O Estado de S. Paulo
Deixamos de lado os experts para confiar à IA a previsão sobre o vencedor da Copa de 2026
Na Copa do Mundo de 2010, o polvo Paul ficou
famoso por prever corretamente todos os resultados da seleção alemã. Polvo,
vidente, sinais no céu, cartas de tarô – nós sempre buscamos algo ou alguém
para nos dizer o futuro.
Hoje, o nosso Oráculo de Delfos se transformou em tecnologia. O ganhador da Copa de 2026 está sendo urgido por ferramentas desenvolvidas para selecionar ações em Bolsas de Valores. Deixamos de lado a opinião de experts como técnicos, ex-jogadores e jornalistas esportivos e passamos o bastão para especialistas em fatores de risco, regressões estatísticas e modelos probabilísticos.
Pode parecer exagero, mas não é. Nos últimos
anos, bancos, fundos e pesquisadores passaram a aplicar ao futebol métodos
originalmente criados para o mercado financeiro e, recentemente, entraram nesse
jogo modelos de IA e os mercados de apostas. O objetivo é simples: descobrir
quem tem maior probabilidade de levantar a taça. Alguns desses modelos
acertaram vencedores com precisão impressionante. É o caso do estrategista de
mercado Joachim Klement, que ficou conhecido porque criou um modelo inspirado
em fatores usados em finanças para prever Copas do Mundo. O modelo acertou
Alemanha (2014), França (2018) e Argentina (2022).
O mais curioso é que seu criador não estava
tentando provar que os economistas conseguem prever o futuro. Estava
fazendo uma sátira da pretensão dos modelos
econômicos. Em 2026, ele aposta na Holanda. Outros modelos baseados em algoritmos
apontam como campeã a Espanha, enquanto as casas de apostas preferem França e
Argentina.
A divergência talvez diga mais sobre nossa
relação com o futuro do que sobre o futebol. Afinal, se nem as máquinas
concordam, por que continuamos procurando previsões com tanta convicção? Pela
nossa dificuldade em conviver com a incerteza. Bilhões de pessoas estão
buscando previsões sobre quem levantará a taça. Economistas construindo
modelos. Algoritmos calculando probabilidades. Bets transformando expectativas
em preços. No entanto, neste momento, a bola está rolando. Um desvio, uma
expulsão ou um pênalti improvável poderão derrubar em segundos meses de
cálculos e milhões de linhas de dados.
Talvez essa seja a verdadeira lição da Copa.
O problema nunca foi a falta de informação. O problema é que confundimos
probabilidade com certeza. A Copa talvez seja a melhor metáfora do século 21:
nunca tivemos tantos dados para prever o futuro – e nunca estivemos tão
conscientes de que ele continua nos escapando. Quanto ao vencedor de 2026? Eu
continuo preferindo a velha irracionalidade da esperança. Afinal, certas
previsões pertencem à estatística. Outras, à torcida. Brasil hexacampeão. •

Um comentário:
Eu nem assisto jogos de futebol,mas pela minha previsão,o Brasil será campeão.
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