparo, não sem ironia, que
para dizer isto precisei capturar a sua.
Publicado em VEJA de 12 de junho de
2026, edição nº
2999
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