terça-feira, 28 de julho de 2026

O show de Milei, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ataques de presidente argentino a Lula e Moraes são despropositados e desafiam lógica

Chefes de Estado deveriam abster-se de interferir em processos eleitorais de outros países

As diatribes de Javier Milei contra Lula e Alexandre de Moraes são tão despropositadas que é difícil até colocá-las sob uma moldura racional. Representam o triunfo do ego do presidente platino sobre os interesses de seu próprio país.

Não convém à Argentina criar arestas com um de seus principais parceiros comerciais. O Brasil absorve de 15% a 20% das exportações totais do país vizinho, que fica com 5% das exportações brasileiras.

Adaptando uma frase de Donald Trump para a América Latina, a Argentina depende muito mais do Brasil do que o Brasil da Argentina. E Milei sabe disso. Embora tenha feito sua campanha presidencial falando em retirar Buenos Aires do Mercosul, depois de eleito apressou-se em esquecer a promessa.

O governo brasileiro precisa reagir à selvageria diplomática do argentino, que cruzou a fronteira para meter-se na eleição brasileira, um assunto que não era da sua alçada, e, ao fazê-lo, violou regras básicas de civilidade. É pouco provável, contudo, que Lula vá além das medidas simbólicas. E é com isso que Milei conta.

É lamentável o retrocesso institucional nas relações internacionais a que assistimos nos últimos tempos. Milei é café com leite quando comparado a Trump. Lula, embora esteja se comportando aqui como adulto, não é um ator sem pecados em matéria de meter o bedelho em pleitos alheios. Foi ele, afinal, que rompeu com a tradição de presidentes brasileiros de não interferir em eleições de nações amigas e começou a apoiar explicitamente candidatos com os quais tinha afinidade ideológica. Ele participou de atos de campanha de Hugo Chávez, visitou Cristina Kirchner em prisão domiciliar e endossou a candidatura de Kamala Harris contra Trump, para dar alguns exemplos dispersos.

Se o presidente é o comandante em chefe das Forças Armadas, também é o comandante em chefe da diplomacia. Isso significa que nunca deveria posicionar-se de forma a criar potenciais saias justas, como ter de receber, na condição de chefe de Estado, o candidato do qual falou mal.

 

 

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