terça-feira, 28 de julho de 2026

Problema de Flávio não é o Centrão, é o eleitor, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Flávio não perde votos pelo abandono do Centrão, perde o Centrão pelo abandono do eleitor independente

A debandada do Centrão é um baque mais político do que eleitoral para a candidatura de Flávio Bolsonaro. É um alarme avisando que aliados à direita, como PP, Republicanos e União Brasil, não estão botando muita fé nas chances de Flávio e isso pode significar retirada de apoio de setores-chave, mas não, necessariamente, perda de votos.

Ok, os chamados “setoreschave”, como indústria, comércio, agronegócio e igrejas, são suscetíveis aos movimentos e alarmes políticos e partidários e influenciam, sim, os votos em massa. Esses votos, porém, seguem mais as ondas, percepções e versões que se disseminam na sociedade, além do principal: o próprio interesse e o bolso do eleitor.

Assim, o mais ameaçador para Flávio não são a desconfiança e o abandono da direita interna, que ele tenta compensar com a ingerência externa de Trump, Milei, quem sabe, Netanyahu. O que realmente pesa e preocupa a campanha é a perda de musculatura no Sudeste.

Isso não é resultado da debandada do Centrão, mas da sequência de ações de Flávio e revelações assustadoras contra ele que impacta, inclusive, o Rio, berço político da família. Jair Bolsonaro ganhou no Estado com grande margem em 2018 e boa margem em 2022. Hoje, segundo as pesquisas, Flávio está empatado com Lula no segundo turno.

Em 2018, Geraldo Alckmin, então no velho PSDB, manteve a aliança com DEM e PPS e teve apoio formal de PP, PR, PSD, PTB, PRB e Solidariedade, ou seja, todo o Centrão (ou direitão). Assim, Alckmin teve o maior tempo de TV e fartos palanques regionais. Mas… ficou em quarto lugar no primeiro turno, com 4,76% dos votos.

Com o PSDB ladeira abaixo, a volatilidade e os rachas internos dos partidos do Centrão, ora com um lado, ora com outro, a coleção de siglas não serviu para nada. Quem definiu o jogo foi o ambiente no País, o desgaste da política e a entrada da internet, como nunca antes visto.

Foram para o segundo turno o meteórico PSL de Bolsonaro e o contundido PT de Fernando Haddad. O falso personagem “antipolítica” e o oportunista slogan “Deus, Pátria e Família” dispararam com o “anti-PT”, Bolsonaro venceu.

A conclusão é de que Flávio não perde votos por ser abandonado pelo Centrão, mas perde o Centrão por estar sendo abandonado pelo eleitorado independente, de centro e centro-direita, que tende a ser decisivo.

Flávio precisa avaliar melhor se os ataques de Trump ao Brasil e as grosserias de Javier Milei a Lula, em solo brasileiro, impulsionam ou corroem suas chances e o apoio de Centrão, mundo econômico e financeiro e, finalmente, do eleitorado moderado e de centro. Tudo indica que é mais um tiro no pé.

 

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