Folha de S. Paulo
Ataques de presidente argentino a Lula e
Moraes são despropositados e desafiam lógica
Chefes de Estado deveriam abster-se de
interferir em processos eleitorais de outros países
As diatribes de Javier Milei contra Lula e Alexandre de
Moraes são tão despropositadas que é difícil até colocá-las sob
uma moldura racional. Representam o triunfo do ego do presidente platino sobre
os interesses de seu próprio país.
Não convém à Argentina criar arestas com um de seus principais parceiros comerciais. O Brasil absorve de 15% a 20% das exportações totais do país vizinho, que fica com 5% das exportações brasileiras.
Adaptando uma frase de Donald Trump para
a América
Latina, a Argentina depende muito mais do Brasil do que o Brasil da
Argentina. E Milei sabe disso. Embora tenha feito sua campanha presidencial
falando em retirar Buenos Aires do Mercosul, depois de eleito apressou-se em
esquecer a promessa.
O governo brasileiro precisa reagir à
selvageria diplomática do argentino, que cruzou a fronteira para meter-se na
eleição brasileira, um assunto que não era da sua alçada, e, ao fazê-lo, violou
regras básicas de civilidade. É pouco provável, contudo, que Lula vá além das
medidas simbólicas. E é com isso que Milei conta.
É lamentável o retrocesso institucional nas
relações internacionais a que assistimos nos últimos tempos. Milei é café com
leite quando comparado a Trump. Lula, embora esteja se comportando aqui como
adulto, não é um ator sem pecados em matéria de meter o bedelho em pleitos
alheios. Foi ele, afinal, que rompeu com a tradição de presidentes brasileiros
de não interferir em eleições de nações amigas e começou a apoiar explicitamente
candidatos com os quais tinha afinidade ideológica. Ele participou de atos de
campanha de Hugo Chávez,
visitou Cristina
Kirchner em prisão domiciliar e endossou a candidatura de Kamala Harris contra
Trump, para dar alguns exemplos dispersos.
Se o presidente é o comandante em chefe das
Forças Armadas, também é o comandante em chefe da diplomacia. Isso significa
que nunca deveria posicionar-se de forma a criar potenciais saias justas, como
ter de receber, na condição de chefe de Estado, o candidato do qual falou mal.
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